Só para dizer que fiz uma modesta passagem pelo BFI London Film Festival este fim-de-semana, mais concretamente no sábado, onde vi, no cinema Vue em Leicester Square, o novo filme de Paul Schrader, Dog Eat Dog, uma comédia negra com Nicolas Cage e Willem Dafoe em estado de delírio total. Sinceramente, a melhor parte foi o realizador estar presente e pronto para interagir com a audiência. Afinal, estamos a falar do homem que escreveu Taxi Driver, Raging Bull ou The Last Temptation Of Christ, para mencionar algumas das colaborações com Martin Scorsese.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
sábado, 8 de outubro de 2016
Successive Slidings of Pleasure (Alain Robbe-Grillet, 1974)
Uma artista adolescente é presa por supostamente ter
assassinado a mulher mais velha com quem vivia. Se por um lado esta insiste que
um estranho entrou no apartamento e terá cometido o crime, apesar de lhe
pertencer a tesoura usada como arma, por outro diverte-se com a atenção que lhe
é dedicada pelo detetive da polícia, o juiz local, o padre e as freiras da
prisão, inventando histórias de prostituição, sadomasoquismo e lesbianismo para
os chocar – e aos espectadores, diz mesmo uma personagem.
Com Robbe-Grillet as coisas nunca são fáceis de decifrar. Aliás,
são propositadamente impossíveis e quando começamos a tentar descobrir o que é
verdade e o que é mentira no contexto do enredo é quando o autor passa a
ter-nos na mão, porque no cinema tudo é uma ilusão. Assim, é permitido o
inexplicável. Successive Slidings Of Pleasure assemelha-se a um labirinto com
infinitos becos sem saída e no fim volta-se à entrada. Através de padrões,
motivos e repetições somos chamados à atenção para palavras, atos ou objetos
que podem ter implicações palpáveis para o caso ou valor puramente surrealista.
A certa altura, o juiz e a adolescente testam-se através de
livre associação. O que se conclui através desse método de psicanálise parece
ser vago e condicionado pelo que se procura naquilo que se ouve, e cada um
procurará algo diferente consoante a sua sensibilidade. Da mesma forma, a pá
encontrada num armário pode ou não ter relação com a pá do coveiro que enterra
uma amiga da escola. Pela masmorra de tortura medieval em uso pelo clérigo pode
estar a ser estabelecido um caso real de maus tratos, um paralelismo simbólico
com as bruxas de antigamente ou uma fantasia sexual perversa. E por aí fora.
Tal como em Eden And After, a nudez e a violência são
constantes, andam de mãos dadas e têm tanto de perturbador como de fascinante. Robbe-Grillet
preenche cada frame de película com a mesma duplicidade de cada página dos seus
textos. Ninguém cria um enigma como ele, ou não estivéssemos a falar da pessoa
que escreveu Last Year At Marienbad (1961). Hostil à ideia de uma narrativa, em
Successive Slidings Of Pleasure constrói outra vez um mundo de provocações
intelectuais aberto a todas as interpretações.
8/10
domingo, 2 de outubro de 2016
The Lobster (Yorgos Lanthimos, 2015)
David (Colin Farrell) é um arquiteto em processo de
separação numa cidade distópica onde estar solteiro é tratado como um crime.
Assim, tem de se retirar para um complexo no campo com todos os confortos de um
hotel de luxo, onde será induzido a encontrar uma nova parceira entre os
restantes hóspedes, nos 45 dias em que lá pode permanecer, ao fim dos quais é
compulsivamente transformado num animal à sua escolha. Logo de início define a
sua preferência por lagostas, porque vivem um século, têm sangue azul como os
aristocratas e mantêm-se férteis durante toda a vida. Mais à frente, enfatizam-lhe
a alta probabilidade de ser apanhado do mar e cozinhado vivo. Como se o absurdo
estivesse na opção tomada e não num sistema social que obriga a metamorfoses
forçadas.
