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domingo, 5 de julho de 2015

Coherence (James Ward Byrkit, 2013)

Normalmente associa-se a ficção científica a viagens intergalácticas, fatos de treino futuristas, inovações tecnológicas e, de uma forma geral, efeitos especiais tão pesados que fariam um computador normal engasgar-se todo durante a fase de produção. Contudo, não precisa de ser sempre assim, afinal as maiores descobertas raras vezes extravasam das paredes limítrofes de laboratórios, salas de reuniões, escritórios, bibliotecas, universidades ou centros de pesquisa. Um filme como Coherence, que se desenrola quase na totalidade dentro da mesma casa, talvez esteja mais próximo da essência do género do que se possa assumir à partida.

Quatro casais, oito amigos, reunidos num jantar caseiro e informal, ao mesmo tempo que um cometa passa ao largo da Terra, deixando um rasto luminoso bem visível. Nenhum deles tem conhecimento suficiente para explicar o fenómeno com precisão, muito menos os eventos bizarros que se irão suceder e que podem (ou não) ter alguma ligação com isso. O início parece dum filme indie qualquer sobre amizade e com banda sonora da Vodafone FM, onde as relações entre as personagens são estabelecidas e há potencial para conflitos, trocas e baldrocas, mas quando o grupo vai à rua observar o céu e as luzes de todo o bairro vão abaixo, é certo que o rumo vai mudar bruscamente.

Hugh é advogado, mas tem um irmão cientista com quem prometera manter o contacto nesta noite. Encontra um livro no carro que lhe ia levar sobre física quântica, onde os oito se deparam com algumas teorias sobre a existência de variações duma mesma realidade. Poderão estas, em determinadas circunstâncias, tocar-se? A urgência em obter respostas leva Hugh a dirigir-se à única casa do quarteirão com electricidade. Esta decisão vai acarretar uma série de consequências imprevistas, nomeadamente encontrarem uma caixa com fotografias de todos e um objeto aleatório, receberem cópias de notas escritas por eles e aperceberem-se da existência duma zona negra à volta da casa.

Emily destaca-se pela parcimónia, tentando resolver os problemas que se vão apresentando com cabeça fria, apesar de o namorado Kevin estar prestes a partir para o estrangeiro e ela não saber se pode ou não ir juntamente, e da presença de Laurie, a ex que agora está com outro elemento do grupo, Amir. Emily deverá ser a última a tomar alguma atitude condenável. Se isso acontecer, é melhor nem imaginar o futuro dos outros. Coherence destaca-se pela certeza com que desenvolve uma história tão simples baseada em conceitos da física tão complexos. Com poucos meios e muito improviso, especialmente da parte dos atores, está aqui um filme tenso, inteligente e cativante. Ficção científica reduzida ao essencial.

8/10

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

The Immigrant (James Gray, 2013)

Apesar dos 238 anos de independência dos EUA, há algo a ser dito sobre a população yankee se dividir mais em imigrantes e seus descendentes provenientes dos quatro cantos do mundo e que não esquecem as suas origens do que propriamente se unir em torno de uma identidade nacional singular. Quantas vezes, no cinema e na televisão, somos alertados para o facto de esta ou aquela figura ter cabelo ruivo e sardas porque os trisavós atravessaram o oceano Atlântico de barco a partir da Irlanda, dever o sufixo “ski” do apelido graças aos vários êxodos da Polónia ou ser não só americano, mas afro-americano?

Ellis Island tem, por isso, uma mística própria. Plantada na baía onde se encontram os rios Hudson e East, em frente a Manhattan, a pouca distância da Governors Island, onde se concentraram maioritariamente serviços administrativos e militares ao longo dos tempos, e da Liberty Island, onde se ergue destacada a Estátua da Liberdade, em que este filme começa por se focar logo nos primeiros segundos, por ser um símbolo de boas-vindas para quem vinha da Europa à procura de uma vida melhor, a Estação de Imigração lá construída foi o primeiro local que milhões de pessoas pisaram no país e é hoje um monumento nacional.

