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sábado, 18 de outubro de 2014

Disconnect (Henry Alex Rubin, 2012)

Apesar da infinita quantidade de informação, histórias e audiovisual adicionados à internet diariamente, fazer um filme sobre este meio tem-se revelado mais difícil do que seria de antever. Ou serve de pano de fundo para thrillers banais (Untraceable), para comédias românticas sobre troca de emails e mensagens que uns anos antes teriam sido enviadas por correio (You’ve Got Mail) ou para ficção científica demasiado metafísica (Matrix); raramente se encontram personagens com conflitos verossímeis e que apenas existem porque as novas tecnologias têm as suas vantagens e desvantagens, e estão presentes nas nossas vidas de formas mais intrusivas e condicionantes do que às vezes pensamos. Disconnect é, apropriadamente, um mosaico, tal como as janelas no ecrã dum computador, abertas para paisagens diferentes de zeros e uns. Várias famílias são reunidas pelas circunstâncias do mundo moderno, em que tudo aparenta estar mais próximo, acessível e disponível, se descontarmos a maior distância emocional. Os Boyd negligenciam a educação dos filhos, presos à necessidade de manter o estatuto social através do trabalho e das aparências, ignorando o talento artístico de Ben, adolescente solitário que é manipulado por dois colegas com um perfil de Facebook feminino falso a tirar uma foto nú, que rapidamente se espalha pela escola, tornando-o alvo de chacota. Os Hull vêem o seu dinheiro usurpado sabe-se lá por quem, via informática, como se já não tivessem mais em que pensar depois da morte do seu bebé. Harvey oferece lar, comida e protecção paternal a menores sem rumo que se disponham a realizar actos sexuais em frente a webcams. O realizador/argumentista Rubin vai ligando todos estes (e mais) aos poucos e experiências reais e virtuais chocam. A desconexão do título é súmula do afastamento das personagens, mas também apelo ao estado offline, como quem diz “não se prendam aos computadores, tomem consciência do que vos rodeia e apreciem as pessoas que estão convosco”. Pouco dado aos virtuosismos de outros mosaicos recentes, que na ânsia de replicarem o sucesso de Magnolia costumam resvalar para um fascínio conceptual que abafa a mais simples emoção (The Nines, The Air I Breathe, Crossing Over, The Informers, etc.), Disconnect consegue ser negro, provocador e funcional.

8/10

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

On The Road (Walter Salles, 2012)

O impacto de On The Road é incomensurável e não se limita à literatura. A vivacidade da escrita de Jack Kerouac e os seus relatos de uma juventude despreocupada, libertina mas culta, constantemente a bordo de viagens pelo país ou pelos delírios de todas as drogas possíveis e imaginárias, alargou o imaginário de uma América vasta, atravessada por estradas sem fim à espera de serem desbravadas. Se não fosse On The Road e a geração beat do pós-guerra os The Beatles não teriam o mesmo nome, Easy Rider não teria sido possível e talvez nem os hippies teriam aparecido pois faltar-lhes-ia esta referência dos anos 50.

Desde que saiu, em 1957, que a possibilidade de uma adaptação cinematográfica era explorada. O próprio autor chegou, na altura, a tentar envolver Marlon Brando para ver se o projeto ganhava corpo, mas não se concretizou. Francis Ford Coppola, Gus Van Sant e Joel Schumacher foram, ao longo dos anos, apontados como possíveis realizadores, sendo que o primeiro até detinha os direitos do livro. Curiosamente, este símbolo tão grande da cultura americana materializa-se agora finalmente pelas mãos de um brasileiro, Walter Salles, que com The Motorcycle Diaries no currículo não é nenhum estranho a road movies.

Esta dificuldade em transportar On The Road para outro meio é compreensível: escrito em cerca de 3 semanas num longo rolo de papel, com uma linguagem fluída e cheia de calão, o livro vive das palavras, da falta de história e da descrição de pessoas, paisagens e ambientes. Que o filme consiga apresentar sintonia com o seu ritmo e energia já não é nada mau e, de resto, o próprio realizador parece desculpar-se, ou, no mínimo, pedir para termos expectativas realistas, quando usa uma das personagens, o erudito Old Bull Lee (curta mas agradável aparição de Viggo Mortensen) para reforçar que “as traduções são traições”.

Ao argumentista Jose Rivera calhou então o trabalho mais ingrato. Apesar de ter tomado algumas liberdades quanto às relações de algumas personagens, esses atalhos em nada encobrem a mentalidade excessiva de Sal, Dean ou Marylou (se há alguma crítica justificável, é a falta de carisma de alguns dos actores, Sam Riley excluído, claro), que tentam a todo o custo preencher o vazio que percepcionam ser as suas existências. Essa fúria de viver é jubilosa e triste ao mesmo tempo, e talvez ainda mais sexualizada do que no livro. Tal como nos poemas de Allen Ginsberg (a inspiração para Carlo), há uma rejeição dos tabus.

É verdade que as personagens se banham em hedonismo, mas On The Road é mais do que uma sucessão de cenas de sexo, festas e viagens de carro, é uma geração à procura da sua voz e a encontrá-la sem ter noção, é uma carta aberta à grandeza e franqueza da América, mostrando que o país responsável pelo capitalismo selvagem e os males que daí advêm, ontem como hoje, é o mesmo que nos deu Duke Ellington ou o movimento dos direitos civis. Após 50 anos de gestação, este filme é tão bom quanto poderia alguma vez ser. Sinceramente, acho que, neste caso, é um dos melhores elogios possíveis.

7/10

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Holy Motors (Leos Carax, 2012)

2012 não é um ano de boa colheita para filmes de limousines. Claro que isso não é um género por si só, mas a ligação é fácil de fazer quando os famosos carros de luxo tomam o palco principal ao mesmo tempo em Cosmopolis e Holy Motors, que se estrearam em Portugal com poucos meses de intervalo. Para Cronenberg, servem de metáfora para as discrepâncias económicas alimentadas pelo capitalismo feroz, que ameaça cavar um fosso cada vez maior entre o 1% mais rico da população ocidental e os restantes 99%; somos guiados por uma viagem delirante, com conteúdo, ainda que extremamente mal desenvolvido.

Se me perguntarem porque é que Carax se deixa fascinar pelo mesmo veículo no contexto de Holy Motors, não sei que responder. Aparentemente, serve apenas para transportar Oscar (Denis Lavant) de um lado para outro com a sua infindável carga de roupa e maquilhagem. Se fosse uma Ford Transit faria o mesmo sentido, mas seria ligeiramente menos glamoroso, suponho. Pelo menos neste aspecto há que ser consistente, quando se pede a Eva Mendes (que nem diz uma palavra) e à cidade de Paris emprestada a sua beleza não se pode filmar como se estivéssemos na Feira de Custóias.

Há momentos que fazem suspirar pelo romantismo impulsivo de The Lovers On The Bridge, mais pelas travessias sobre o Sena à noite, com a Torre Eiffel de fundo, do que por qualquer relação estabelecida no ecrã, já que tal nunca acontece. Kylie Minogue aparece como uma figura do passado de Oscar, mas apenas para, do nada, lhe cantar uma música e suicidar-se antes que alguém se interesse minimamente pelo seu destino. O próprio realizador parece nostálgico por outros tempos, porque pontua este puzzle escatófago com planos da Pont Neuf. Infelizmente, fica-se por aí.

Oscar vai de compromisso em compromisso e Lavant tem carta-branca para se mascarar quantas vezes quiser. Talvez Holy Motors seja um filme (ou vários) dentro dum filme, sobre um actor camaleónico e electrizante sem vida própria e em crise existencial, só que esta estrutura episódica apenas se presta à irrelevância e pouco mais fica para além da bizarria, regra geral, imperscrutável. Ah, e, só por curiosidade, as limousines falam quando não há condutores com máscaras impessoais por perto. Carax passa de uma referência a Eyes Without A Face para outra a Toy Story com a suavidade de um ralador na barba.