O filme é hilariante e deprimente em igual medida na
apresentação das regras destinadas a controlar as relações da população, tanto
na metrópole, onde a polícia interroga quem anda sozinho no shopping, nesta
espécie de centro de acolhimento, onde são encenadas situações cujo desfecho é
muito diferente quando se tem alguém por perto e quando não se tem, para
incentivar as uniões, como na floresta onde se refugiam os desertores, à qual
vai parar, em que todos admitem sem inibições quando se masturbam, mas só podem
dançar sem contacto físico, porque na cabeça distorcida da sua líder (Léa
Seydoux) a melhor revolta não é as pessoas juntarem-se por amor, mas sim não se
juntarem sob nenhuma circunstância. Nem em exílio David usufrui de um convívio
genuíno e sem restrições.
Com tanto extremismo, não surpreende que na civilização os
casais sejam artificiais, agarrando-se a ou inventando insignificantes pontos
em comum para justificar a sua permanência na raça humana, e fora dela sejam impossíveis,
quando a adversidade até cria condições para se aproximarem naturalmente. Primeiro,
David junta-se à mulher mais instável do hotel, propondo simular uma total falta
de sentimentos. Quando ela, para o testar, lhe mata o cão, que terá sido o seu irmão,
ele, como não é um psicopata, chora, denuncia-se, atordoa-a e foge. Na
clandestinidade, aproxima-se de uma míope (Rachel Weisz) só por também o ser, formatado
que está para reconhecer esses detalhes como essenciais neste mundo
despersonalizado, e até acaba por estabelecer com ela uma ligação tão perto do
amor quanto possível.
A líder descobre e cega-a. No fim, ele ameaça tirar os
próprios olhos, ou seja, apesar de tudo precisa de continuar a partilhar uma característica
aleatória para validar esta afeição, não consegue libertar-se das convenções em
que foi criado. Lembrei-me do alheamento visto em Her, ainda que The Lobster
não o retrate apenas como consequência das novas tecnologias, estende-o aos
valores atuais do ocidente em geral, nem com a leveza de Spike Jonze, antes com
a gravidade (e a tortura animal enquanto metáfora) de Michael Haneke misturada
com o humor seco de Wes Anderson. Quando temos a natalidade a diminuir, estudos
que apontam a geração Y como a menos ativa sexualmente dos últimos 100 anos e a
Dinamarca a promover o coito com efeitos reprodutivos através de campanhas de
televisão, dá que pensar.
8/10
sábado, 24 de setembro de 2016
Closer (Mike Nichols, 2004)
Closer congregou um texto engenhoso, um elenco adequado e um
timoneiro experiente, três atributos primordiais para o sucesso de um filme
numa perspetiva clássica, herdada do teatro. O realizador Mike Nichols levava
já anos de análise dos meandros das relações humanas, tendo inaugurado a
carreira em 1966 com a herculeana tarefa de dirigir Elizabeth Taylor e Richard
Burton, o casal mais volátil da história de Hollywood, na transposição da peça
Who’s Afraid Of Virginia Woolf?, sobre um matrimónio entorpecido pelo consumo
constante de álcool. Clive Owen, como um dermatologista manipulativo, Julia
Roberts, como uma fotógrafa deprimida, Jude Law, como um escritor cobarde, e
Natalie Portman, como uma stripper à deriva, constroem os papéis com um
discernimento profundo do seu alcance. E o argumento fez esses estereótipos
colidir de forma a expor as suas vulnerabilidades, que estão cobertas por
diálogos cheios de falsidade e arrogância.
