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domingo, 4 de dezembro de 2016

It Follows (David Robert Mitchell, 2014)

Aqueles takes longos e silenciosos, aquela mistura de sons e imagens misteriosas e aquela utilização dos elementos naturais para esconder ameaças prestes a ser reveladas que são transversais aos melhores filmes de John Carpenter contribuem para criar uma atmosfera singular - é exatamente isso que David Robert Mitchell parece perseguir em It Follows, essa impressão de que um assassino está à espera num quintal do subúrbio mais pacífico imaginável, de que fantasmas podem saltar do nevoeiro numa banal vila costeira ou até de que aliens se refugiam debaixo da pele de pessoas com que nos cruzamos todos os dias.

Lentamente, somos apresentados a uma família composta por várias mulheres de diferentes idades, na qual a mãe se mantém praticamente ausente e as filhas dividem o tempo entre as aulas, a piscina desmontável e, no caso de Jay (Maika Monroe), encontros com um rapaz que conhece mal. Após fazerem sexo pela primeira vez, ela inicia um monólogo romântico e é um belo cenário de amor que quase nos ilude de que nada se passa, quando, de repente, ele salta-lhe em cima e abafa-a com clorofórmio. O filme começa. Ao acordar, Jay fica a saber que lhe foi transferida, qual DST, uma maldição que a perseguirá sob a forma de espectros lentos e com vontade de matar, apenas visíveis pelo(a) hospedeiro(a).

Sendo impossível de prever onde e quando a alcançarão, ela não pode parar num só sítio nem adormecer, sob pena de ser apanhada durante o sono. As irmãs e os amigos notam uma diferença brutal no seu comportamento e, depois de Jay partilhar esta história sobrenatural, eles acompanham-na numa série de tentativas para decifrar a verdade, incluindo os mais céticos. Para além de jogar com as ansiedades sobre a sexualidade juvenil da forma mais subversiva desde Kids (1995), pondo de lado o realismo extremo de Larry Clark e substituindo-o pela criatividade do cinema de terror, coloca-se um enorme dilema moral através das seguintes opções: deixar-se ser apanhada e morrer, fugir até à exaustão ou passar o vírus a outrem.

Para onde quer que o grupo vá, algo os segue. A união que se gera levará a um excesso de solidariedade? Serão interrompidos por um ato invisível de violência em casa ao abrir a porta do quarto, no parque infantil com algo a saltar de trás de uma árvore ou na margem do lago onde se escondem temporariamente? Pode acontecer a qualquer momento e é incrível como nunca deixamos de ter consciência disso. Os contrastes da cidade de Detroit, a familiaridade das personagens e lugares e a banda sonora a relembrar Halloween (1978) elevam It Follows ao nível de um clássico moderno do género.

9/10

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Boyhood (Richard Linklater, 2014)

Quando se segue a carreira de alguém com assiduidade e chega um ponto em que somos presenteados com um trabalho que inquestionavelmente representa o culminar da evolução de características e técnicas abordadas desde o início é muito gratificante. Boyhood é um desses momentos. Nele está a vontade de retratar o quotidiano sem artifícios de Slacker, as dores de crescimento de Dazed And Confused, a construção e desconstrução de laços afectivos de cada reencontro com o casal Jesse e Celine (Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight, até agora) e, ainda mais importante, o registo, a percepção e a memória da passagem do tempo, transversal a todos esses filmes.

O que é a cidade de Austin nos anos 90, que se faz, que se diz, que se ouve, onde se vai, que se veste? O que significou ser adolescente nos anos 70, quais são os receios ao entrar e as dúvidas ao sair do secundário e como se intersectam? O que se tem de sacrificar e pelo que se tem de lutar para manter durante décadas uma relação que experimenta incontáveis intermitências? A simplicidade estilística que Richard Linklater privilegia serve uma hiperconsciência do presente empenhada em celebrar cada momento pela sua fugacidade. “The moment seizes us”, resume-se aqui. São doze anos que passam pelas personagens e pelos actores em igual medida e todos os segundos são irrepetíveis.

Mason Evans Jr. e Ellar Coltrane crescem a olhos vistos. No ecrã vemos etapas próprias da idade, lugares-comuns como brigas entre irmãos, fins-de-semana de campismo, aquela altura em que um pai decide que o melhor penteado para o filho é a máquina zero, aulas aborrecidas, namoros mal sucedidos, no fundo a vida como ela é (ou foi), sem enredo, sem clímax, sem arcos. A representação dessa linearidade é hipnotizante e o conceito original, mas serve apenas de base para o alcance do filme. O drama resultante das experiências de Mason é um patamar, a forma como o filme nos devolve as nossas experiências ao remeter-nos para um determinado período é outro patamar.