Ewa (Marion Cotillard) desembarca em 1921, sem noção de que vai atravessar quase todos os compartimentos da ilha, desde as filas de inspecção ao grande hall, passando pelas celas e o hospital, onde a irmã tuberculosa é imediatamente internada. Tendo como único contacto uns tios que lhe deram uma morada inválida, vá-se lá saber porquê (na realidade, vem-se mesmo a saber, e o motivo não é nada digno), ela vê-se longe de casa, só, abandonada e prestes a ser deportada, quando intervém Bruno (Joaquin Phoenix). O que faz é pouco claro de início. Nada é de borla e Ewa tem todo um historial de pouca sorte…

Extremamente carinhoso, ele vai arranjando pretextos para a manipular e a arrastar para um mundo de clubes eróticos e de prostituição. O estilo que começa por ser a fachada captivante de um fraudulento típico, com várias mulheres debaixo da sua alçada, vai ficando ameaçado pela atracção crescente que tem por Ewa e que gera nele um interessante conflito interior. Não lhe agrada vender o corpo da amada e muito menos mantê-la perto convencendo-a de que a está a ajudar da melhor maneira a pagar o tratamento e a alta hospitalar da irmã, mas como os seus sentimentos não são retribuídos, a situação arrasta-se.

Não tarda a aparecer um terceiro determinado a resolver este impasse. Emil (Jeremy Renner) é um ilusionista primo de Bruno que também se apaixona por Ewa e lhe tenta oferecer um futuro fora de Nova Iorque, talvez na Califórnia, a dois. As relações de família estão tensas há muitos anos e, como sabemos desde Gangs Of New York, a América teve uma infância violenta, pelo que vão rolar cabeças de certeza. The Immigrant não surpreende e acredito que o melhor de James Gray ainda está para vir. Contudo, o trio de protagonistas é de uma classe a toda a prova e a realização clássica dá ao filme um aspecto intemporal.

8/10

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

The Wolf Of Wall Street (Martin Scorsese, 2013)

Falar de The Wolf Of Wall Street sem falar de Goodfellas e Casino é basicamente impossível, pelo que vou começar por aí. Jordan Belfort perfila-se, tal como Henry Hill e Sam Rothstein antes dele, um criminoso sem morais, cuja longa passagem por um mundo onde a corrupção e a ganância espreitam a cada esquina, neste caso a alta finança, nos casos anteriores a máfia e os jogos de azar respectivamente, conhece uma fase ascendente e uma fase descendente, ambas com enorme estrondo.

Nunca um filme de Scorsese foi tão longo, teve uma montagem tão frenética ou incluiu tantos “fucks”. Ninguém diria que um senhor de 70 anos pudesse ainda demonstrar tamanha audácia, e isso só reforça, apesar dos muitos solavancos na vida profissional e pessoal, o estatuto do realizador como um dos maiores iconoclastas do cinema, que sempre conseguiu impor o seu estilo, mesmo quando as polémicas e condicionalismos tentavam sufocar o trabalho.

Hoje, não há dúvidas de que a sua carreira é um tesouro artístico que resume um número infinito de influências, desde os dramas familiares do neorrealismo italiano aos jump-cuts da nouvelle vague francesa, enquanto desenvolve estudos de carácter repletos de atitudes contraditórias, que normalmente secundarizam a história para realçar os próprios dilemas e erros por que as personagens atravessam. Sofrem por serem quem são e tentam convencer-se de que estão certos, mesmo quando recorrem a ilegalidades.

Embora estas constatações não tenham sido a regra nos últimos anos, pois The Departed, Shutter Island e Hugo progridem de forma mais convencional, com mistérios e reviravoltas à mistura, são-no outra vez, sem sombra de dúvida, em The Wolf Of Wall Street. O livro do corrector da bolsa Jordan Belfort sobre as suas experiências em Wall Street originou um argumento à Nicholas Pileggi, o autor, perito em crime organizado, dos clássicos dos anos 90 supramencionados.

Senão vejamos: a acção começa in media res, com anões a serem atirados contra alvos no meio do escritório da Stratton Oakmont, a empresa fraudulenta criada por Belfort, uma das brilhantes ideias ali aplicadas para levantar o moral das suas centenas de trabalhadores viciados em dinheiro, sexo e drogas, numa introdução à imagem e semelhança do passeio de carro com um pobre coitado prestes a ser esfaqueado na mala com que começa Goodfellas.