A genialidade de Closer reside na sua momentaneidade. Ao
focar-se apenas nos pontos de viragem nas uniões e desuniões, encontros e
desencontros dessas quatro pessoas, abrem-se valas de interrogações nos
períodos intermédios. Vemo-los a confrontarem-se, revelarem-se, agredirem-se e
abandonarem-se uns aos outros vezes sem conta, mas e os anos pelo meio durante
os quais enganaram os parceiros dia após dia? Quando estavam juntos, faziam os
seus programinhas ou iam para a cama, quantas mentiras contaram? Quando não
estavam juntos, quantas vezes foram infiéis premeditadamente e depois voltaram
para casa e perpetuaram a sua falta de honestidade? Essa intimidade amorfa é
considerada pornográfica, não a vemos, ficamos apenas com as roturas, cujas
conclusões revelam sempre o valor real das relações, mesmo quando as palavras não
condizem com os acontecimentos. Por causa desses vazios, cada cena ganha uma
força própria. Menos é mais.
Os filtros na linguagem vão desaparecendo. Os insultos e as
avaliações de caráter tornam-se brutais, frequentes e reveladores. À medida que
a convivência se vai prolongando, mais fácil fica adivinhar o que fere o outro
lado numa discussão. Apenas quando Dan (Law) conhece Alice (Portman) há
vestígios de inocência e de desprendimento, e até aí diria que são unilaterais,
pois no fim percebemos que a jovem americana perpetuou a maior farsa da
história, ao assumir outra identidade durante a sua passagem pelo Reino Unido.
Cada espetador terá a sua interpretação sobre quem é a maior vítima das
circunstâncias; eu acredito que seja Dan, porque se deixa levar por
ingenuidades quando tem de tomar decisões e perde ambas as mulheres, uma para
outro homem, a outra… nunca chegou a tê-la. Quanto ao elo mais nocivo, nem me
aventuro a argumentar. É irónico que um filme sobre disfuncionalidades consiga
ser tão esclarecedor. “Have
you ever seen a human heart? It looks like a fist wrapped in blood.”
9/10
domingo, 18 de setembro de 2016
Cannibal Holocaust (Ruggero Deodato, 1980)
Fita icónica do exploitation italiano dos anos 80, Cannibal
Holocaust é um dos filmes mais viscerais alguma vez feitos. Pode-se discutir as
polémicas que o envolveram, pode-se discutir as intenções do conteúdo, a uns
pode fascinar, a outros pode repugnar, mas ninguém fica indiferente aos níveis
de realismo e de intensidade que são impostos do início ao fim. Por muito
exagerada que pareça a história, por muito descuidado que seja em termos
técnicos, esta é uma experiência capaz de fazer qualquer um contorcer-se na
cadeira, o que, por si só, representa um triunfo cinemático.
A viagem de uma equipa jornalística americana que se perde
na selva amazónica, sendo descobertos, dois meses depois, apenas os vídeos que
gravaram durante a sua expedição à procura de tribos indígenas canibais, tem
todos os ingredientes para uma chacina de fazer virar o estômago. Realmente,
vemos mulheres empaladas, animais mortos, violações em grupo e, claro, sangue a
esguichar em cascatas. Se juntarmos a isto as condições exigidas por Deodato
para criar a ideia de que se estaria perante um documentário e não de ficção,
desde o estilo caseiro das filmagens às cláusulas nos contratos dos atores para
não aparecerem em público durante um ano após a estreia, compreende-se que
tenham surgido rumores de que muito de Cannibal Holocaust era verdade, ao ponto
de a justiça ter sido forçada a abrir uma investigação.
Em todo o caso, muito além desta javardice, merece destaque
um aspeto que não salta tanto à vista, que é a estrutura do argumento.
Inicialmente segue-se o cientista Monroe, que se aventura no interior da
América do Sul com dois soldados para apurar o paradeiro dos repórteres. Acaba
por se deparar com a tribo que lhe fornece as tais cassetes, que leva consigo
para análise nos EUA. A cadeia televisiva que financiou a expedição inicial
solicita uma projeção privada das mesmas, pois têm os seus direitos e podem
decidir tornar as imagens públicas. Só nesta altura começa o festim gore e os
executivos presentes desistem da intenção de transmitir ao verem os últimos
minutos, quando a bizarria se torna, para qualquer espectador, quase impossível
de tolerar e conter os vómitos.
