Uma das músicas mais curtas, mais simples e mais cinemáticas dos The Smiths.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
Il Posto (Ermanno Olmi, 1961)
Ermanno Olmi autoproclama-se um inversor do neorealismo, o que
constitui uma de duas razões que me levam a duvidar da validade do seu espírito
de crítica. Trabalhando o dia-a-dia de pessoas comuns e a adequação individual
à sociedade em redor, com intenção de capturar, ao invés de dramatizar, a
verdade, nunca abdicando de filmar no local ou de utilizar não-actores, fica a
sensação de que dificilmente alguém se inseriria melhor no género do que ele
próprio. Nenhum exemplo será tão bom quanto Il Posto, um filme simples que não
abdica do comentário social.
Seguindo um jovem residente nos arredores de Milão em processo de
candidatura a emprego numa grande empresa da cidade da Lombardia, Olmi consegue
desde cedo atingir um nível de grande perspicácia quanto à monotonia e assepsia
física e emocional dos processos e ambientes de trabalho modernos, feitos de
testes e tarefas intermináveis com propósitos ininteligíveis e com pouco espaço
para relações humanas relevantes. Felizmente para Domenico, conhece Antonietta
antes que se possa processar qualquer tipo de estandardização de sensibilidade.
O filme acaba por ter duas fases: numa primeira, impera a dúvida sobre
a colocação ou não dele nos quadros da empresa. Aprovado, começa como
mensageiro e depois passa a escriturário. Numa segunda, questionamo-nos sobre o
futuro em conjunto destes jovens. Aqui já não temos resposta. Apesar do óbvio
entendimento entre eles, parece haver uma terceira entidade invisível a
conspirar contra eles, colocando-os ao serviço em edifícios diferentes,
separando-os à hora de almoço na cantina e impedindo-os de se encontrarem no
baile de fim do ano.
É aqui que, voltando ao início, faço outro reparo e acho que Olmi perde
um bocado as rédeas do filme, no seu esforço de mostrar um vislumbre do
possível futuro de Domenico, que não é senão o negro presente dos seus colegas
mais velhos, uma vida solitária e sem estímulos. A percepção do potencial
desumanizador de um mundo urbano ultra burocrático e regularizado é
perfeitamente suportada pela monotonia do quotidiano, do preto e branco e do
estilo quase documental, não precisando de muletas como personagens secundárias
irrelevantes.
O argumento passa a andar à deriva quando decide que é necessário maximizar
o alcance e temos pistas de intrigas e depressões entre funcionários. A dada
altura, chega a festa da companhia, a que Antonietta acaba por não ir, uma
sequência belíssima com algum embaraço e humor, mas na qual o foco alterna
entre a diversão agridoce de Domenico com um olhar superficial e desinteressante
sobre outros convidados. É fazer demais, e quando, já no escritório, se luta
pela secretária melhor de um homem recentemente falecido, a imoralidade é
universal e não precisa de background.
Já em I Fidanzati tinha ficado com a impressão de se estar a
complicar o que é simples. É a prova de que há uma linha que separa as pequenas
ideias que conseguem adensar uma história eficazmente das que acabam por
enublá-la. Afinal, um emprego seguro não me parece nada mau e quem sabe o que o futuro trará. Il Posto não deixa
de ser historicamente relevante, por se ver uma Itália pacífica e em
desenvolvimento rápido nos anos 50-60, e emocionalmente genuíno, pela calma
atenção prestada ao quotidiano. É o L'Eclisse (Michaelangelo Antonioni, 1960)
do proletariado e com uma nota de esperança, intencional ou não.