Quando Boyhood começou a ser gravado, a Yellow dos Coldplay dominava as rádios. Quando Boyhood parou de ser gravado, os telemóveis de terceira geração já estavam amplamente disseminados. É curioso verificar que as mudanças culturais acontecem a um ritmo mais rápido daquele que pressentimos, e, com essas mudanças, especialmente a nível tecnológico, também damos menos valor ao que acontece aqui e agora porque podemos gravar e fotografar a qualquer altura para mais tarde recordar – mas depois olhamos para trás e, se calhar, podíamos ter aproveitado melhor o momento enquanto o vivíamos. Linklater convida-nos a parar e observar, com liberdade, sem sentenças, este mundo moderno. É, sem dúvida, o filme que nasceu para realizar.

9/10

The Grand Budapest Hotel (Wes Anderson, 2014)

Já me colaram o rótulo de obsessivo-compulsivo algumas vezes e eu aceito, consciente de que, felizmente, se traduz em manifestações de pouca expressão, que me levam a insistir na arrumação dos espaços que ocupo e na geometria da disposição dos objectos, mas não da forma doentia que caracteriza os reais portadores deste distúrbio; o meu dia-a-dia não sofre por eu ser organizado, antes o contrário. Pela atenção que dá aos detalhes, pela constante procura dos melhores movimentos de câmara e dos planos mais bem enquadrados e até pelo humor desajeitado, sempre imaginei que o realizador Wes Anderson se insere também nesta definição. Só isso, à partida, já me aproxima dos seus filmes.

Depois de tantos anos a refinar o seu estilo, conseguiu atingir em Moonrise Kingdom uma harmonia no cerne emocional que o serve como uma luva e que, devido à habitual peculiaridade das personagens, se revelava difícil de manter constante em filmes anteriores. Essa história de amor juvenil em tempos de maior inocência é, para mim, do melhor que foi feito até agora neste milénio, e só de me lembrar de Sam e Suzy a dançar numa praia ao som de Le Temps De L’Amour, do primeiro álbum da Françoise Hardy, já fico com palpitações, de tão maravilhosa que é essa cena.

Com um enredo bastante mais intricado e vislumbres de contexto histórico, disfarçados por quantidades enormes de lugares, apelidos, brasões e uniformes fictícios na Europa dos anos 30, The Grand Budapest Hotel mantém a fasquia elevada. Tanto a relação de pai e filho entre o gerente do estabelecimento do título, o bonacheirão M. Gustave (com Ralph Fiennes a espalhar charme e a confirmar o seu alcance infindável) e o novo paquete, o obediente Zero (Tony Revolori, outro jovem a revelar talento graças a Wes Anderson), como o namorico entre o rapaz e Agatha (Saoirse Ronan), ajudante na pastelaria da moda, carregam carradas de compaixão e graça, a que não consigo resistir.

Quando uma das amantes idosas de M. Gustave morre e lhe deixa um quadro de valor incalculável, a ganância vai persegui-lo e levá-lo a ser esmurrado, preso, fugitivo e quase abatido dentro do seu próprio hotel, entre outras situações, algumas demasiado absurdas e divertidas para serem arruinadas por qualquer descrição. As aparições de Bill Murray, Jason Schwartzman, Edward Norton, Willem Dafoe ou Tilda Swinton são já uma regra bem-vinda. A repetição obsessiva de certas cores, as composições simétricas e as maquetes usadas como cenários são a cereja no topo do bolo. Um bolo cuja receita está no ponto neste momento.

9/10

Whiplash (Damien Chazelle, 2014)

Não se pode duvidar que Whiplash, o indie que custou três milhões de dólares e foi nomeado para cinco Óscares, é um filme de emoções fortes. Arrisco que quem não gosta de jazz vai mudar de ideias depois de o ver, porque a banda sonora é muito bem escolhida e as sequências musicais foram filmadas com uma intensidade e uma atenção ao detalhe imaculadas. Em simultâneo, as personagens principais estão constantemente em conflito, entre elas ou consigo mesmas, no sentido de serem os melhores no que se propõem a fazer e provarem um ao outro que estão errados… o que acaba por confirmar que ambos estavam certos.

Andrew (Miles Teller) é aprendiz de baterista numa escola reputada de Nova Iorque, que deve a sua fama a Fletcher (J.K. Simmons), maestro da banda do estilo supramencionado. A vontade do aluno de estar ao nível dos seus ídolos move-o a praticar todos os dias até as mãos sangrarem, a ridicularizar a inclinação familiar para o desporto ou a pôr um travão nas hormonas, afastando a rapariga que trabalha no cinema onde costuma ir com o pai, Nicole (Melissa Benoist), apesar de ter sido ele a mostrar iniciativa e convidá-la para saírem juntos, e é apenas rivalizada pela violência que o professor utiliza com o intuito de puxar os seus músicos ao máximo.