Assim, tem-se duas viagens intercaladas e apresentadas em
ordem cronológica inversa, aumentando-se a expectativa, na certeza de que nada
pode preparar para tanta violência. Os críticos teceram teorias sobre desprezo
pelo sensacionalismo dos media, Deodato respondia que apenas queria fazer um
filme com canibais. Seja como for, escorre uma enorme torrente de antropofobia,
sendo difícil sentir o que quer que seja tanto pelas tribos ameaçadas por gente
supostamente civilizada como pela gente civilizada ameaçada por tribos supostamente
selvagens. Onde estão os verdadeiros canibais fica ao critério de cada um.
7/10
domingo, 11 de setembro de 2016
The Hateful Eight (Quentin Tarantino, 2015)
A estreia de um novo filme de Quentin Tarantino é sempre um
evento, tão próprio é o seu estilo e tão idiossincrática é a sua personalidade.
Ainda assim, desta vez ele decidiu levar a expressão a outro nível, reavivar o
formato Ultra Panavision 70, que usa a maior bitola cinematográfica de todas e
estava desaparecido desde Khartoum (Basil Dearden, 1966), obrigar à
substituição dos projetores digitais de salas um pouco por todo o mundo por
projetores de película e criar um espetáculo itinerante à antiga para anunciar
o seu regresso.
Este circo parece-me particularmente adequado para The
Hateful Eight, que representa a “experiência Tarantino” no seu estado mais
extremo. Apenas o díptico Kill Bill ultrapassa os 167 minutos deste western. Os
capítulos e flashbacks não faltam. Na banda-sonora, consuma o seu fetiche de
ter material original do mítico Ennio Morricone. Estão de volta Michael Madsen,
Tim Roth ou Kurt Russell, a juntar a outros regulares. O seu truque de abrandar
o ritmo com frente a frente intermináveis e juntar protagonistas num espaço
reduzido nos clímax para efeito dramático é aqui esticado a uma história
inteira.
Corre a ideia de que os filmes deste realizador estão
repletos de ação frenética, o que está longe da verdade. A extravagância não
tem limites na construção das personagens, nos diálogos sem filtros, na
violência explícita ou nos movimentos de câmara, o que dá azo a muito frenesim.
No entanto, para compreender o seu funcionamento há que notar como Pulp Fiction
culmina num monólogo transcendente à mesa de um diner ou como os heróis de
Django Unchained são expostos num jantar de meia hora à luz das velas. As
melhores cenas são lentas, compridas, tensas e reveladoras.
The Hateful Eight é isso quase do início ao fim. Marquis
Warren (Samuel L. Jackson) crava boleia a John Ruth (Kurt Russell) no meio de
uma tempestade até um alojamento conhecido na zona. São ambos caçadores de
recompensas, o primeiro acredita na lei da bala, o segundo entrega os
criminosos vivos à justiça. Precisamente por isso, transporta consigo Daisy
Domergue (Jennifer Jason Leigh, a interpretação mais marcante, com a cara
coberta de sangue e os olhos cheios de loucura), que deverá ser enforcada numa
cidade ali perto. Eles e outros seis viajantes vão ter de esperar que a neve
pare de cair à volta da mesma lareira.
Claro que cada um tem o seu motivo para ali estar e um
passado com ramificações até aquele momento. As surpresas precipitam as trocas
de tiros, até porque é a mais apurada coleção de misantropos de Tarantino
alguma vez vista, o que claramente o divertiu durante o processo de escrita.
Ruth espanca a mulher que carrega sem receio de ser apelidado de misógino. No
seu masoquismo, Daisy lambe as feridas que lhe abrem na cara. Marquis mente a
torto e a direito. O resto do pessoal é racista, tanto contra os pretos como
contra os mexicanos (incluindo uma afro-americana que não deixa gringos entrar
no seu estabelecimento).