2/10

quinta-feira, 6 de março de 2014

The Hunt (Thomas Vinterberg, 2012)

A caça do título é tanto literal como metafórica. Está presente como uma tradição secular e, seja qual for a opinião que cada um tem sobre a perpetuação desta actividade enquanto desporto, nenhum veado morto impressiona tanto como o linchamento psicológico que é feito a uma pessoa ao longo do filme. Lucas (Mads Mikkelsen) é um educador de infância a passar por um divórcio algo litigioso, que o afasta cada vez mais do filho adolescente, apesar da intenção declarada deste em estar mais tempo com o pai. Leva uma existência minimalista e solitária, impondo distância à possibilidade de relações futuras, dedicando-se ao trabalho e aos amigos, dos quais Theo (Thomas Bo Larsen) é o mais próximo. Apesar de serem novos, os filhos deste já apresentam padrões de comportamento pouco saudáveis, que podem ser irrisórios e passageiros nas suas idades ou já indiciar os efeitos nocivos de um casamento com disfuncionalidades que nunca foram amenizadas pela passagem dos anos. O mais velho é adolescente e parece ter descoberto o maravilhoso mundo da pornografia virtual, o que é inevitável hoje em dia e dificilmente preocupante, ao contrário de mostrar imagens de cariz sexual com um amigo à irmã, que, como evidencia a paranoia que tem de não pisar linhas no chão, é mais vulnerável e tem dificuldade em processar o que se desenrola à sua volta, em especial as discussões conjugais quase diárias.

Lucas é, para ela, uma presença constante, um professor e um amigo adulto, por quem, na sua inocência, exterioriza um sentimento infantil de amor, chegando a beijá-lo na boca, levando, de seguida, uma compreensiva lição da impropriedade de tal manifestação, pelo menos com alguém que não seja o pai, a mãe ou um rapaz da turma dela, brinca Lucas. O que se segue é tanto mais preocupante como possível: Klara, abespinhada, inventa uma mentira, diz à directora da escola ter visto o pénis erecto dele e rapidamente se precipita uma abominável campanha de culpabilização à escala da vila inteira, transformando a vida de um homem pacato num inferno. The Hunt é contemporâneo e relevante na medida em que nos obriga a reflectir na quantidade de vezes que outros e nós mesmo julgamos quem nos rodeia com uma velocidade proporcional à da informação (e da desinformação) que, graças às novas tecnologias, nos chega de forma quase imediata.

Basicamente, estará o princípio da presunção de inocência, consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a tornar-se obsoleto simplesmente porque formamos opiniões mais facilmente, ainda que não necessariamente com maior qualidade, e nos interessa cada vez mais que esta seja ouvida e validada do que… a verdade? Estaremos também a dessensibilizar as crianças e os jovens em relação a conceitos que não têm maturidade para compreender em toda a sua dimensão porque perdemos a capacidade de filtrar o que sabem, ouvem e fazem, e até que ponto isso arrasta ou vem como consequência da desresponsabilização dos pais? A personagem de Mikkelsen é levada ao extremo da desconsideração por pessoas que o conheceram toda a vida e conta pelos dedos aqueles que acreditam em si. Apesar de perder a descompostura num local que supostamente exige respeito, uma igreja, é de longe o mais civilizado que lá se encontra sentado, o que sublinha a universalidade da hipocrisia, e acabamos por apoiar o resvalo para o confronto físico, depois de tanta complacência. Afinal, também somos animais. É verdade que o tema da pedofilia não é novidade para Vinterberg, mas os conflitos apresentados em The Hunt fazem Festen parecer unidimensional, por comparação. Um filme com uma narrativa poderosíssima.

9/10

domingo, 27 de outubro de 2013

Rust And Bone (Jacques Audiard, 2012)

Em quase todos os filmes de Audiard um homem e uma mulher de meios diferentes, com profissões muito exigentes fisicamente ou atravessando desafios que desgastam os seus corpos de alguma forma, são unidos pelo destino, cruzam-se casualmente e acabam por encontrar um no outro companhia para seguirem em frente. São filmes que se dispersam em episódios quotidianos das várias facetas da vida de cada até ficar estabelecido um nível de intimidade confortável, o que não é fácil quando, por exemplo, uma personagem acaba de perder ambas as pernas. Ela tem de aprender a viver com isso e o espectador não é conduzido para o choque, mas para a aceitação e o regresso à normalidade.

Dito isto, enquanto via The Beat That My Heart Skipped ou Rust And Bone às vezes tinha de me perguntar onde é que estavam a tentar chegar. Neste segundo, temos Stephanie e Alain, uma treinadora de orcas e um pugilista, que se conhecem quando ela gera uma briga no clube onde ele trabalha como segurança, um primeiro encontro que parece ser algo forçado e ter pouco impacto para ambos. É assim estranho que mais tarde, depois dum acidente de trabalho com um dos animais, Stephanie se sinta compelida a ligar-lhe e que Alain aquiesça a reconfortar uma mulher na qual parece ter pouco interesse, quando no resto do tempo apenas se preocupa em usá-las para satisfazer as suas necessidades sexuais.

Passando isso à frente, a relação de amizade com benefícios que se desenvolve entre os dois até se torna bastante cativante e emocionalmente proveitosa, da perspectiva dela pelo menos, que parece ir retirando forças para lidar com as amputações da promiscuidade e das surras que ele leva em combates ilegais mas bem pagos. As metamorfoses que vai sofrendo são prova disso mesmo, com as próteses mecânicas passa a andar em pé e com outra independência e as mensagens que tatua nas pernas simbolizam um crescendo de resistência mental. Marion Cotillard dá vida a alguém que tenta transformar-se para se adaptar e isso exige discrição, beleza e dignidade q.b., tudo qualidades bem presentes.

A sua excelência contrasta com a unidimensionalidade de Mathias Schonaerts, embora também seja verdade que Alain me deixa indiferente. Viril e arrogante, prejudica a irmã à procura de dinheiro, negligencia o filho e olha com displicência para os primeiros sinais de compromisso que Stephanie lhe dá. Afasta-se do maior combate da sua vida, o de manter uma família, apesar de a possibilidade ser bastante óbvia. Um segundo acidente poderá ser finalmente o ponto de viragem, mas por essa altura já era tarde demais para eu me importar. A escrita de Audiard distancia-me mas há momentos luminosos, como o regresso ao parque aquático, que fazem Rust And Bone valer a pena.

6/10

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Spring Breakers (Harmony Korine, 2012)

Com o sol a desaparecer no horizonte, visto de St. Petersburg, no coração de Tampa Bay, James Franco toca, num piano branco colocado, vá-se lá saber porquê, no pátio da sua mansão sustentada por dinheiro da venda de droga, as notas de Everytime da Britney Spears, cuja voz fininha é substituída por uma masculina, desafinada e com um ligeiro sibilar provocado pela boquilha em ouro que lhe cobre a dentição, e três vozes femininas em coro, de três loiras intermutáveis, que envergam máscaras de ski cor-de-rosa com unicórnios na testa e seguram caçadeiras ou metralhadoras, cenário este ocasionalmente entrecortado por assaltos à mão armada com os mesmos protagonistas, um deles num copo-d’água, dando um novo significado à expressão “fura-casamentos”, reproduzidos em câmara lenta, as tranças africanas de Alien a esvoaçar, as glândulas mamárias de Vanessa Hudgens, Ashley Benson e Rachel Korine a abanarem, apenas protegidas por fatos de banho garridos, sangue, praia, tiros, piscinas, cerveja, cús, Mozart, spring break forever, bitches.