7/10
sábado, 22 de setembro de 2012
NOTÍCIAS: Plano Nacional De Cinema
O Plano Nacional de Cinema arranca já este ano lectivo em 23 escolas. Polémicas e escolhas à parte, parece-me inegável que o projecto é positivo. O cinema é arte mas também é História e local de aprendizagem. As propostas são as seguintes:
Segundo Ciclo:
- Estória Do Gato E Da Lua (Pedro Serrazina, 1997) - Curta
- The Nightmare Before Christmas (Henry Selick, 1993)
- A Bola (Orlando Mesquita, 2003) - Curta
- Com Quase Nada (Carlos Barroco, Margarida Cardoso, 2003) - Documentário
- Aniki-Bobó (Manoel De Oliveira, 1942)
- As Coisas Lá De Casa (José Miguel Ribeiro, 2003) - Curta
- The Kid (Charlie Chaplin, 1921)
- E.T. (Steven Spielberg, 1982)
- Where Is My Friend's Home? (Abbas Kiarostami, 1987)
Terceiro Ciclo:
- História Trágica Com Final Feliz (Regina Pessoa, 2005) - Curta
- Corpse Bride (Tim Burton, 2005)
- Saída Do Pessoal Operário Da Fábrica Confiança (Aurélio Da Paz Dos Reis, 1896) - Curta
- Hugo (Martin Scorsese, 2011)
- Singin' In The Rain (Stanley Donen, Gene Kelly, 1952)
- Shane (George Stevens, 1953)
- Adeus Pai (Luis Filipe Rocha, 1996)
- Edward Scissorhands (Tim Burton, 1990)
- Romeo + Juliet (Baz Luhrmann, 1996)
- A Suspeita (José Miguel Ribeiro, 2000) - Curta
- O Barão (Edgar Pera, 2011)
- Outro País (Sergio Trefaut, 2000)
Ensino Secundário:
- Persepolis (Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi, 2007)
- A Noite (Regina Pessoa, 1999) - Curta
- Douro, Faina Fluvial (Manoel De Oliveira, 1931)
- Jaime (António Reis, 1974)
- Rafa (João Salaviza, 2012) - Curta
- City Lights (Charlie Chaplin, 1931)
- Les 400 Coups (François Truffaut, 1959)
- Senhor X (Gonçalo Galvão Teles, 2010) - Curta
- L'Esquive (Abdellatif Kechiche, 2003)
- Belarmino (Fernando Lopes, 1964) - Documentário
- Fado Lusitano (Abi Feijó, 1994) - Curta
- Les Glaneurs Et La Glaneuse (Agnès Varda, 2000) - Documentário
- Le Voyage Dans La Lune (Georges Méliès, 1902) - Curta
- O Estranho Caso De Angélica (Manoel De Oliveira, 2010)
- Os Salteadores (Abi Feijó, 1993) - Curta
- Torn Curtain (Alfred Hitchcock, 1966)
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
LISTAS: Andrei Tarkovsky
Os 10 filmes preferidos de Andrei Tarkovsky (em 1972):
- Woman In The Dunes (Hiroshi Teshigahara, 1964)
- Mouchette (Robert Bresson, 1967)
- Persona (Ingmar Bergman, 1966)
- Seven Samurai (Akira Kurosawa, 1954)
- Ugetsu (Kenji Mizoguchi, 1953)
- City Lights (Charlie Chaplin, 1931)
- Wild Strawberries (Ingmar Bergman, 1957)
- Nazarin (Luis Buñuel, 1959)
- Winter Light (Ingmar Bergman, 1963)
- Diary Of A Country Priest (Robert Bresson, 1951)
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
The Dark Knight Rises (Christopher Nolan, 2012)
É impressionante a dimensão que os últimos filmes do Batman atingiram, não
só em termos de bilheteiras, sendo que The Dark Knight Rises é o segundo desta
trilogia a ultrapassar os mil milhões de lucros, mas especialmente em termos de
alcance e espetacularidade. Lembro-me de este ser o meu super-herói preferido
quando era mais novo, em parte porque os seus únicos superpoderes são o treino
físico e a engenharia, em parte porque Gotham sempre me pareceu o sítio mais
negro e mais perigoso à face da terra. Lembro-me de quadradinhos cheios de
sombras e sangue, ruas imundas e vilões desfigurados. Lembro-me de achar que,
mesmo não desgostando do que o Tim Burton tinha feito, ainda estava para vir o
dia em que algum filme conseguisse captar o negrume e o sentido de ameaça
constante que transbordava da banda-desenhada. Hoje já não posso dizer o mesmo
nesse aspecto.
Oito anos depois dos eventos de The Dark Knight, a cidade está em paz.