Todos esses rótulos foram usados erradamente ao longo dos
anos pelos críticos para descrever o autor em questão, por isso desta vez vira
o bico ao prego e ninguém no filme tem quaisquer qualidades redentoras. Claro
que não é o seu melhor trabalho, mas se todos conseguissem sambar na cara das
invejosas com esta destreza e esta criatividade, o mundo seria um lugar melhor.
The Hateful Eight é um espetáculo que só podia vir da cabeça de uma pessoa à
face do planeta, um western na neve mais impiedoso que Day Of The Outlaw (André
De Toth, 1959) que se assemelha a um whodunnit mais exaustivo do que Reservoir
Dogs.
8/10
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Goldfinger (Guy Hamilton, 1964)
Para muitos, Goldfinger é o ponto alto da passagem do agente
secreto James Bond para o cinema. A interpretação a cargo de Sean Connery, a
banda sonora com a voz de Shirley Bassey e a imagem da loira platinada morta
por sufocação depois de ter sido coberta em tinta dourada e abandonada numa
suite do fabuloso Hotel Fontainbleau em Miami são chamarizes eficazes. Não lhe
falta estilo nem ousadia. É inaugurada a tradição da sequência pré-créditos sem
relação com o resto do enredo, aqui completa com o ator escocês a envergar um
blazer branco com uma rosa vermelha na lapela e a segurar num cigarro no
preciso momento em que uma bomba por ele plantada explode nas redondezas,
porque “cool guys don’t look at explosions”. É usada a alcunha mais badalhoca
de toda a série, Pussy Galore, uma aviadora que lidera um grupo de aprendizas
femininas que só vestem licra justinha quando estão nos comandos. Várias
imagens de marca que hoje damos como garantidas tiveram a sua origem aqui.
Até agora nada de negativo, apreciando-se esta mistura de
mistério internacional, humor sarcástico e estilo extravagante, como é o meu
caso. O agente do MI6 que seduz todas as mulheres que lhe aparecem pelo caminho
e que resolve todas as ameaças do submundo do crime com o máximo de discrição é
entretenimento de referência. No entanto, sempre torci o nariz a este
Goldfinger, essencialmente pelo seguinte: James Bond é inútil nesta
história! Basta realçar que passa dois terços do tempo preso. A partir do
momento em que Oddjob, o capataz mudo com um chapéu assassino, vassalo do
milionário louco do título, apanha o nosso herói a espiar uma fábrica de
fundição de ouro, o papel deste resume-se a ter um laser perigosamente perto do
abono de família, levar porrada, ser preso, levar porrada e não conseguir
desativar uma bomba. Pelo meio, fica por determinar se convence Pussy Galore a
mudar de lado quando a viola (!) e a dar o alarme ou se esta era uma agente
infiltrada na quadrilha de Goldfinger desde o início.
Estar à mercê do mau da fita a certa altura faz parte da
receita de qualquer filme do 007, mas não é preciso levar isso a este exagero.
Já para não falar da risível tentativa de vingança do primeiro, que consegue
entrar armado num jato privado da CIA que é suposto levar Bond e a senhora Pussy
ao encontro do presidente dos EUA. Isto depois de o seu plano de arrombar o
Fort Knox, com recurso ao espalhamento de gás tóxico sobre a base militar que o
guarda, para matar milhares de soldados, avançando sem resistência para a
contaminação da reserva de ouro da maior potência mundial com radiação nuclear,
tornando-a inútil e aumentando exponencialmente o valor das barras que passou a
vida a contrabandear e a guardar, sair gorado. Apesar da sua relevância no
estabelecimento de ideias-chave deste universo cinemático, Goldfinger acaba por
ser o mais medíocre da era Connery.
5/10
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
On Her Majesty's Secret Service (Peter R. Hunt, 1969)
On Her Majesty’s Secret Service, ou o filme em que James
Bond se casa e a esposa é assassinada horas depois na Serra da Arrábida. O
sexto tomo da série do espião mais famoso do cinema é afamado por vários
motivos, sendo a passagem por Portugal um deles, ou não tivesse Ian Fleming, o
criador da personagem, absorvido inspiração para algumas das aventuras nas suas
estadias no Casino e no Hotel Palácio do Estoril. Diz-se que o produtor Harry
Saltzman planeara usar praias francesas como local de gravação, mas o
realizador Peter Hunt achou que eram cenários já gastos e decidiu-se antes
pela província da Estremadura.