A teoria de Fletcher, ilustrada com o exemplo de Jo Jones ter atirado um prato a um adolescente Charlie Parker em plena actuação, motivando o mais novo a treinar no saxofone e tornar-se numa lenda no instrumento sob o cognome Bird, é de que a sua severidade, reforçada cada vez com maior exagero, levará a encontrar um talento de alto gabarito, porque esse usará as contrariedades por ele criadas para se ultrapassar. Só uma mente distorcida pode preferir trabalhar sob tal filosofia de ensino a servir de mentor, com realismo e pragmatismo, mas sem violentar, física e psicologicamente, aqueles que o procuram para com ele aprenderem. Fletcher é uma farsa.

Ninguém daria emprego, muito menos manteria nos quadros, fossem quais fossem os resultados em competições que ele obtivesse, alguém que leva os alunos a chorar, a atacarem-no em palco e ao suicídio. Andrew busca a sua aprovação como uma inocente Anastasia busca a aprovação do seu incompreendido Christian, pelo meio subjugando-se ao masoquismo, e sim, acabo de ligar Whiplash a 50 Shades Of Grey. Menos chicotes, mais baquetas. O que o redime é o amor pela música; apesar da lógica da história ser completamente retorcida, as versões da Caravan são as cenas mais pornográficas do ano, a concentração é total, o suor cai, a velocidade aumenta, os olhares cruzam-se. É um grande elogio. Talvez Damien Chazelle pudesse aquecer o filme de Sam Taylor-Johnson.

5/10

The Imitation Game (Morten Tyldum, 2014)

“Behind every code is an enigma” diz o poster original deste The Imitation Game, resumindo brilhantemente, numa frase, as duplicidades do filme e espicaçando a curiosidade. A nível de enigmas temos a máquina de criptografia com esse nome usada pelos nazis durante a 2ª Guerra Mundial para transmitir mensagens por rádio sem que os aliados conseguissem decifrar e a personalidade idiossincrática do matemático Alan Turing, que seria o primeiro a deslindar o seu funcionamento. Os códigos são a parte mais visível desse trabalho, mas também os eufemismos, os disfemismos, as regras de etiqueta e outras figuras de estilo e padrões de comportamento que usamos todos os dias para obter o que queremos, mascarar o que dizemos ou guardar segredos, consoante a necessidade. Quanto ao “behind”, pode ser uma referência tanto ao esforço de guerra feito longe das linhas da frente como à homossexualidade da personagem principal. Ok, agora levei estes “double entendres” demasiado longe.

Vou deixar as piadas de lado, porque este drama histórico é bastante deprimente. Os horrores dos combates, dos campos de concentração e da devastação causada nas cidades de meia Europa, habitualmente o foco das revisitações deste período, são quase um rumor, no entanto a tensão vivida no departamento de criptografia dos serviços de inteligência britânicos, mascarado em Bletchley como uma fábrica durante muito tempo, e os fragmentos de eventos anteriores e posteriores, relativos às tristes experiências pessoais do incompreendido Turing, que apenas contribuíram para o tornar cada vez mais arrogante, anti-social e tergiversante, são suficientes para criar uma atmosfera tão cinzenta quanto a meteorologia local. Desde o início, quando ele é entrevistado pelo comandante Denniston para integrar a equipa encarregue de estudar a Enigma, fica claro que quem o rodeia tipicamente prefere julgá-lo, insultá-lo e até bater-lhe a fazer um esforço para o ajudar. Turing é sistematicamente subestimado por ser diferente.

As suas ideias encurtariam a guerra em cerca de dois anos, estima-se, porém tiveram de se manter em segredo de estado por várias décadas, outro factor que adiou uma análise justa do alcance da sua genialidade. Apenas podemos imaginar que mais inovações teria desenvolvido caso não se tivesse suicidado em 1954. Com a reputação manchada e a saúde comprometida depois de ter sido condenado por indecência, já que a homossexualidade era ilegal, forçado a submeter-se a um processo de castração química, o professor terá desistido de aturar os seus demónios. A estrutura do argumento é impecável na forma como concilia esse período final e a infância, marcada por bullying e uma decepção amorosa trágica, com o dia-a-dia atribulado em Bletchley, dando outra profundidade aos tiques, às hesitações e à fisionomia única que Benedict Cumberbatch empresta ao papel. Comparando com outra biografia de um cientista inglês deste ano, The Theory Of Everything, não tenho dúvidas de qual é o melhor filme e de qual contém a melhor interpretação.

8/10

Selma (Ava DuVernay, 2014)

Selma, a cidade no Alabama que foi palco de uma das mais significativas acções de protesto contra o racismo nos EUA e em prol da garantia de que a população afro-americana podia votar, dá o nome a este filme onde Martin Luther King, a voz mais pacífica e poderosa do movimento dos direitos civis nos anos 1960, tem de dividir protagonismo com Oprah Winfrey, que parece ter aceitado colocar-se como produtora apenas se tivesse um papel com o máximo de destaque e o mínimo de trabalho possível, aparecendo proeminentemente quatro ou cinco vezes quase sem uma única fala, e se recebesse uma nomeação aos Óscares nessa posição. A apresentadora tem todo o direito de recuperar o seu lugar como actriz no cinema, onde foi revelada, graças a Steven Spielberg, em The Color Purple, muito antes de oferecer carros à audiência e patrocinar médicos dúbios no seu programa televisivo, contudo também tem de perceber que, com isso, gerou para si mesma uma personalidade que é difícil de dissociar em ficção e que distrai.