8/10

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Xingu (Cao Hamburger, 2012)

A criação do Parque Nacional do Xingu, no estado de Mato Grosso, foi precursora na defesa dos índios da América do Sul. Ao longo da sua vida, os três irmãos Villas-Bôas encabeçaram uma mudança de mentalidades no sentido de responsabilizar o estado pela criação e manutenção de condições que permitissem às populações nativas do Brasil evoluírem ao seu próprio ritmo, no fundo viverem como se o país nunca tivesse sido colonizado, preservando assim a essência do mesmo, para além da fauna e flora única das regiões.

Ao ingressarem na expedição Roncador-Xingu, cujo objectivo era fazer um reconhecimento das zonas a branco nos mapas da altura, Cláudio e Leonardo rapidamente entram em contacto amigável com tribos locais, levam algumas a voar de avião, estabelecem postos e inadvertidamente espalham o vírus da gripe, à altura desconhecido por ali. Consequências do progresso. Isso, juntamente com os relatos na primeira pessoa de escravização e assassinato de índios empregados como seringueiros por brancos, parece tornar óbvia a necessidade de segregar estes dois mundos.

Com a ajuda de Orlando, o mais velho, que oferece competência nas questões burocráticas e na disseminação de informação através da imprensa, a ideia da reserva vai ganhando forma, tornando-se realidade com relativa facilidade em 1958, dado o aval do presidente Jânio Quadros, apesar de alguma resistência inicial do governo e do exército. Contudo, o período mais conturbado desta história ainda estaria para vir: o golpe de estado de 1964 traz políticas agrícolas e estradas que ameaçam a sobrevivência do parque, Leonardo engravida uma índia e Cláudio torna-se instável.

Falta a Xingu alguma força na primeira hora, a evolução de uma busca por aventura para a descoberta de uma causa não é totalmente convincente, o argumento ameaça dar, com algumas cenas curtas em São Paulo, contexto político, mas acaba por o fazer de forma muito superficial e o isolamento progressivo de Cláudio é explorado apressadamente, faltando sempre, por uma razão ou outra, carga dramática que eleve o filme a outro patamar. A beleza da Amazónia é inegável, ainda que Cao Hamburger não seja propriamente Roland Joffé. Acima de tudo, fica a visão e a mensagem de tolerância dos irmãos.

6/10

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Zero Dark Thirty (Kathryn Bigelow, 2012)

Kathryn Bigelow e Mark Boal regressam ao cenário da geopolítica num mundo pós-11 de Setembro com um filme sobre a busca e morte de Osama Bin Laden, adequadamente apelidada de a maior caça ao homem de sempre, tendo-se prolongado por 10 anos, decorrido em simultâneo com duas guerras e envolvido um sem número de meios materiais e humanos. Em comum com The Hurt Locker temos a estrutura episódica do argumento, aqui inclusivamente separados por subtítulos, a falta de arcos dramáticos na construção das personagens, realçando o compromisso total que estabelecem com os seus trabalhos, e o realismo irrepreensível. Felizmente, em Zero Dark Thirty nada disto é atabalhoadamente direccionado para uma mensagem confusa no final nem se torna repetitivo ou frouxo à medida que o tempo avança.

O âmbito é extenso, passando com agilidade de actos públicos marcantes, como aquele dia de 2001 em Nova Iorque, usando apenas gravações reais de chamadas feitas das torres e dos aviões sobre um ecrã negro, o atentado ao hotel Marriot em Islamabad ou as bombas de Londres em 2005, para cenas de trabalho de investigação exaustivo por vezes tão desesperantes quanto as outras (efeito conseguido com a mesma eficácia que em casos exemplares como All The President’s Men ou Zodiac), criando expectativa quanto a um desfecho já sobejamente conhecido, o cerco ao complexo de Bin Laden no Paquistão em 2011, que encaixa em ambas essas facetas e é, efectivamente, um momento de enorme tensão e excelência técnica.

Nunca vemos a cara do líder da Al-Qaeda e a reacção de Maya, a estóica operacional da CIA que abdica de ter uma vida própria para o encontrar, quando o corpo é levado ao seu encontro num saco de plástico para reconhecimento visual, não resolve nada, apenas assinalando que a missão foi completada e permitindo finalmente, ao fim de tanto tempo gasto e sangue derramado, uma amostra de humanidade em estado bruto sob a forma de um ataque de choro, ainda assim sem o mínimo de sensacionalismo, sem música, sem discursos bonitos e sem, sequer, a proximidade de alguém para a reconfortar.

The Hurt Locker até podia ser bastante competente, mas não lhe deslindo uppercuts como este; a secura de Zero Dark Thirty impressiona, tornando-se importante manter a cabeça fria para não interpretar as cenas de tortura, os tiros à queima-roupa na Operação Lança de Neptuno ou a corruptibilidade dos informadores árabes como mais do que uma tentativa de retratar o que aconteceu (ou fomos ditos que aconteceu, dirão os mais cépticos). Da vingança à justiça vai um longo caminho e este filme não entra nessa discussão (para isso já tivemos Munich uns anos antes). Assim, com clareza e sem compromissos, o estilo de Bigelow, a escrita de Boal e o talento de Jessica Chastain fundem-se com o negrume e a gravidade da situação e atingem aqui os seus melhores momentos até agora.

9/10

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Lincoln (Steven Spielberg, 2012)

Steven Spielberg parece ter iniciado um ciclo, com duração ainda por determinar, de emulação de um dos seus realizadores preferidos, John Ford, cujos filmes, recheados de beleza pictórica, mensagens anti-guerra, retratos de família ou cenários históricos, apareciam como referência evidente em War Horse. O mesmo acontece em Lincoln, com o guião de Tony Kushner exclusivamente focado na passagem do 16º presidente dos EUA pela Casa Branca, qual sequela tardia de Young Mr. Lincoln.

Ao contrário de War Horse, a necessidade de contar uma história ficcional com contexto histórico específico é secundarizada pela intenção de ponderar o impacto na História de uma figura icónica real que pode até ter ficado aquém do seu potencial e nem ter materializado todas as suas ideias por ter sido arrastado para uma guerra civil brutal no início do seu mandato, posteriormente encurtado por um assassinato público, e sempre envolto em incompreensão, por vezes à conta da sua teimosia paciente.

De modo adequado, o filme começa in media res, em plena batalha de Jenkins’ Ferry, com especial atenção aos soldados negros, que viam, finalmente, a possibilidade de serem livres ao fundo do horizonte, mas rapidamente somos conduzidos à Washington do séc. XIX, onde o esmero no design de produção a nível de cenários e bigodaços se torna mais evidente. Não abdicando de uns brilhos nas lentes e de realçar a altura de Lincoln para lhe dar uma imagem quase divina, Spielberg acaba por mostrar várias facetas.

Cedo fica claro que mesmo do lado do antigo presidente há quem esteja disposto a não dar seguimento à Proclamação da Emancipação, o primeiro passo no sentido de terminar a escravatura, válida apenas durante a guerra. Com a rendição da Condeferação dos estados sulistas próxima de se tornar uma realidade, é necessário legislar a igualdade dos negros no Congresso e os dilemas políticos que rodeiam tal mudança são imensos, mas são os dilemas morais que mais preocupam Lincoln.

Ele sente-se a ser empurrado de todos os lados para trair aquilo em que acredita e a abandonar o processo que já iniciou. A sua obstinação leva-o a comportamentos ditatoriais e a tácticas que podem ser consideradas persecutórias para conseguir votos a favor da sua 13ª Emenda. Apesar da sua fleuma num ambiente profissional, com a sua esposa e o seu filho mais velho a imagem de auto-controlo é contrariada com frequência, revelando as suas fragilidades e receios.

A depressão de Mary e a insistência de Robert em alistar-se, como os filhos de tantos outros americanos, tiram-no do sério. A personificação de Daniel Day-Lewis é impressionante, mas nestes momentos em especial a sua mestria vem ao de cima, veja-se a discussão entre a sua personagem e a de Joseph Gordon-Levitt. Às vezes as pessoas mais próximas são as que mais se magoam umas às outras; o pai não resiste e dá uma chapada ao filho, imediatamente segurando-o, arrependido.