Para além de ser a única vez, até agora, que 007 pede um
Martini batido, não mexido, no nosso retângulo, é desenvolvida uma história
invulgarmente pessoal e regista-se a primeira mudança de ator no papel
principal, com a saída do pioneiro Sean Connery e a entrada do inexperiente
George Lazenby. O decréscimo de carisma a este nível desilude, é impossível não
pensar que, com o escocês a dar a cara, este talvez tivesse sido o melhor Bond
de sempre. Podemos, contudo, contentarmo-nos com a presença de Diana Rigg, a
noiva, que ainda é das mulheres mais fascinantes que apareceu no grande ecrã.
A Suiça também está em destaque, mais concretamente o
cantão de Berna, com os teleféricos e as pistas de neve de Mürren a esconderem
um laboratório secreto onde Blofeld (também interpretado por um novo ator, neste
caso Telly Savalas) está refugiado, a preparar um conflito biológico. O
encontro entre o herói e o vilão só é possível porque On Her Majesty’s Secret Service
antecede cronologicamente You Only Live Twice, permitido assim que Bond se
infiltre, sem ser reconhecido, com o disfarce de perito em heráldica,
contratado para validar um título falso de conde que Blofeld quer usar como
fachada.
Esta perseguição ao número um da SPECTRE é facilitada por
uma organização criminosa concorrente, pronta a fazer jogo duplo com os
serviços secretos para benefício próprio. É assim que entra em cena Draco, o
seu chefe, e a filha Tracy, por quem o agente inglês se apaixona, pelo que, no
meio do enredo já de si bastante sólido, há essa dimensão sentimental que é
muito bem gerida e que se manteve ausente da série até à época de Daniel Craig.
Com todos estes elementos diferenciadores, não é de espantar que On Her
Majesty’s Secret Service receba frequentemente louvores dos fãs.
8/10
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Morvern Callar (Lynne Ramsay, 2002)
Às vezes somos confrontados com pessoas, situações ou
atitudes que mexem connosco num nível primitivo de emoção e que percebemos sem
perceber porquê, sem as conseguir explicar coerentemente. Morvern Callar pode
ser uma experiência desse tipo ou pode ser uma frustrante sucessão de momentos
de irracionalidade pura. A primeira cena pode dizer tudo e pode não dizer nada,
mas dirá demasiado àqueles que imediatamente quiserem julgar a personagem
principal. O namorado de Morvern está deitado no chão da casa onde viviam,
morto, com os pulsos cortados, e é impossível dizer se Morvern se sente triste,
contente, se sente o que quer que seja perante tal cena. E esse é o cerne da
divisão entre espectadores que adoram este filme e espectadores que o odeiam.
Porque mesmo que pouco ou nada do que ela faça a partir desse ponto seja
razoável, simplesmente será difícil apreciar a forma como, confrontada com a
dúvida, com o suicídio inexplicável de alguém que lhe era próximo, ela recusa
sentir-se paralisada e deixa o seu instinto tomar todas as decisões e levá-la
aonde quer que seja, já que uma coisa é certa, a sua vida nunca mais será a
mesma. Se ela sente raiva ou se sente mágoa é impossível auferir e,
provavelmente, até sente tudo ao mesmo tempo, sentimentos contraditórios,
porque quando há muitas perguntas e nenhumas respostas ficamos a tatear no
escuro e no escuro tudo é igual para o observador destreinado.