Mas, voltando atrás, MLK encontra em Selma o cenário perfeito para espicaçar a consciência do mundo, em especial do mundo branco, para a verdadeira dimensão da segregação no país, em especial no sul. Sob o lema “negociar, protestar, resistir”, organiza uma marcha em direcção à capital estadual, contando com a retaliação do xerife do condado Jim Clark e do governador Geroge Wallace, que se opõem às mudanças sociais em desenvolvimento. Depois de uma primeira tentativa, repelida ao fim de poucos quilómetros por causa de um bloqueio policial violentíssimo na ponte Edmund Pettus, registado e amplamente relatado pelos jornais e noticiários da altura, e uma segunda, com ainda mais pessoas, pretos e brancos, a ser abortada pela personagem principal no mesmo local, é apenas à terceira, algumas vítimas depois e já com apoio legal, garantido pelo juiz do tribunal federal distrital, que o destino é alcançado. Os eventos foram fundamentais para que o presidente Lyndon B. Johnson aprovasse leis que inviabilizaram a descriminação nas urnas.

Em geral, o argumento segue, para além de lidar com questões relacionadas na sua natureza, a linha de Lincoln, apoiado numa interpretação com inquestionável competência, neste caso de David Oyelowo (que também tinha aparecido nesse filme de 2012), e interessado em mostrar os bastidores das decisões políticas tomadas por todas as facções envolvidas. Nesse sentido, Selma perde alguns pontos por estereotipar certos intervenientes. MLK é o bom, Wallace é o mau e Johnson está dividido. O presidente tinha batalhado para assinar uma lei que desse aos afro-americanos o direito de voto e conseguido, um ano antes. Entre o programa espacial, a guerra do Vietname, a luta contra a pobreza e suceder a John F. Kennedy, não teve um calendário fácil. Já o governador, é historicamente reconhecido como um populista sem real convicção racista, como mais tarde admitiria. Tudo o resto são iscos para os Óscares, que funcionaram relativamente bem (muitos esperavam mais do que duas nomeações). Props para Oyelowo, a realização e a fotografia.

6/10

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Gone Girl (David Fincher, 2014)

Basta uma rápida viagem pelo site da Pordata para confirmar que os casórios não só parecem estar fora de moda, tendo ocorrido uma redução para metade em número desde o início do século, como parece estar condenada a perpetuidade da cerimónia, já que, num igual período, o divórcio disparou de 30 para 70%. Estas tendências não são exclusivamente nacionais e dão azo a todo o tipo de interpretações e preocupações. Pode dizer-se que a pressão da vida moderna não se coaduna com tamanho compromisso, que as relações são cada vez mais superficiais, que as mulheres têm condições para abandonar situações precárias sem sofrerem com os estigmas de antigamente, ou até que o crescimento do agnosticismo tem depreciado a santidade do acto. Seja como for, quando duas pessoas decidem casar querem que seja para sempre. Existe a esperança de terem chegado a um ponto em que estabeleceram compromissos com os quais estão confortáveis e que servem a sua coexistência, o que nunca suprime a hipótese de aflorarem alguns conflitos e a necessidade de novas adaptações. Ninguém diz que é fácil e ninguém se livra de pensar no que o outro estará a pensar, no que o outro estará a sentir, no que o futuro reserva, esteja tudo bem ou tudo mal. Ouvimos exactamente isto no início e no fim de Gone Girl, só não podemos determinar qual momento corresponde ao melhor e ao pior que Nick (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike) viveram em conjunto.

David Fincher vai ao extremo para reforçar o trabalho que dá o amor, o projecto em constante desenvolvimento que é um casamento e a impossibilidade crescente de aplicar a lógica e explicar os laços que unem um homem e uma mulher que o tempo não consegue separar. A pergunta que, estando de fora, várias vezes se faz é… porquê? A explicar: o casal Dunne chegou aos cinco anos de enlace e, num dia que deveria ser de alegria, ele está no bar que abriu com a irmã a afogar as mágoas numa cerveja logo pela matina, eventualmente voltando ao seu lar, onde é confrontado com o desaparecimento da esposa. A polícia é chamada, Nick é questionado, os progenitores de Amy são avisados, uma conferência de imprensa é marcada e o caso ganha uma dimensão mediática do dia para a noite, alavancado pela popularidade de uma personagem fictícia de livros infantis escritos pelo pai e pela mãe baseada em Amy. A sucessão de eventos apanha o marido de surpresa, que, para além da dificuldade em assimilar o que lhe está a acontecer, dando origem a reacções deslocadas e que o fazem subir ao pódio da lista de suspeitos, como anuir aos pedidos de fotógrafos e sorrir ao lado dum poster a pedir informações a quem as tiver, tem agora de esconder ainda com maior diligência a sua infidelidade (nada fácil quando, ao cabo de poucas horas, Andie, a amante, já está a bater-lhe à porta e descobrimos que se trata de Emily Ratajkowski).