Entre Gangs Of New York, There Will be Blood e Lincoln estão provavelmente as três melhores interpretações do séc. XXI. A forma como Daniel Day-Lewis se torna no papel é o método de Lee Strasberg levado ao extremo, onde mais ninguém consegue chegar hoje em dia. De resto, para um filme de 2 horas e meia de Spielberg composto maioritariamente por conversa, passa bastante bem e com uma dose equilibrada de sentimentalismo. Lincoln é de um classicismo esclarecido e cativante.

8/10

domingo, 18 de agosto de 2013

Seal Team Six: The Raid On Osama Bin Laden (John Stockwell, 2012)

Como seria de esperar, a busca e a morte de Osama Bin Laden começam a alimentar a máquina de Hollywood. Em Janeiro de 2013, Zero Dark Thirty recolheu cinco nomeações para os Óscares, das quais apenas uma se materializou num prémio, mas ficou reforçada a ideia de que a América sente uma enorme atracção pelos episódios mais negros e dúbios da sua história, desde Pearl Harbor à guerra do Vietname ou ao assassinato de John F. Kennedy. Antes, o National Geographic transmitiu este Seal Team Six.

Pelos olhos de vários intervenientes na operação, a acção desenrola-se a um ritmo consistente, explorando o trabalho dos militares, da CIA e dos agentes infiltrados e realçando as incertezas que têm de ser mitigadas para o ataque ao complexo onde o terrorista vivia com grande parte da família no Paquistão ser aprovado. Entrevistas com as personagens, como se se tratasse de um documentário, servem de interlúdios – dispensáveis, já que o argumento é bastante auto-explicativo.

O maior ponto de interesse é guardado para o fim, com a reconstituição da missão (cujo objectivo é apenas revelado à equipa no momento em que são mobilizados para a empreenderem). Os tiroteios realistas, os planos POV e o ambiente nocturno, para além da satisfação da curiosidade mórbida em ver um homem ser alvejado até à morte, tornam a cena intensa q.b.. Obama aparece todo o lado, omnipresente, enquanto Osama é apenas uma sombra fugaz e sem rosto na escuridão.

Facilmente se reduziria o filme a uma hora, cortando os dramas cliché e desinteressantes vividos dentro da Seal Team Six, que não levam a lado nenhum. Teria mais relevo perceber melhor o dia-a-dia dos agentes no terreno que fazem a papa toda para a CIA, chegando mesmo a entrar no complexo, disfarçados de junta médica. Com mais ou menos exatidão quanto ao que aconteceu (supostamente as câmaras nos capacetes são um mito, por exemplo), este tele-filme é competente e, claro, revestido de fascínio histórico.

6/10

domingo, 10 de março de 2013

House At The End Of The Street (Mark Tonderai, 2012)


Imagino a confusão que um fã de filmes de terror disléxico possa vir a ter quando os DVDs de The Last House On The Left e de House At The End Of The Street começarem a ser colocados nas mesmas prateleiras das lojas. São do mesmo género, por isso, à partida, a desilusão, caso trouxesse um ou outro por engano, não seria grande. No primeiro, a violência extrema constante garantiu-lhe a entretanto extinta classificação X nos EUA e um estatuto de culto, especialmente por ter marcado a estreia de Wes Craven. O segundo nunca procura atingir, nem de longe nem de perto, o mesmo nível de choque, tentando antes adensar o suspense com dúvidas e revelações, mas tem um factor que imediatamente lhe garante maior interesse: Jennifer Lawrence.

Sarah (Elizabeth Shue) divorciou-se e foi morar para uma nova cidade com a filha, Elissa. A casa que escolheram é enorme e deixa adivinhar uma factura de aluguer bastante elevada, mas rapidamente somos informados que não é esse o caso, porque noutra ao lado uma rapariga assassinou os pais e desapareceu. Agora, apenas o seu irmão mais velho vive lá, ostracizado pelo resto da vizinhança e pelos colegas do liceu onde anda, o que é um bocado estranho, já que estava fora quando tudo aconteceu e não tem culpa de ser órfão. Curiosamente, essa atitude pode vir a revelar-se acertada, porque quando Ryan (Max Thieriot) entra em cena é apresentado como um jovem pacato que oferece boleia numa noite chuvosa à recém-chegada Elissa, mas logo a seguir vemos que mantém a pequena Carrie Anne fechada na cave.

Como podem adivinhar, a escrita não é propriamente revolucionária. Há algumas surpresas no final, mas grande parte do tempo é uma gestão das relações entre mãe e filha e filha e rapaz-estranho-mas-atraente. Sarah é demasiado protectora e revela-se inadequada em algumas situações, o que tem o efeito contrário e faz Elissa aproximar-se ainda mais de Ryan, para ser do contra e porque tem uma tendência para escolher rapazes problemáticos e transformá-los nos seus projectos. Apesar dos muitos lugares-comuns deste tipo de filmes, o carisma de Jennifer Lawrence é capaz de tornar o mais banal dos diálogos numa obra-prima e esqueço-me logo das semelhanças com Fear ou White Single Female nos momentos de maior tensão só por ser ela a protagonista. É a única razão para ver House At The End Of The Street.

4/10

sábado, 2 de março de 2013

Beasts Of The Southern Wild (Benh Zeitlin, 2012)


Quando um filme se apresenta com uma narradora infantil a debitar tiradas simples mas filosóficas sobre a natureza e os corações das suas criaturas enquanto a câmara procura incessantemente o movimento das árvores, da água e do fogo-de-artifício que a rodeiam, é difícil não pensar em Terrence Malick, para quem o lugar da humanidade no universo e a relação entre ambos são fontes de constantes dilemas, alguns dos quais demasiado esotéricos para terem explicação empírica.

No entanto, Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) não questiona, apenas afirma. Na sua inocência, absorve o que vê e o que ouve, criando a sua versão dos factos da vida, como qualquer criança, o que dá a Beasts Of The Southern Wild um tom de fantasia optimista que Benh Zeitlin torna surpreendentemente compatível com o cenário pantanoso do Louisiana, à mercê da influência da industrialização e das alterações climatéricas, onde habitam comunidades à margem da sociedade.

Apesar das catástrofes que se sucedem, a sua perspectiva é inalterável, ficando nas mãos do espectador destrocar a precariedade das condições na comunidade da Banheira, onde há uma montanha de lixo por cada cipreste exuberante, a morte da mãe, apesar de Hushpuppy estar convencida que ainda a vai encontrar um dia, e a desconsideração que o pai tem pelas autoridades e pela sua própria saúde, deixando a filha frequentemente à guarda de terceiros ou ao acaso.

Não é propriamente má parentalidade, mais a necessidade angustiante de preparar a pequena para a possibilidade da orfandade e o quotidiano natural de um mundo algo perdido, numa época nunca especificada, que tem tanto de idílico como de duro, onde as crianças andam ao ar livre, sabem que os caranguejos são comestíveis mas também seres vivos como elas, e onde pode haver pobreza material, mas nunca espiritual. Acima de tudo, este mundo pertence a Hushpuppy, e não o contrário.

O realismo mágico de Zeitlin é de uma alegria melancólica consistente, ainda que a forma nem sempre seja a mais interessante. As câmaras de mão frenéticas às vezes não permitem processar as imagens nem encontram os melhores ângulos e a sequência do bar de alterne flutuante dá uma conclusão sofrível à ideia de que a menina precisa da mãe. A jovialidade de Zeitlin é de louvar e certamente que o seu melhor cinema ainda está para vir.