Samantha Morton é brilhante. Brilhante. Pega na sua personagem,
que é uma personagem que até nem tem muitos traços característicos à partida,
que prima por passar despercebida em ambientes sociais, introvertida e pouco
faladora, e obriga-nos a prestar atenção a tudo o que faz, a cada gesto ou
tique, porque nunca sabemos quando vai revelar algo que possa denunciar a razão
porque age constantemente de formas tão imprevisíveis e inescrutáveis. Mas,
claro, nunca se vai explicar a ninguém. Não haverão grandes confissões nem
grandes prantos. O que só nos obriga a prestar ainda mais atenção. Que é que
vai na cabeça desta mulher? Porque é que ela vai a uma festa depois de
descobrir o namorado morto? Porque é que abandona a sua melhor amiga sem uma
palavra por causa de uma disputa ridícula na viagem que fazem a Espanha? Porque
é que sorri, só sorri e porque é que um sorriso em tempo de tragédia é centenas
de vezes mais desarmante que uma cascata de lágrimas? Este filme é o
existencialismo em imagens e sons, e, tal como o existencialismo, é imensamente
frustrante e é imensamente cativante. Lynne Ramsay começa a recolher atenções,
e Morvern Callar, no fundo, não é assim tão diferente de Ratcatcher,
outro filme em que seguimos alguém que vê a face da morte e prossegue a sua
vida a um passo desajeitado. Ramsay opta agora por um trabalho de câmara mais
fluído, com menos close-ups e mais distante de Robert Bresson, que sempre me
pareceu ter sido uma referência na rodagem da estreia. Morvern Callar é um
filme belo, profundo - único.
9/10
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008)
O grande mérito de Vicky Cristina Barcelona está no
equilíbrio que atinge entre os tons cómicos dos filmes de sempre de Woody Allen
e o fatalismo melancólico que se tem tornado mais evidente nos últimos anos
(ainda que talvez nunca volte a atingir a desolação de um dos seus trabalhos
mais esquecidos, Interiors). A história segue duas amigas americanas que
decidem passar um verão em Barcelona. Ambas gostam de parecer maduras, uma mais
discreta, a outra mais desinibida, contudo a sua real ingenuidade virá a
perturbá-las com decisões que não conseguem racionalizar.
Cristina (Scarlett Johansson numa interpretação sem carisma)
e Vicky (Rebecca Hall a espalhar subtileza) conhecem Juan Antonio (Javier
Bardem com muita classe) e uma teia de relações amorosas começa a desdobrar-se
à nossa frente. Ainda que a geometria do guião seja admirável, as ansiedades de
Allen não encontram apoio na narração seca e vazia, nem na inabilidade de
Javier Aguirresarobe de filmar diálogos que se estendam por mais de uma página,
vendo-se uma repetição de ângulos mal trabalhados em várias cenas, mesmo que
tente compensar com uma saudável dose de “planos-postal”.
Juan Antonio é direto quanto às suas intenções, oferecendo
todos os prazeres que os rendimentos de pintor reconhecido permitem e que os impulsos
masculinos cobiçam. Para Cristina, abre-se um mundo de exotismo latino que não
hesita em explorar; para Vicky, nenhuma aventura se deve sobrepor à segurança
da relação estável que mantém do outro lado do Atlântico, mesmo que a tentação
seja difícil de resistir. Talvez como consequência do sol espanhol, desta vez Allen
demite-se de intelectualizar o sexo e as personagens envolvem-se com languidez
e naturalidade.
A chegada de Penélope Cruz, ao cabo de uma hora, com a sua
expansividade, vem dar imensa cor a este filme, que, no fundo, não deixa de ter
o seu charme. Como em Match Point, o realizador consegue, aos poucos,
introduzir dilemas morais que trazem ao de cima a presença da casualidade nos
momentos mais determinantes das nossas vidas. Pode-se ter sorte e azar, pode-se
perder oportunidades e desperdiçar tempo. As pontas ficam soltas para Cristina
e Vicky, depois de experiências tão distintas, apesar de a casa de partida ter
coincidido. Resta-lhes fazer as malas e voltar para casa com uma sensação
agridoce.
7/10
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