Sem dúvida, Nick fica a dever um pouco à inteligência, mas nem isso nem a traição constituem crimes. Os dados não favorecem a sua posição e os flachbacks que ilustram a leitura do diário de Amy, que as autoridades encontram ligeiramente queimado na salamandra de casa do pai dele, muito menos, por isso, se for realmente inocente, ajuda era bem-vinda. Precisamente quando a procissão vai a meio, somos surpreendidos com o tipo de reviravolta que estamos habituados a ver como ponto final nos filmes de Fincher: ela está numa boa, a guiar em direcção ao pôr-do-sol, desencadeado que foi o plano perfeito para incriminar o marido pelo seu desaparecimento e acabar com nota artística uma relação que estava a dar as últimas. Isto é essencial para fundamentar os contornos absurdos que a história começa a assumir daqui para a frente. O realizador, consciente de que é primordialmente associado a policiais metódicos e austeros, graças ao sucesso de Seven, Zodiac ou The Girl With The Dragon Tattoo, sobrepõe as ideias visuais que cria nesses trabalhos à clara falta de preocupação deste mais recente com verosimilhanças. Apenas num momento essa seriedade tensa típica acaba por dar lugar à demência febril real: durante o último encontro entre Amy e o antigo namorado Desi (Neil Patrick Harris). É a única visão da dimensão da psicopatia dela, que, de resto, consegue reprimir de forma exemplar quando lhe é exigido pelas circunstâncias.

Gone Girl revela-se enganadoramente realista e Fincher diverte-se a dar novos significados às convenções dramáticas e técnicas dos géneros em que frequentemente se concentra. Já o tinha feito com The Game, mas, em retrospectiva, Gone Girl é mais completo, por partir de um pressuposto tão simples, palpável e envolvente como um casamento em dificuldades. Numa perspectiva puramente alegórica, lembra o violento Possession (Andrzej Zulawski, 1981), com as nuances políticas, indissociáveis da guerra fria, a serem substituídas por críticas óbvias à isenção inexistente de certos meios jornalísticos e à transformação de casos criminais em conteúdos televisivos de entretenimento, indissociáveis desta época de rápida disseminação de (des)informação. Basta, por cá, ver os programas da manhã dos canais de sinal aberto e pensar na falta de ética que acarreta apresentar teorias forenses infundadas entre playbacks de música pimba, dicas de culinária, sessões de cartomancia e gaffes pouco naturais do Manuel Luís Goucha. Em segundos, os media podem arruinar reputações sem consequências. No meio disto tudo, então como é que os casais passam por adversidades, uns mantêm-se juntos e outros não conseguem? Por conveniência? Por comodismo? Por terem aprendido uma lição e se terem tornado mais fortes? Há de tudo, só duas pessoas sabem a verdade completa e ambas constroem a sua versão. Como espectadores, ficamos remetidos às dúvidas.

9/10

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

American Sniper (Clint Eastwood, 2014)

Qual é o filme, qual é ele, que ainda nem tinha estreado em Portugal este ano e já estava a levantar ondas nos EUA? American Sniper, claro. O actor Seth Rogen decidiu escrever no Twitter que o lembrava Nation’s Pride, a vil propaganda nazi imaginada em Inglourious Basterds, o realizador Michael Moore começou por lançar críticas vagas na mesma rede social, mais tarde realçando a apologia da cultura das armas no seu país e a vilificação dos árabes que, na sua opinião, marcam presença no filme, e o comediante Bill Maher apelidou Chris Kyle, a personagem principal, de psicopata.

Este homem, que passa a juventude a amealhar trocos em rodeos, cede, após o 11 de Setembro, ao espírito de vingança que pautou a acção do governo de George W. Bush, alista-se nos Navy SEALS e leva a cabo quatro excursões militares pelo Iraque nos anos que se seguem, transitando assim de cowboy para soldado, talvez as duas profissões que, até no estrangeiro, mais rapidamente se associam à sua nação. É um facto que há um certo maniqueísmo inerente à construção da identidade americana e no cinema é fácil reconhecê-lo na generalidade dos westerns e histórias de guerra que saíram de Hollywood.

Isso marcou Kyle (interpretado por Bradley Cooper), pois, como podemos observar nos flashbacks para a sua infância, foi educado a usar o sotaque sulista, a disparar espingardas, a respeitar a autoridade do cinto, a ir à igreja católica, a proteger a sua terra e a sua família com violência se necessário, a nunca dar a outra face, como um sonso chamado Jesus. Esta postura reaccionária continua a andar de mãos dadas com a facção conservadora do país, a que Clint Eastwood sempre pertenceu, como fez questão de vincar com o apoio público facultado a Mitt Romney na campanha presidencial de 2012.