Logo a seguir, com narração e o derrubar da quarta parede, DiCaprio abre as hostilidades na sua interpretação mais extravagante. Em segundos, vemo-lo snifar cocaína do rabiosque de uma prostituta, declarar o seu património com a maior arrogância possível, guiar um helicóptero todo mamado e… andamos para trás, para o seu primeiro dia a vender acções, onde conhece Mark Hanna (Matthew McConaughey), que o apadrinha e lhe dá conselhos úteis como masturbar-se regularmente e não se preocupar com os clientes.

Não há escrúpulos e estes homens de fato e gravata caríssimos são do mais escroque imaginável. Aliás, estes são talvez os maiores criminosos que Scorsese alguma vez levou ao cinema, já que pelo menos na máfia há uma dinâmica de família que se deve respeitar e que regula o raio de actividade de cada um. Em The Wolf Of Wall Street não há barreiras e o mais preocupante é o poder que têm sobre os destinos da economia, não só americana mas também mundial. Estivemos (estamos?) entregues a dementes.

Tanta ostentação chega a ser opressiva. Este excesso conflui em comédia frequentemente e não dá para conter as gargalhadas quando Belfort júnior e o pai discutem as inovações na depilação feminina, entre outras situações, só que também cansa ver tanto desperdício e tanta falta de ética durante três horas. Não consegui sacudir este sentimento, que me impede de colocar The Wolf Of Wall Street no mesmo nível de Goodfellas ou Casino. Independentemente, a técnica e o show de DiCaprio merecem ser canonizados.

8/10

domingo, 21 de dezembro de 2014

Rush (Ron Howard, 2013)

Depois do frente-a-frente reconstituído em Frost/Nixon das célebres entrevistas do jornalista ao antigo presidente conduzidas em 1977, um dos mais marcantes confrontos de mentes da história da televisão, Ron Howard parece, pela primeira vez na sua carreira, transportar alguns aspetos de um filme seu para o seguinte, ao continuar na mesma década e parando noutra rivalidade pública, desta vez no desporto: o domínio bipartido automobilístico de James Hunt e Niki Lauda na Fórmula 1. O que faz de Rush ainda melhor é a constatação de que nos maiores feudos são normalmente as inúmeras ligações, à partida inevidentes, entre as partes que os torna férreos e épicos.

Enquanto jovens, sem o apoio das respectivas famílias e com uma enorme vontade de mostrar ao mundo aquilo de que eram capazes, estão inscritos na Fórmula 3, uma liga que dá alguma visibilidade, mas parece 30 anos atrasada a nível organizacional e de meios disponíveis em relação aos Grand Prix de topo. Já nessa altura, Hunt chama sempre para si a atenção e o risco, enquanto Lauda se mantém reservado e calculista, na pista e fora dela. Para um, o talento é uma bênção que deve ser celebrada com sexo e álcool sempre que possível, enquanto para o outro tem de ser trabalhado diariamente, mesmo que isso signifique abdicar de certos luxos, como a própria felicidade.

Não é só de montagens frenéticas e corridas a 300 km/h de que Rush vive, antes pelo contrário, Howard consegue sempre equilibrar isso com óbvia compreensão de como as vidas pessoais e as inseguranças de cada um influenciam até os estilos de condução que os caracterizaram. A impetuosidade do britânico é responsável pelas mais mirabolantes ultrapassagens da época, mas também por divórcios pouco amistosos, declarações polémicas e uma ansiedade constante, que procura acalmar com excessos variados. Em Nova Iorque despede-se da mulher num restaurante, sai sozinho para a gozar perante os paparazzi e entra num táxi cabisbaixo, talvez arrependido, no mínimo consciente da sua solidão.

Longe dali, o austríaco prepara os carros com os mecânicos, ofende muita gente com uma honestidade sem tacto e questiona-se sobre o seu futuro por sentir que tem finalmente algo a perder ao casar-se, depois de anos a ser lembrado da sua aparência menos atrativa e a isolar-se por opção. Assim chegamos a Nürburgring (Alemanha) em Agosto de 1976, “The Green Hell” ou o percurso mais antiquado e perigoso do campeonato. Lauda insiste para que a prova seja boicotada pelos pilotos devido às más condições atmosféricas, mas, como era o líder da classificação, ninguém lhe dá ouvidos. Um acidente logo no início transforma o seu carro numa bola de fogo e é levado para o hospital com queimaduras gravíssimas.