Harvey Dent tornou-se um mártir da luta contra o crime e Batman um vilão
inexplicavelmente desaparecido. Na realidade, as provações do passado
debilitaram Bruce Wayne física e psicologicamente, mas os prenúncios de uma
"tempestade" preocupam-no. O submundo agita-se e, nos esgotos, um
antigo membro da Liga das Sombras, Bane, coordena um novo movimento terrorista.
Como Christopher Nolan admitiu, o tema predominante é a dor, e é de admirar que
a maior extravagância de efeitos especiais da sua carreira acabe também por ser
uma das mais dramáticas. A morte de Rachel parece insuperável, a intrepidez e
força de Bane revelam-se avassaladoras e a vontade de Alfred de proteger o seu
último amo de andanças que este poderá não mais aguentar levam Wayne a bater no
fundo em muitos sentidos.
Michael Caine tem mesmo a melhor interpretação aqui, com a personagem menos
glamorosa de todas mas a que esteve sempre mais próximo do herói do que
qualquer outra e consegue portanto prever com mais claridade que ninguém o
pior. Comunicar os seus receios, empilhados durante anos de serviço, com a
emoção de quem se preocupa e quer o melhor, e receber incompreensão como
resposta é a cena mais simples e mais visceral de todas. Esta é a grande
diferença em relação a The Dark Knight: o incessante jogo de gato e rato com o
Joker é substituído por uma procissão de eventos com destino a um apocalipse,
trazendo uma implacabilidade sem precedentes. É verdade que este salto de uma
rivalidade mitológica passível de ser prolongada ad infinitum para uma
conclusão pode ser demasiado definitivo num universo com tantas histórias, mas
não deixa de ser arrojado e lógico.
Desde o espectacular assalto a um avião da CIA às visões mais cataclísmicas
de Gotham (maioritariamente Nova Iorque, assumido sem pudor com establishing
shots do novo World Trade Center) é notório quão mais elevada é a parada para
os seus cidadãos, o caos já não é suficiente, o objectivo de Bane é a
destruição através da tortura, o combate de Batman e dos seus aliados, novos e
antigos, não é só contra o crime, mas contra a revolução, e há escolhas para
serem feitas. Aqui entra em evidência o maior triunfo de Nolan, que se serve da
intemporalidade de uma cidade ficcional permanentemente dividida entre forças
do mal palpáveis por se reduzirem a formas tão reais de corrupção (na economia,
na política, etc.) e violência (com criminosos de meia tigela, assaltantes de
bancos, etc.) e forças do bem credíveis por se reduzirem a polícias comuns ou a
um mascarado tão humano, para a dotar de uma subversiva contemporaneidade.
Com os países ocidentais em recessão, as suas sociedades em estagnação
cultural e as populações em clivagem de 99% contra 1%, são tempos de
incertezas. Bane é um beco sem saída, que oferece um meio de libertar
frustrações mas nenhuma solução sustentável. Selina Kyle (Anne Hathaway
perfeita para o papel), avisa Wayne de que, em breve, os ricalhaços como ele
vão ser confrontados com o facto de viverem em abundância enquanto o resto tem
de remediar, por regra. Ver a bolsa ser destruída por metralhadoras pode ser
doentiamente satisfatório. Sendo o capitalismo a base do nosso sistema, é um
pensamento assustador. The Dark Knight Rises não precisava de ser um fim, mas,
a sê-lo, faz a ponte que se impunha até Batman Begins e desenvolve-se com uma
ambição enorme, que Nolan gere com a sua lacónica competência. É o meu preferido
da trilogia.
9/10
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
CURTAS: North Atlantic (Bernardo Nascimento, 2010)
Esta curta portuguesa concorreu ao Your Film Festival, promovido pelo site Youtube e com o patrocínio de Ridley Scott. Não ganhou, mas é, inegavelmente, um grande trabalho. Vejam!
terça-feira, 18 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
December Boys (Rod Hardy, 2007)
Daniel Radcliffe interpreta um órfão
- o alcance deste rapaz é incrível. Pelo menos o casting não podia ter corrido
melhor, é difícil negar o seu talento para este tipo de papéis e a sua presença
em nada minimiza o filme, antes pelo contrário. December Boys trata de um
orfanato católico, perdido no interior da Austrália nos anos 60, que passa a
ter a possibilidade de mandar de férias os seus inquilinos, para uma pequena
localidade piscatória. Os primeiros a embarcar nessa oportunidade inédita de
viajarem até à costa são os 4 miúdos com aniversário em Dezembro, ou seja,
Maps, Misty, Sparks e Spit.