Todavia, é errado reduzir American Sniper a um patriotismo saloio. Intencionalmente ou não, a invasão do Iraque está imbuída duma dinâmica de derrota desde as primeiras cenas e o suposto herói insiste num discurso de protector da liberdade, sem remorsos por ter assassinado 160 pessoas em serviço, que contrasta com o stress pós-traumático que evidencia a certa altura. Perto do fim há laivos de felicidade no seu relacionamento com a mulher e os filhos, mas não se consegue afastar a sensação de serem pouco genuínos, como uma tentativa de voltar ao normal e não um regresso ao normal verdadeiro.

Acredito que isto não seja por acaso. Mesmo sendo republicano e o expoente máximo duma América “macho man” pelos papéis que interpretou na sua carreira, Eastwood já voltou o bico ao prego por duas vezes neste século, em Flags Of Our Fathers e Gran Torino, à elevação do exército a instituição quase divina e à espiral de medo, ódio e retaliação que rege a forma como as diferenças raciais, religiosas ou políticas são discutidas em alguns círculos do outro lado do Atlântico. Um focava-se em soldados conscientes da natureza do seu trabalho ser moralmente ambígua e o outro num veterano cheio de preconceitos.

Esta é a biografia do atirador mais letal dos EUA. Não é uma obra de denúncia nem de apoio – explora as suas experiências e o vício na adrenalina de viver em situações de perigo constante (com mais clareza do que The Hurt Locker). Não há iraquianos bons – consequência da distância de Kyle das batalhas e de uma guerra cobarde de parte a parte. Os maiores escândalos de American Sniper acabam por ser o seu desleixo técnico e a sua insipidez. Tirando o tiroteio numa tempestade de areia e o dilema de atirar numa criança, resta um filme mais convencional do que pode parecer e menos americanizado do que, ironicamente, The Interview.

7/10

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

The Lego Movie (Phil Lord, Christopher Miller, 2014)

Tenho no sótão da minha casa dezenas de caixas dos mais variados Lego (vamos já esclarecer aqui um ponto, estes tijolos de plástico não têm plural, da mesma forma que lápis também não tem), desde casas, a castelos, a submarinos, a baldes com montes de peças para usar aleatoriamente. Era um grande fã em criança e acredito que isso me tenha aproximado desde muito cedo do fascínio pela construção que influenciaria a minha escolha ao entrar no ensino superior, levando-me à Engenharia Civil.

Pondo de lado a minha euforia infantil (devidamente reprimida, para não destoar da reputação de crítico isento que de certeza me atribuem além fronteiras) por finalmente alguém ter conseguido levar ao grande ecrã um filme que respeita a dinâmica destes brinquedos, afinal que trapalhada de história poderia ter sido inventada? Não pude deixar de recear o pior depois de uma cena inicial confusa sobre uma super-arma a ser roubada dum feiticeiro, que recita uma profecia sobre um herói que evitará desgraças futuras.

Corte para Emmet, um banal boneco de cabeça amarela e mãos arredondadas, que trabalha nas obras e segue as instruções de tudo, tão desejoso de se inserir numa sociedade onde cada parte encaixa noutras na perfeição que não se vislumbra nele um pingo de personalidade. Pode ele ser o especial de corrida que vai salvar o(s) mundo(s) Lego do seu próprio presidente, obcecado com a ordem ao ponto de estar prestes a largar quantidades descomunais de cola para nada voltar a sair do sítio?

Inesperadamente unido ao único objecto que pode travar este maléfico plano, a chamada peça de resistência (o belo do trocadilho com “pièce de résistance”), um grupo dissidente de elite, os Master Builders, que defendem a liberdade criativa, tem mesmo de depositar as suas esperanças em Emmet, por força das circunstâncias, apesar das inúmeras reticências. Ironicamente, é a sua visão limitada que os vai permitir entrar despercebidos no covil do presidente. Seguir as regras também tem vantagens.

Tal como em cada conjunto Lego por montar, os criadores do filme trazem muitos elementos para cima da mesa e vão conseguindo juntá-los das formas mais inesperadas. A acção convoca personagens improváveis como o Batman ou Chewbacca, ganha força com as vozes de Liam Neeson ou Morgan Freeman, e percorre vários cenários, dos quais o mais surpreendente demora a ser revelado e traz uma base emocional que dá outro significado a todos os pormenores da história. Fica a convicção de que os Lego são para todas as idades.