7/10

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Silver Linings Playbook (David O. Russell, 2012)


É apropriado que tenha sido David O. Russell a fabricar um filme sobre novas oportunidades como este. Anteriormente o enfant terrible da Hollywood mais alternativa, parece agora determinado a deixar para trás o seu jovem carácter acrimonioso, que resultou em discussões acesas com George Clooney no set de Three Kings ou Lily Tomlin durante as gravações de I Heart Huckabees e num afastamento, em parte voluntário, em parte devido à má fama, que durou 6 anos. O regresso fez-se com The Fighter, história sobre as tentativas do pugilista Micky Ward em manter a sua conflituosa família unida enquanto lutava para ser campeão de boxe nos anos 80, e o foco estava claramente deslocado para uma realização menos rigorosa, mais orgânica e mais preocupada com o espaço dos actores, o que trouxe um realismo renovado e que não se coibia de evidenciar as falhas e os atributos de cada personagem.

Silver Linings Playbook também beneficia dessa liberdade, fruto da gratidão de Russell pela sua segunda vida profissional, mas os combates para entrar nos eixos outra vez são menos literais que os levados a cabo por Mark Wahlberg e Christian Bale em 2010. Bradley Cooper é Pat Solitano, um professor que, depois de descobrir a mulher com um amante e de o espancar quase até á morte, foi internado num hospício por lhe ter sido diagnosticada bipolaridade. 8 meses depois, tem o aval do tribunal para sair e volta para casa dos pais mais consciente da doença que, afinal, o perturbava desde a infância, e determinado a recuperar o emprego, a correr para melhorar a sua condição física (é curioso como algumas personagens falam dele como se tivesse sido obeso) e a voltar para Nikki, que impôs uma ordem de restrição de 150 metros mas nunca chegou a pedir o divórcio.

Desde cedo fica claro que o interesse do realizador por famílias convencionais apenas à superfície se estende a este filme e a dinâmica entre Pat, a mãe Dolores e o pai Pat Sr. está em constante evolução e estado de incerteza, não por falta de carinho e compaixão, mas por reagirem de formas tão diferentes à mesma situação. Jacki Weaver e a sua ansiedade expectante é a ponte entre as mudanças de humor do filho mais novo e as manias do marido (Robert De Niro numa demonstração do seu alcance como há muito não se via, imprevisível e com laivos de comportamento obsessivo-compulsivo, um rascunho do estado psiquiátrico de Pat). Há um momento entre pai e filho em que o primeiro tenta explicar as formas em que está a tentar aproximar-se e pede desculpa por sempre ter dado mais atenção a Jake, irmão mais velho do segundo, que é verdadeiramente tocante, sem ser demasiado dramático.

Essa qualidade é invariável e, aliada a um humor com timings improváveis (a cena da lareira em casa dos amigos Randy e Veronica) e que assume alguns riscos (de cada vez que Pat acorda os pais a meio da noite desenvolvem-se diálogos surreais, que não deixam de realçar o quão evoluído é o seu estado de bipolaridade), contribui para tornar Silver Linings Playbook num retrato humano preciso e num romance refrescante. Isso e Jennifer Lawrence. Todos e quaisquer adjectivos que se possam utilizar para qualificar a interpretação desta miúda de bochechas rechonchudas, que aqui aparece de cabelo incaracteristicamente preto, ou a genuinidade que emana dela seja em que contexto for, são poucos. É muito raro descobrir um actor/actriz que consegue habitar com inatacável naturalidade qualquer papel que lhe seja atribuído/a, mas, em pouco tempo, Lawrence tem provado ser capaz de o fazer.

Sempre que Tiffany entra em cena, é impossível desviar o olhar. Viúva e ninfomaníaca, promete trazer ainda mais caos ao dia-a-dia de Pat, mas acaba por se revelar o factor reconciliador de que ele precisava para tomar consciência dos erros que cometeu e para deixar de investir emocionalmente em quem não interessa. Fá-lo de forma consciente, reconhecendo em Pat a possibilidade de um amor honesto e tolerante, e ajuda-o, no seu estilo peculiar, sem condicionar as suas escolhas, mas esperando ser retribuída. A gestão dessas expectativas durante a competição de dança para a qual decidem trabalhar em conjunto é fantástica: poderá esse objectivo comum juntá-los, que opiniões têm os pais, que significam estas expressões faciais? Sem relativizar a questão da saúde mental, o argumento chega a um ponto de conforto em que estas personagens endurecidas pela vida conseguem encontrar um merecido final feliz.

8/10

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cosmopolis (David Cronenberg, 2012)


O nome do produtor Paulo Branco é o primeiro a aparecer no ecrã e ver um conterrâneo nestas lides não deixa de motivar algum orgulho, especialmente num fã do realizador David Cronenberg e do escritor do livro original, Don DeLillo, como eu. Com esta conjugação de factores perfilava-se, no mínimo, um dos melhores filmes do ano. Na realidade, depois de o ver sinto mais vergonha alheia por todos estes grandes nomes terem gerado semelhante patetice.

Depois de 3 (eventualmente 4) trabalhos mais contidos e menos bizarros, fase que dividiu opiniões mas que elogiei bastante pela maturidade estilística e clareza narrativa, sem perda de profundidade ou consistência temática, é irónico que no preciso momento em que Cronenberg parece querer baralhar e voltar a dar, falhe em construir sobre essa segurança adquirida e em aproximar-se do hermetismo fascinante e delirante dos seus trabalhos anteriores, simultaneamente.

Cosmopolis está, assim, suspenso num estado intermédio de insipidez. Nele, um insensível jovem milionário (por uma vez, a inexpressividade de Robert Pattinson serve a personagem) usa a sua limousine hi-tech para acolher reuniões incompreensíveis com os seus colaboradores espalhados pela cidade, para acalmar a sua hipocondria com consultas médicas privadas diárias e para manter relações sexuais com todo o bicho de saias que lhe aparece à frente, menos a esposa, uma poeta que, em busca de inspiração, fez um voto temporário de castidade.

Eric Packer passa o dia preso no tráfego, ainda mais infernal que habitualmente devido à presença do presidente nas imediações. Quer cortar o cabelo, apesar de não precisar, num barbeiro em específico, mas vários acontecimentos e encontros vão atrasando a viagem, para além de pairar uma atmosfera de ameaça, que se materializa com os relatórios pouco abonatórios que vai recebendo dos investimentos que tem feito e com a perseguição de um antigo empregado.

É uma metáfora perfeita para um filme que aponta para muitos destinos mas não vai a lado nenhum. Os diálogos sobre as discrepâncias sociais que se registam actualmente em países que incentivaram à desregularização e abriram portas ao capitalismo selvagem, EUA incluídos, embrenham-se num pretensiosismo arrogante. Packer virá a ser confrontado com o estrangulamento da classe média, mas não se faz justiça, apenas se ventilam frustrações.

“Não és contra os ricos, ninguém é contra os ricos”, diz. Tanto ele como a personagem de Paul Giamatti têm próstatas assimétricas, somos todos humanos, por isso um desempregado despedido sem justa causa não tem razões para vilificar o seu ex-patrão, porque todos tentamos tomar as decisões que melhor servem os nossos interesses. Será que era mesmo isto que Don DeLillo queria dizer, ou o argumento é tão mau que leva a más interpretações?

Hoje temos prostitutas com parquímetros na Alemanha, best-sellers sobre sadomasoquismo e pornografia acessível com um clique. Essa liberalização sem limites está subadjacente ao alienamento emocional de Packer, que encara o sexo primariamente como uma necessidade fisiológica diariamente estimulada e, como tal, a atender. Juliette Binoche e outras são objectificadas, mas também usam palavras caras, para não haver rótulos de machismo.

A premissa presta-se ao absurdismo, mas quando se pede desculpa por se assumirem riscos e não se define uma lógica clara, cai-se no ridículo. The Dark Knight Rises diz mais sobre o estado da economia que Cosmopolis. Algures entre a urbanidade corrompida de Eastern Promises e a fisicalidade perversa de Crash, Cronenberg tenta fazer agora a ponte na sua filmografia que não fez no início do século, mas já explorou estes distanciamentos muito, muito melhor.