A história é narrada pelo segundo,
idoso e fora de câmara, como que recontando a sua infância ingénua e invulgar a
uns possíveis netos. O filme começa por mostrar, com agradável neutralidade, a
calma vida no asilo, onde, apesar das regras das freiras, não deixava de haver
espaço para se crescer saudavelmente e para comportamentos transgressivos de
vez em quando, que também fazem parte da idade. Não vilificar este ambiente é
uma decisão acertada quando é suposto a nostalgia mostrar o caminho, e desde
cedo vieram-me à memória Picnic At Hanging Rock e Walkabout.
Alegres mas confinados e alojados
no meio de nenhures, sair dali temporariamente é uma ideia que nunca deixa de
fascinar os amigos, mas essa gratidão pela oportunidade é demais evidente durante
a travessia pelo deserto até ao mar, em que belas imagens do território
australiano se sucedem, evocando a imensidão do mesmo. Misty arregala os olhos
sonhadores atrás dos óculos. Nem 10 pessoas moram na baía que os acolhe e 2
delas são o bondoso casal McAnsh, que lhes oferecem residência e disciplina
suficiente para contrabalançar a liberdade inédita.
Enquanto os mais jovens, em
especial Misty, orientam esforços para que um deles possa ser adotado pela
francófona Teresa e o motoqueiro circense Fearless, um par amoroso impedido de
ter filhos, a atenção de Maps, mais velho e noutra fase do seu crescimento, é
desviada para uma rapariga, Lucy. Todo o embaraço característico de Daniel
Radcliffe se adequa à personagem, vê-se logo no primeiro contacto que tem com
Teresa (saindo da água, nua, para oferecer aos miúdos protetor solar). Está em
idade de começar a interessar-se pelo sexo feminino mas é demasiado desajeitado,
pela falta de prática.
O argumento consegue ser meigo
mesmo quando confronta as vivências infantis do quarteto com temas menos
inócuos, como o cancro. Estabelece também com sucesso a amizade forte que une
os órfãos e mesmo quando se desentendem parece que nunca perdem noção de que
estão no mesmo barco. Chega a ser especialmente tocante a forma como acabam por
apoiar Misty para que este ganhe os pais por que sempre desejou. É nesta altura
que há uma reviravolta que estraga toda a experiência do filme, com Misty a
preferir voltar para as freiras depois de tantas preces para ser abençoado com
a família perfeita.
Tudo indicia a permanência de
Misty na baía, passamos todo o tempo a desejar que seja adotado, porque é o que
ele quer e merece, para, no fim, ele rejeitar isso tudo e é suposto
aceitarmo-lo com a maior leveza e compreensão possíveis. Nunca vi um filme
criar tanta expectativa e depois dizer "meh, deixem lá, se calhar é melhor
continuar como estava". É um desperdício da simpatia dos atores e da
fotogenia da Austrália. Ficam as brincadeiras no areal, os primeiros beijos e
amores, o potencial de Daniel Radcliffe e Teresa Palmer, o espírito de
inocência e descoberta, tão difícil de descrever, tão bem captado aqui.
6/10
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Círculo de Críticos Online Portugueses
"O CCOP é um grupo seleccionado de críticos online de cinema portugueses, cuja accção se centra essencialmente na classificação dos filmes estreados mensalmente nas salas de cinema portuguesas, de forma a produzir um conjunto de tops mensais, com oportunos dados estatísticos."
Orgulho-me em informar que O Narrador Subjectivo faz agora parte deste conjunto de cinéfilos e agradeço aos outros membros por me terem seleccionado. Podem consultar o blog do projecto aqui.
Get to da choppa!
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