8/10

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

The Theory Of Everything (James Marsh, 2014)

Nunca mais será possível ver qualquer filme em que o protagonista sofre com algum tipo de incapacidade motora ou mental sem pensar num diálogo específico de Tropic Thunder entre as personagens de Ben Stiller e Robert Downey Jr. no qual o segundo revela ao primeiro uma lei básica de Hollywood: “never go full retard”. Por exemplo, Dustin Hoffman em Rain Man parece atrasado, mas é autista, conseguindo contar cartas e sacar dinheiro num casino. Óscar no papo. Tom Hanks em Forrest Gump é lento, contudo ganha competições de ping pong e torna-se num herói de guerra. Óscar instantâneo. Sean Penn em I Am Sam esforça-se imenso, porém entrou em modo full retard. Mãos vazias.

A ideia tem a sua razão de ser, há que admitir. A sorte está do lado de Eddie Redmayne no que diz respeito a prémios individuais, pois com o papel de Stephen Hawking representa um cientista brilhante com a desdita de lhe ser diagnosticada esclerose lateral amiotrófica em 1963, a mesma doença neurodegenerativa que motivou o Ice Bucket Challenge, para lhe dar um contexto mais moderno. Apesar de ser raro manifestar-se na juventude, neste caso foi descoberta aos 21 anos e as melhores perspectivas apontavam para uma esperança de vida inferior a dois anos. The Theory Of Everything é de fazer chorar as pedras da calçada e ainda por cima é uma biografia. Parece o isco perfeito.

Deixando de parte estes rótulos e este cinismo em geral, a eficácia constante do drama histórico inglês é inegável, tornando-se difícil ignorar a qualidade dos valores de produção e da interpretação principal. Pela investigação no domínio da cosmologia, pela preocupação em tornar compreensíveis para o público geral conceitos complexos através do livro A Brief History Of Time e por ser um sobrevivente contra todas as expectativas, Stephen Hawking ultrapassou a barreira do anonimato académico para se transformar numa figura da cultura popular, a quem falta apenas um prémio Nobel por as suas teorias físicas continuarem a carecer de provas empíricas.

The Theory Of Everything aborda um pouco esses três aspectos e, principalmente, a vida privada, marcada por uma longa relação com Jane Wilde, aluna de humanidades (mais tarde professora) e católica praticante (facto de relevo), que começa nos tempos da universidade e termina nos anos 90, ambos embarcando em segundos casamentos. Casais que se apaixonam e vão perdendo a chama mas nunca a admiração e o respeito mútuo deixam-me mais piegas do que grandes mecanismos dramáticos como doenças devastadoras, confesso. Não há dúvida de que Eddie Redmayne toma conta do recado. De resto, prevalece uma falta de risco que se traduz em competência meio enfadonha.

7/10

domingo, 9 de novembro de 2014

Interstellar (Christopher Nolan, 2014)

Interstellar reforça o estatuto de Christopher Nolan como o realizador que devora mais artigos da Wikipédia. Depois de elucubrações sobre sonhos tão intricadas que exigiram uma personagem, a de Joseph Gordon-Levitt, cujo único propósito era explicar o enredo em Inception (apesar disso, destaca-se pela intensidade das sequências de acção diversificadas e simultâneas), eis que o seu regresso se proporciona por intermédio de um desejo de homenagear o seu filme preferido, 2001: A Space Odyssey, claramente expresso pelas pistas visuais espalhadas com insipidez e algo aleatoriamente, como emparelhar um plano de alguém no leito da morte com outro de alguém à deriva no espaço ou dar personalidade a robôs de configuração monolítica.

Quando se atinge um equilíbrio tão meritório entre dinâmica narrativa e eficiência técnica como aconteceu em The Dark Knight compreende-se que comece a borbulhar um sentimento de audácia. Bandas desenhadas parecem, depois de tanto sucesso, cada vez menos o limite daquilo que se pode explorar com os recursos à disposição e a mente divaga para assuntos do subconsciente ou da ciência que não se ouve falar no cinema, apesar de preocuparem figuras de QI muito elevado, como wormholes, viagens no tempo e a lei de Murphy. Não quero ridicularizar tal desejo, aliás muito louvável, mas se há adágio adequado para Interstellar é o princípio de Peter, segundo o qual um trabalhador só pode ser promovido até ao seu nível de incompetência.

Matthew McConaughey é um ex-piloto e engenheiro agora remetido à agricultura, como grande parte da humanidade, ou assim somos levados a crer. Estamos situados num futuro não muito distante em que a população mundial regista uma curva descendente e os recursos naturais estão em falência. Existe paz, só que exige minimalismo nos modos de vida. Imagens de campos intermináveis de milho e tempestades de areia são entrecortadas por testemunhos com ar documental de idosos sobre os tempos difíceis, que havemos de perceber que pertencem ao futuro, naquela que é a primeira má decisão: isto é pura ficção e bastante pessoal até, por isso ninguém quer saber de humanos anónimos se a história também não quer.