3/10

sábado, 29 de dezembro de 2012

Lawless (John Hillcoat, 2012)


O quinto filme de John Hillcoat marca igualmente a sua terceira colaboração com Nick Cave. O músico australiano escreveu mais um argumento a transbordar de testosterona e violência para Lawless, apesar de, comparando com Ghosts Of The Civil Dead (1988) e The Proposition (2005), haver algum nível de romantismo envolvido, não só pela maior preponderância de figuras femininas, mas também pela aparente nostalgia por uma época na qual, obviamente, não viveu, de transição entre o velho oeste e os vícios das novas cidades.

Lawless é um western e um filme de gangsters ao mesmo tempo. Os sulistas são mais simples, menos expressivos e estão encarregues da parte menos glamorosa do tráfico de álcool no período da Lei Seca nos Estados Unidos: a sua produção. Os nortenhos vêm de Nova Iorque, Chicago e afins, com os fatos da moda, verborreias bem enfeitadas e assumem ou a comercialização ilegal dos líquidos proibidos ou o combate aos labregos sujos que não respeitam nada nem ninguém (pelo menos é assim que os vêem  por isso há que ser superior e… bater-lhes ou matá-los).

Percebendo que todos eles são criminosos à sua maneira, valorizar uns e vilificar outros pode sempre revelar-se infrutífero, mas é uma técnica antiga de Hollywood, que, não obstante, permeia grandes clássicos e resulta aqui pela mecânica entre os 3 irmãos Bondurant: juntos, tentam fazer pela vida com o que a terra que define a sua identidade lhes dá, ou seja, matéria-prima. Têm noções de família e honra que são ameaçadas mais pelo desprezo, sadismo e abuso de força das autoridades do que propriamente pela lei em si. Quando um contrafactor tem mais carácter e estaleca moral que um US Marshal, claro que vamos ficar do lado dos primeiros.

O filme joga habilmente com estes conflitos e só é pena que não consiga evitar dezenas clichés. O cenário é tão diferente dos filmes típicos sobre esta era, levando as guerras de território para o campo e dando a conhecer a realidade por detrás do império de homens como Al Capone e outros, mas a relação de Forrest, o mais velho, com Maggie, uma antiga dançarina farta da vida urbana, não passa do trivial, os diálogos mais profundos acabam por ficar deslocados quando se está tanto tempo a desenvolver personagens ríspidas e de poucas palavras e dá a impressão de que algumas cenas estão mal montadas. A qualidade do elenco vai amenizando estas imperfeições.

Dificilmente Hillcoat e Cave conseguiriam esculpir algo mais visceral que The Proposition, mas a decisão de adocicar esta história só não se revela completamente despropositada porque o amor jovem é sempre interessante e Shia LaBeouf e Mia Wasikowska têm bastante química juntos. A interpretação dele é especialmente captivante pela sua evolução, de irmão mais novo enfezado e curvado, que chora e pede misericórdia quando está a ser espancado, para assassino inconstante e sem papas na língua, preparado para assumir responsabilidades e puxar um gatilho.

A presença de Tom Hardy é imponente, e a cena em que é ferido com gravidade é a melhor. Por último, Guy Pearce volta a demonstrar a sua criatividade com Charlie Rakes, um niilista de sobrancelhas rapadas, pronto a violar mulheres e matar deficientes motores para chegar aos Bondurant. Fala de si na terceira pessoa e fica irritado quando o sangue dos pacóvios que esmurra suja as suas luvas colecção Outono/Inverno. Que fique claro - mesmo notando-se falta de rumo, Lawless não deixa de ser negro como a noite e um raro híbrido de géneros.

6/10

terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Dictator (Larry Charles, 2012)


Sasha Baron Cohen não é conhecido pela sua subtileza e, sob essa perspectiva, The Dictator não desaponta. Depois de Ali G, Borat e Brüno, tudo personagens anteriormente em destaque no programa televisivo Da Ali G Show que tiveram direito a filmes próprios, o Almirante General Aladeen, líder supremo da ficcional República de Wadiya, é a primeira instância de um veículo primariamente cinematográfico na carreira do cómico britânico. Perdido está o estilo documental escolhido para adornar os seus dois últimos argumentos, adequado para seguir as aventuras e desventuras de um ingénuo jornalista cazaque obcecado com Pamela Anderson ou de um extravagante repórter austríaco pelo mundo da moda, mas que não faria tanto sentido na presença de uma história menos episódica e mais convencional (mas nem por isso menos atrevida) como a de The Dictator.

Depois de uma introdução inicial hilariante em jeito de biografia da personagem principal, que inclui uma entrevista com Larry King sobre um suposto programa atómico (não sei porquê, parece-me familiar) e um vislumbre da Plaza de España de Sevilha transformada num palácio presidencial no meio do deserto com cúpulas islâmicas nas torres, percebemos que as Nações Unidas acabam de ameaçar Aladeen com acções militares caso este não desista, de uma vez por todas, de querer desenvolver bombas atómicas. Determinado a fazer vencer a sua vontade no mundo como faz no seu país natal, viaja para Nova Iorque, onde é vítima de uma conspiração destinada a derrubá-lo e a empossar o seu tio Tamir (Ben Kingsley, sempre a manter a posse de estadista que falta ao sobrinho barbudo). Seria o fim da tirania e o início da democracia na nação africana, uma heresia que tem de ser travada, pois o povo de Wadiya adora ser oprimido.

Perdido numa terra estranha, Aladeen é obrigado pelas circunstâncias a misturar-se, a ser menos racista, a ser menos sexista, a confiar em terceiros, a trabalhar, no fundo a confrontar a sua própria solidão e ridicularia: é um homem que toda a vida teve tudo o que queria, todos os caprichos atendidos, mas sem alguém para amar, e é um líder respeitado apenas superficialmente, adorado como um ídolo falso, arauto da ameaça e do medo. Aliás, o seu distanciamento da realidade é tal que se reflecte não só numa evidente falta de compreensão da vida dos seus súbditos como até na aparente dificuldade de processar o conceito de morte, por exemplo. Aladeen e Borat estão unidos pela extrema ingenuidade, a diferença sendo que o primeiro parece muito mais perigoso e ambíguo pelo poder que tem e pelas questões sociais e geopolíticas a que alude.

Espaço para a sátira é o que separa The Dictator dos três filmes anteriores com Cohen como protagonista. Do seu talento enquanto actor nunca houveram grandes dúvidas. Do seu timing cómico e capacidade de chocar muito menos. No entanto, sempre me perguntei se alguma vez conseguiria dar substrato às suas piadas e deixar de ser excessivo sem propósito. O discurso que pretende realçar as diferenças entre Wadiya e os EUA mas que acaba por os aproximar ("imaginem se a América fosse uma ditadura: podiam deixar 1% das pessoas ter toda a riqueza, podiam ignorar as necessidades dos pobres (...), podiam torturar prisioneiros estrangeiros") é magistral em provar que sim. Claro que não deixamos de ter linhas com contornos ofensivos ("vais ter um menino ou um aborto?") e cenas de humor duvidoso (o general e a sua apaixonada a trocarem olhares enquanto realizam um parto vem-me à mente), é impossível seguir Cohen por todos os caminhos que ele escolhe, mas não escondo o sentimento de satisfação pela sua descoberta de mais equilíbrio e sagacidade. Ganham também com isso o filme e o espectador.

7/10

IMDb 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

The Woman In Black (James Watkins, 2012)


Território fértil em criatividade e fantasia, a ficção de contornos góticos foi uma influência óbvia na série Harry Potter, desde os cenários e ambientes replicados à abundância de sotaques britânicos, em que sucessivas reviravoltas amplificavam a urgência de combater forças do mal em rápido crescimento e, por conseguinte, cada vez mais assustadoras. The Woman In Black, um genuíno conto de terror no virar do século XIX, é o passo em frente mais lógico e sustentável que Daniel Radcliffe podia ter desejado para a sua carreira cinematográfica.

