Mostrar mensagens com a etiqueta 1977. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1977. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de julho de 2014

The Devil Probably (Robert Bresson, 1977)

Apresentar Bresson a quem não conhece já é uma tarefa difícil, quanto mais descrever o seu estilo de forma interessante. De facto, passam agora 30 anos desde a estreia do seu último filme, L’Argent, e a divisão que gera nos espectadores continua a ser tão acentuada como era na altura, aliás, como foi desde o início da sua carreira. Se, à partida, um realizador que se notabilizou pelo perfeccionismo austero, uso de atores não profissionais e pela ausência de pistas ou justificações psicológicas para o comportamento das personagens não parece particularmente atrativo, a verdade é que o seu poder de síntese escrutina temáticas como a moralidade, a justiça e a solidão com uma intencionalidade sem paralelo.

Nos filmes de Bresson nenhum plano é liso o suficiente para o intuito ser percepcionado em todo o seu alcance no momento em que o vemos. Se considerarmos que a paciência é um pedido razoável que qualquer artista tem o direito de fazer para desenvolver as suas ideias, e eu acredito que esta é uma capacidade que o cinema ajuda a trabalhar mais do que exige de antemão, com o devido conhecimento de fundo uma experiência que o facilitismo pode rotular de frustrante vai-se tornando progressivamente enriquecedora.

Claro que é preciso estar do outro lado a puxar os cordelinhos alguém competente na tarefa de transportar as suas dúvidas para o público e é extremamente difícil transformar o individual em algo universal. São muitos os que tentam e falham, talvez em igual quantidade aos que são apelidados de pretensiosos. Em abono da verdade, correm esse risco. Mas quando, por correcto alinhamento dos planetas ou outro fenómeno astrológico qualquer, há sintonia intelectual entre o espectador acessível e o realizador esclarecido, o filme resulta. E, melhor ainda, se a resposta é visceral ao ponto de dispensar verborreias como esta, então aí é que o cinema acontece.

Segundo o próprio Bresson, a motivação para fazer The Devil Probably adveio dos desperdícios incentivados pelo consumismo exponencial que as sociedades ocidentais tinham (e têm) tornado regra, onde o “ter” secundarizou o “viver” e massificou a indiferença. O seu pessimismo quanto ao modernismo, cada vez mais evidente à medida que os anos avançaram, encontra o protagonista perfeito no adolescente Charles, nascido e criado num mundo em rápida mudança, de muitas descobertas, mas que oferece poucas respostas. Do início ao fim, ele procura significado para a sua realidade na política, no ambientalismo, na arte, na religião, no sexo e na psiquiatria, nunca perdendo o olhar vazio e sem expressão.

Na superfície, pouco acontece e estranha-se até alguns planos. Em segunda análise, torna-se esmagador o efeito de alienação e raiva reprimida que Bresson desenvolve, como uma elegia a quem continuamente tenta estabelecer uma ligação com o mundo e deixar o estado de isolamento, seja físico (como em A Man Escaped) ou mental, a que parecem condenados. Aqui, a desilusão é total e todas as cenas estão desprovidas do mínimo de esperança, como se fosse inevitável ceder perante a evolução do mundo que rodeia estes jovens. Os dilemas de Charles fazem-no adotar um discurso de rejeição de tudo e mais alguma coisa, mas advêm de uma clareza de visão invulgar ou de um fatalismo circunspecto?

Apenas possível na ressaca do Maio de 1968, The Devil Probably serve-se da primeira geração nascida numa Europa ocidental com a paz que impera até aos dias de hoje para se desdobrar num existencialismo sentido e sagaz, que não vê soluções em revoluções, enriquecido pela pureza da redução do cinema ao básico, pela sua estética fria e subtil, e que, através de uma brevidade característica, revela, para quem estiver disposto a prestar atenção, subtextos provocadores e cheios de ambiguidades. Continuamente aperfeiçoando a precisão do seu trabalho, o realizador responde inequivocamente contra a artificialidade do que chamava de teatro filmado e atinge neste ponto uma linguagem tão abrupta que não deixa ninguém indiferente.

10/10

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Padre Padrone (Paolo Taviani, Vittorio Taviani, 1977)


Apesar de nunca ter residido num meio rural, sempre tive família na aldeia, por isso o contacto com este ambiente não me é completamente estranho, mas não me permito especular sobre o isolamento e o atraso que se pode sentir nessas condições, muito menos em décadas passadas, onde as tecnologias triviais de hoje eram uma miragem. Se ainda me lembro de jantar à luz das velas devido aos constantes apagões em tempos de chuva na década de 80, nem quero imaginar como seria antes.

Por conseguinte, consigo reconhecer a austeridade e o arcaísmo de Padre Padrone e associá-los a essas memórias, mas não deixei de ser surpreendido pela representação do dia-a-dia destes pastores sardenhos, pela dureza das suas vidas e pelas suas técnicas de combate à monotonia. A pobreza de uma família que tira o filho da escola primária para cuidar dos rebanhos, a solidão das incursões prolongadas nas montanhas e a insularidade são realidades palpáveis e implacáveis.

Gavino é o saco de porrada predilecto do pai, que considera uma desonra o filho querer estudar e prefere endurecê-lo e educá-lo na sua profissão, usando métodos como abandoná-lo com as ovelhas à noite ou castigá-lo por ter medo de uma cobra. Ele cresce e, depois de anos neste marasmo, é enviado à força pelo pai para o exército, onde aprende a ler e a escrever em várias línguas e contacta com a música e a electrónica, acabando por decidir rebelar-se contra o seu destino na terra natal e perseguir uma educação superior.

O feitiço vira-se contra o feiticeiro, de tal forma que esta história é enquadrada por entrevistas com o autor do livro no qual Padre Padrone é baseado, ou seja, o verdadeiro Gavino, que acabou por se tornar escritor. Se estes relatos são verídicos ou ficcionados, se resultam de um desejo de partilhar experiências ou de expiar frustrações, não sei, o que é verdade é que os irmãos Taviani não poupam no miserabilismo nem têm qualquer noção de continuidade e o filme torna-se difícil e aborrecido rapidamente.

Para além de uma das cenas mais bizarras de que tenho memória, em que crianças cometem actos variados de bestialismo, a violência doméstica é tão incessante que chega a ser injustificável perante as situações apresentadas, a mãe parece bipolar e o pai podia inspirar alguma indulgência, mas não, é impossível, de tão desumano e alarve que é. Se calhar, de outra forma, Padre Padrone não transmitiria tão bem o quão selvagem a Sardenha parece ser; essa aspereza impressiona, mas as peças não encaixam todas.

5/10