Sucedem-se três quartos de hora do quotidiano, tão normal quanto possível nestas circunstâncias e considerando que a matriarca morreu com cancro, da família de Cooper, que inclui um filho mais velho, uma filha mais nova e o sogro. A química entre o pai e a rapariga é carinhosa; o primeiro prefere educar a segunda para ser audaciosa e não se conformar com o pouco que tem e muito menos a acreditar num sistema de ensino aparentemente tão asséptico e anormal que nega as alunagens dos anos 1960 numa altura em que há tecnologia suficiente para enviar todos os alunos das redondezas ao Mar da Tranquilidade e voltar, se bem que isso não aconteceria devido à contenção de custos generalizada.

Precisamente por essa razão, a NASA passou à clandestinidade, operando agora numa base secreta que, graças a circunstâncias bizarras posteriormente esclarecidas, com toda a certeza devaneadora tornada constante ao longo do filme, os dois descobrem. A iminência do fim do planeta Terra é relatada com grandes ornatos verbais, incluindo o sempre credível sotaque britânico de Michael Caine, e Cooper torna-se imediatamente o homem adequado para pilotar um foguetão que vai ser atirado por um wormhole para procurar o melhor poiso para onde a nossa espécie possa emigrar ou que possa popular com o esperma e os óvulos que vão na bagagem, dizendo-se então adeus aos que restam aqui em baixo na parvónia.

O critério nas três missões anteriores de reconhecimento havia sido a falta de laços emocionais dos astronautas, contudo agora é diferente, apenas porque Nolan tem de meter um drama movido por uma boa dose de culpa pelo meio. Não é comum inserir um suplemento tão caseiro a um espectáculo de ficção-científica da dimensão que Interstellar anuncia; até que ponto isso resulta é discutível. O protagonista é egoísta ao ponto de se julgar indispensável e deixar os seus rebentos órfãos, já que o trabalho é afectado por percepções diferentes da passagem do tempo, explicadas com excertos da teoria da relatividade (a sério, liguem o WiFi e vão consultando a Wikipédia), e a miúda ao ponto de não se despedir do pai.

Murphy envelhece ao longo do filme e exprime unicamente ressentimento por se terem separado desta maneira. Por conseguinte, a partir do momento em que levantamos voo pela primeira vez só o visual e a acção podem despertar interesse. Remetendo para as naves em baile no vazio da obra de Kubrick, o astro oceânico de Solaris e as paisagens gélidas de Oblivion, temos alguns planos razoáveis, encurtados pela necessidade de se recitar outros manuais científicos. Mais uma vez se prova que o realizador é, no máximo, um óptimo tarefeiro, que não tem olho para acompanhar a grandiosidade dos conceitos que o fascinam, não se podendo esperar qualquer virtuosismo vindo detrás da câmara. Dêem-me um Alfonso Cuarón sobre isto, por favor.

Posto isto, é incontornável que há boas decisões entrementes. Já vimos os treinos a que os astronautas são sujeitos até à exaustão, pelo que se agradece que tenham sido cortados, McConaughey é muito carismático e, no fundo, fico contente que alguém tenha tentado fazer um filme sobre a extinção humana que não se resuma a um meteorito se estatelar contra nós. Interstellar é confuso e desequilibrado, ainda que minimamente original. Acho que toda a gente ficaria grata por dedicar o seu dinheiro e trabalho para um projecto global de salvação coordenado pela NASA quando já se conhecem três planetas potencialmente adequados para o futuro, rendendo a clandestinidade da agência à irrelevância, mas tudo bem.

O que vão ler de seguida pode advir de uma tendência para o cinismo ou para o pragmatismo deste crítico cuja opinião escolheram ler. Tive de desistir do filme quando, no meio de tanto malabarismo com conceitos grandiosos de áreas exactas como a física e a matemática, sobe ao palco central… o amor. A filha do professor Brand só quer saber de uma das expedições pioneiras, a de Edmunds, porque o ama, declamando um longo discurso em sua defesa, com um palavreado ranhoso que só confirma a suspeita de Cooper e do espectador mais racional: estas pessoas não têm a mínima noção da importância do que estão a fazer. Qual amor? Murphy não gosta do pai. Ele nem se lembra da esposa. O filho acaba esquecido. Brand não vive a sua paixão.

A ironia suga Interstellar para um buraco negro na argumentação. Como apoiar personagens que comprometem com tanta gravidade o seu propósito? O pior é que a melhor decisão seria precisamente ir primeiro ter com Edmunds, por ter transmitido os melhores dados. Que trapalhada. A viagem acaba com um “obrigado e podes ir para o caralho, que eu sou uma celebridade e quero morrer em paz com a parte da família que não me abandonou”. Tem etapas únicas, sim. O custo é uma seriedade desmedida e imprecisa. Nolan tenta ser Kubrick, quando lhe falta a respectiva objectividade. Tenta ser Tarkovsky, quando não compreende a dimensão do humanismo deste. Mais valia filmar em nome da acção sem compromissos.

4/10