Ainda que o tom e a austeridade do sétimo e último capítulo da saga do feiticeiro com uma cicatriz em forma de relâmpago na testa sejam incomparáveis com o primeiro, é aqui e agora que o actor amadurece e constrói por cima do que já fez. Sempre em luto, mas agora pai viúvo em vez de adolescente órfão, Radcliffe é Arthur Kipps, um solicitador especializado em testamentos, incumbido de organizar a papelada existente numa mansão abandonada que tem de ser vendida, na costa nordeste inglesa, tendo para isso de deixar o filho em Londres com uma ama por uns dias.

Numa sequência inicial capaz de rivalizar com a de Antichrist (Lars von Trier, 2009) para o prémio de mais deprimente de sempre, percebemos que todas as crianças da história estão sob ameaça de morte, restando saber de quem e porquê. Em Crythin Grifford, a população acha que as respostas estão na casa, pelo que a presença de Kipps, prestes a remexer no passado, não é bem vista. O seu único conforto é o cepticismo do Sr. Daily, o ricaço da região, que se recusa a acreditar em histórias de fantasmas, apesar de ter sido directamente afectado pela alta taxa de mortalidade infantil da vila.

Kipps não é tão seguro de si mesmo e a verdade é que, aberta a residência, os encontros paranormais e os acontecimentos macabros sucedem-se. O realizador James Watkins não é estranho a este género e o entusiasmo e a segurança com que cria e explora o sentimento do medo está bem vincado numa set-piece genial de 20 minutos do protagonista a explorar a Eel Marsh House à noite. É como uma viagem numa casa assombrada, desprovida de diálogos, com iluminação frouxa e uma parafernália infinita de sustos, a fazer lembrar filmes mudos tipo Vampyr (Carl Th. Dreyer, 1932).

Há muito que não saltava tantas vezes da cadeira. A qualidade estende-se a todos os níveis de produção, da fotografia (fantásticas as visões no nevoeiro e as primeiras imagens dos pântanos da zona), ao guarda-roupa e design (que contribuem para uma reconstituição irrepreensível da época, aparecendo com destaque pormenores como o advento do automóvel, que ainda confunde alguns populares mas ajuda Kipps a resolver o mistério principal, e a escultura fúnebre Angel Of Grief de William Wetmore Story, 1894). Mas, claro, quem carrega o filme é Radcliffe.

Não é difícil prever-lhe um futuro de sucesso, não pela fama atingida ao tornar-se a cara de um fenómeno literário, mas porque há uma certa dignidade na sua postura abatida e olhar triste, como o próprio filho no filme chega a notar, através dos seus desenhos, que faz dele perfeito para estes papéis. Quanto à mulher de preto, é uma personagem amarga. Não há nada pior que perder alguém que amamos, e o negrume da sua história invade todos os frames, excepto talvez os últimos, em que um sorriso aparece, deixando-nos cara a cara com uma resolução emocional ambígua - o que se impõe em elucubrações místicas.

9/10

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

The Dark Knight Rises (Christopher Nolan, 2012)


É impressionante a dimensão que os últimos filmes do Batman atingiram, não só em termos de bilheteiras, sendo que The Dark Knight Rises é o segundo desta trilogia a ultrapassar os mil milhões de lucros, mas especialmente em termos de alcance e espetacularidade. Lembro-me de este ser o meu super-herói preferido quando era mais novo, em parte porque os seus únicos superpoderes são o treino físico e a engenharia, em parte porque Gotham sempre me pareceu o sítio mais negro e mais perigoso à face da terra. Lembro-me de quadradinhos cheios de sombras e sangue, ruas imundas e vilões desfigurados. Lembro-me de achar que, mesmo não desgostando do que o Tim Burton tinha feito, ainda estava para vir o dia em que algum filme conseguisse captar o negrume e o sentido de ameaça constante que transbordava da banda-desenhada. Hoje já não posso dizer o mesmo nesse aspecto.

Oito anos depois dos eventos de The Dark Knight, a cidade está em paz. Harvey Dent tornou-se um mártir da luta contra o crime e Batman um vilão inexplicavelmente desaparecido. Na realidade, as provações do passado debilitaram Bruce Wayne física e psicologicamente, mas os prenúncios de uma "tempestade" preocupam-no. O submundo agita-se e, nos esgotos, um antigo membro da Liga das Sombras, Bane, coordena um novo movimento terrorista. Como Christopher Nolan admitiu, o tema predominante é a dor, e é de admirar que a maior extravagância de efeitos especiais da sua carreira acabe também por ser uma das mais dramáticas. A morte de Rachel parece insuperável, a intrepidez e força de Bane revelam-se avassaladoras e a vontade de Alfred de proteger o seu último amo de andanças que este poderá não mais aguentar levam Wayne a bater no fundo em muitos sentidos.

Michael Caine tem mesmo a melhor interpretação aqui, com a personagem menos glamorosa de todas mas a que esteve sempre mais próximo do herói do que qualquer outra e consegue portanto prever com mais claridade que ninguém o pior. Comunicar os seus receios, empilhados durante anos de serviço, com a emoção de quem se preocupa e quer o melhor, e receber incompreensão como resposta é a cena mais simples e mais visceral de todas. Esta é a grande diferença em relação a The Dark Knight: o incessante jogo de gato e rato com o Joker é substituído por uma procissão de eventos com destino a um apocalipse, trazendo uma implacabilidade sem precedentes. É verdade que este salto de uma rivalidade mitológica passível de ser prolongada ad infinitum para uma conclusão pode ser demasiado definitivo num universo com tantas histórias, mas não deixa de ser arrojado e lógico.

Desde o espectacular assalto a um avião da CIA às visões mais cataclísmicas de Gotham (maioritariamente Nova Iorque, assumido sem pudor com establishing shots do novo World Trade Center) é notório quão mais elevada é a parada para os seus cidadãos, o caos já não é suficiente, o objectivo de Bane é a destruição através da tortura, o combate de Batman e dos seus aliados, novos e antigos, não é só contra o crime, mas contra a revolução, e há escolhas para serem feitas. Aqui entra em evidência o maior triunfo de Nolan, que se serve da intemporalidade de uma cidade ficcional permanentemente dividida entre forças do mal palpáveis por se reduzirem a formas tão reais de corrupção (na economia, na política, etc.) e violência (com criminosos de meia tigela, assaltantes de bancos, etc.) e forças do bem credíveis por se reduzirem a polícias comuns ou a um mascarado tão humano, para a dotar de uma subversiva contemporaneidade.

Com os países ocidentais em recessão, as suas sociedades em estagnação cultural e as populações em clivagem de 99% contra 1%, são tempos de incertezas. Bane é um beco sem saída, que oferece um meio de libertar frustrações mas nenhuma solução sustentável. Selina Kyle (Anne Hathaway perfeita para o papel), avisa Wayne de que, em breve, os ricalhaços como ele vão ser confrontados com o facto de viverem em abundância enquanto o resto tem de remediar, por regra. Ver a bolsa ser destruída por metralhadoras pode ser doentiamente satisfatório. Sendo o capitalismo a base do nosso sistema, é um pensamento assustador. The Dark Knight Rises não precisava de ser um fim, mas, a sê-lo, faz a ponte que se impunha até Batman Begins e desenvolve-se com uma ambição enorme, que Nolan gere com a sua lacónica competência. É o meu preferido da trilogia.

9/10

sábado, 9 de junho de 2012

Dark Shadows (Tim Burton, 2012)


Dark Shadows abre com um prólogo que explica o background de Barnabas Collins. Nascido numa família abastada de Liverpool no séc. XVIII, emigra ainda criança com os pais para o estado americano do Maine, onde estabelecem a vila piscatória de Collinsport e prosperam economicamente, ao ponto de erigirem no topo de uma colina sobranceira uma mansão que faria inveja à casa assombrada de qualquer filme de terror, tal a sua imponência e aparência ameaçadora. É uma época fértil para histórias com contornos góticos, em que a moda é elaborada, as regras de etiqueta são rígidas e as intrigas aristocráticas abundam. Johnny Depp interpreta a fase adulta de Barnabas, cujo charme natural, aliado a fatos rendados e piropos arcaicos, fazem dele um playboy que atrai Angelique Bouchard, uma empregada intimidante e impertinente com grandes atributos, e Josette DuPres, uma angelical descendente de realeza francesa. Enamorado pela segunda, afasta-se da primeira, sem saber que esta é uma bruxa que, na sua obsessão por ele, mata a concorrência na esperança de ter o amor de Barnabas. Não o consegue e enterra-o como um vampiro em jeito de vingança.

É um início brilhante, que sobreviveria muito bem independentemente do resto do filme como uma curta de grande orçamento e com o inconfundível sentido estético de Tim Burton. Fast forward para 1972 com as expectativas altas, em que Bella Heathcote já não é Josette mas sim Victoria Winters, Collinsport é agora dominada por uma empresa chamada Angel Bay e os Collins se resumem a um clã de 7 pessoas fechadas nas ruínas do que já foi um casarão com mais de 100 empregados. Elizabeth (Michelle Pfeiffer) é a matriarca de serviço, que tenta, sem sucesso, manter o irmão, o sobrinho e a filha longe de peneiras que não podem financiar e as revoluções sociais (musicais, sexuais e eteceteras) que possam envergonhar a memória dos antepassados. Enquanto realizador que nunca se inibiu de omitir ou subverter simbologia religiosa quando a oportunidade aparece (relembro Sleepy Hollow, em que até crucifixos servem para andar à porrada), Burton explora em Dark Shadows, com maior evidência e claridade do que nunca, aquele que é um dos seus temas sagrados, mas que fica frequentemente disfarçado debaixo das habituais doses elevadas de caracterização e delírios fantasiosos: a família.

Barnabas tem muito tempo para refletir no que o pai lhe dizia sobre a família ser a única verdadeira riqueza. Demasiado até, sendo libertado, graças à construção de um McDonalds depois de 200 anos num caixão, com imensa sede (e não é de água) e nenhuma noção das evoluções que o mundo sofreu entretanto (assim que vê o logotipo vermelho e amarelo da tal cadeia de restaurantes, tão parecido com outro que vira num livro antigo de bruxaria, toma-o por um sinal mágico do diabo, vulgo Mefistófeles). Depois do melodrama dos primeiros minutos, o filme entra num ritmo de sitcom que talvez se assemelhe mais à novela em que é baseado, ainda que com mais sofisticada e maior quantidade de comédia, que frequentemente advém da ignorância de Barnabas sobre os tempos atuais e do choque entre a sua forma antiquada de falar ou vestir com o que é contemporaneamente aceite. O argumento nem sempre é eficaz a confrontar o vampiro com os outros Collins (Roger, por exemplo, torna-se bastante irrelevante) ou a criar uma relação entre ele e Victoria, por quem imediatamente se apaixona, dadas as semelhanças com Josette, e que foi parar à mansão para ser governanta de David, o filho de Roger.

Não anda muito longe de uma nova versão filmada de The Addams Family, com criaturas estranhas que se vão relevando ao longo do tempo e contrastes de cor que Burton organiza na perfeição, mas com uma dose inesperada de erotismo, em que até a adolescente Chlöe Grace Moretz é algo sexualizada. É um facto que a pureza de Victoria acaba por sair vencedora, porque Burton não esquece a receita de sucesso dos contos de fadas em que trabalhou na Disney, por muito kitsch e macabros que os seus filmes possam ficar, mas o sexo está bem presente e é levado ao extremo quando Angelique seduz Barnabas pela última vez (mais explicitamente, é levado para a secretária, para o sofá, para as paredes, para o teto, até o escritório da bruxa, que, também imortal, nunca esqueceu o seu objeto de obsessão e se tornou na dona da vila, estar em fanicos). Afinal, os vampiros são conhecidos por terem hábitos perversos e quando Eva Green entra em cena o filme ganha irreverência. Johnny Depp é irrepreensível nesta personagem, cheio de expressões e gestos que são só seus, como o grande ator/autor que é. Tal como as suas criações, Burton é um monstro à parte, impossível de não adorar. Raramente se supera mas nunca desilude.

8/10

sexta-feira, 20 de abril de 2012

The Hunger Games (Gary Ross, 2012)


Num futuro distópico, 2 jovens dos 12 aos 18 anos são escolhidos anualmente, por sorteio, em cada um dos 12 distritos sob domínio do Capitólio, para participar no evento televisivo nacional, os The Hunger Games, em que se matam uns aos outros num estúdio que rivaliza, em dimensão, com o de The Truman Show, até haver só um vencedor, para gáudio dos telespectadores do núcleo rico da nação.

A morte transformada em espetáculo não é um conceito inovador. Quais gladiadores, os "tributos" humanos passam de miseráveis escravos a estrelas de um reality show perverso, criado há várias décadas por um governo sombra central para punir uma rebelião mal explicada dos territórios oprimidos, assim controlados pelo massacre das suas gerações futuras e humilhados com tal exposição mediática.

Battle Royale (Kinji Fukasaku, 2000) apresentava já um conceito similar, mais como uma alegoria para uma sociedade descrente na juventude mas que não oferece compreensão ou futuro à mesma, desperdiçando-a e formatando-a para a obediência ao estado através do medo, do que como um olhar preocupado ao aumento das discrepâncias sociais e do voyeurismo incitado pela televisão e novas tecnologias.

Baseado no primeiro volume de uma trilogia de best sellers americanos, The Hunger Games é um exercício válido em futurologia que parece mal desenvolvido no cinema, sendo difícil de dizer se tal acontece para deixar as sequelas preencherem as pontas soltas ou se, apesar da pertinência da sua premissa, tem mais valor pelas suas implicações sociais do que pela criatividade da escrita de Suzanne Collins.

Começamos no pobre Distrito 12, onde Katniss se voluntaria para o programa, passando à frente da sua irmã mais nova, inicialmente selecionada de forma aleatória. Interpretada com segurança por Jennifer Lawrence, uma atriz com o raro talento de parecer arrogante e enigmática mas com pontos fracos, impossível de não gostar e destinada ao heroísmo, é enviada para a capital com Peeta (Josh Hutcherson).

É interessante como a sua falta de destreza social se torna atraente para aqueles que anseiam vê-la matar ou morrer no ecrã e mesmo ela parece abraçar momentaneamente a sua efémera popularidade, os luxos concedidos, os desfiles públicos e as entrevistas surreais com o apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci de cabeleira azul) mas acaba a desafiar o sistema e ser o arauto de uma nova revolução.

Esta exposição é doentia e torna-se desconfortável pensar neste lado quando a matança começa e vemos o que se segue ao glamour. Na arena há inúmeras nuances e o trabalho de câmara trémulo e sempre focado em Katniss aumenta a intensidade e a visceralidade da experiência, tornando o espectador num concorrente. Pena os outros rapazes e raparigas não serem mais que clichés ambulantes.

Aliás, desenvolver as personagens é algo que o filme não faz muito bem, fascinado que está em mostrar cenários futuristas e o dia-a-dia da preparação dos "tributos", o que se torna fastidioso rapidamente. Não é claro porque é que só após 74 edições dos The Hunger Games os povos oprimidos pelo Capitólio parecem dispostos a revoltarem-se nem qual é o desfecho. Há curtos flashbacks que nada esclarecem.

Chega-se ao fim com contexto insuficiente, não obstante algo como meia hora a mais de cinema. Se este é o franchise que está a destronar Twilight na lista de preferências dos adolescentes, não deixo de ficar contente, porque há profundidade intelectual em The Hunger Games. Enquanto filme é esteticamente consistente, frequentemente instigante, mas também um pouco insatisfatório.

6/10