Vê-lo a ser entubado num processo de limpeza de pulmões enquanto olha para a televisão, onde Hunt vai ganhando pontos todos os fins-de-semana aproveitando-se da ausência do maior rival, é perturbador. Mas dá-lhe motivação. Na realização, montagem, fotografia e actuações exploram-se a claustrofobia do carro, a adrenalina da velocidade, a dor da recuperação, o espírito de competição, mas, acima de tudo, o laço único de respeito e admiração que se cria entre estes dois homens, com perspectivas tão díspares, que fazem de tudo para se baterem por saberem que são os melhores naquilo que fazem. É a beleza do desporto numa história real que, mais tarde ou mais cedo, tinha de dar em filme.

9/10

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Only God Forgives (Nicolas Winding Refn, 2013)

O público e os críticos não souberam muito bem como receber Only God Forgives quando saiu. Os sinais são, efectivamente, confusos; se, por um lado, Ryan Gosling dá a cara por mais um filme de Nicolas Winding Refn, logo a seguir ao sucesso de Drive, que tinha um fio condutor bastante bem definido e apresentava convenções dos filmes de acção, como os interesses amorosos da treta (o amor é tão mais lindo quanto mais difícil for consumá-lo) ou os acidentes de carro exagerados pela indústria cinematográfica (há apenas um, que é criado mesmo para uma cena dum filme), de uma maneira lúdica e estilizada por um olhar europeu mais clínico, por outro lado aqui temos Gosling (Julian) a delirar com amputações, com a mesma gravidade que os sonhos de Max Payne tinham no videojogo com esse nome, e a única relação da personagem principal remotamente possível é criada artificialmente (não há sentimento, ele apenas paga a uma prostituta que vê com frequência para apresentar à mãe como namorada) para ser destruída logo de seguida, com a facilidade de uns berros e ameaças. Only God Forgives retém o desejo de brincar com géneros, tendo-o descrito o próprio realizador como um western no extremo oriente e com um anti-herói moderno, mas também está presente a herança do noir, no esquema polícia-e-ladrão, nos combates underground e nos biscates da máfia. Por agregar uma maior quantidade de elementos numa estrutura narrativa mais dispersa, o filme agarra menos que Drive, é mais frio, mais soturno, mais distante, mais violento, merecendo assim comparações com Valhalla Rising em igual medida às feitas com Drive. De um ponto de vista estilístico, temos aqui uma obra-prima; Refn aposta nos néons e nas lâmpadas coloridas dos clubes de strip para atingir um visual desconcertante, adequado à seriedade demente do tenente Chang, que inicia uma cruzada contra a família criminosa de Julian. Julga-se o salvador de uma cidade de pecado e deixa um rasto de sangue atrás de si. O motivo que inicia tamanha carnificina é algo aleatório e já vimos esta premissa centenas de vezes. Gosling está mais letárgico que enigmático, e não é possível assumir protagonismo quando aparece Kristen Scott Thomas como a matriarca white trash, sem escrúpulos ou papas na língua. Mas Only God Forgives vale, acima de tudo, pelo ambiente. É de cortar à faca. Ou à espada.

7/10

segunda-feira, 31 de março de 2014

World War Z (Marc Forster, 2013)

Brad Pitt num filme de zombies de larga escala? Isso parece-me muito bem! Quando o trailer de World War Z saiu então a minha expectativa subiu mais uns degraus, graças às imagens de montanhas de mortos-vivos a moverem-se rapidamente sobre comboios e a empilharem-se uns por cima dos outros aos milhares para ultrapassarem os enormes muros de separação que existem um pouco por todo o território israelita. Efectivamente, é o seu ponto mais forte: a forma como consegue transmitir a sensação de uma epidemia a espalhar-se por todo o mundo, a contaminar o maior número de pessoas imaginário e a ser a génese da destruição de cidades inteiras e da civilização como a conhecemos não tem paralelo no género, porque também é raro haver tanto dinheiro envolvido. Os efeitos especiais desta dimensão podem ser caros e ainda bem que o nome de um dos actores mais conhecidos e influentes da actualidade foi anexado ao argumento para o projecto conseguir ganhar a projecção que merecia durante a produção. No papel de Gerry Lane, funcionário das Nações Unidas, Pitt circunda o globo à procura de respostas, quase sempre escapando com vida por uma unha negra. Pelo caminho, vemos Filadélfia invadida, passamos pelo possível ponto de origem na Coreia do Sul, em Israel percebemos que nada é 100% eficaz e num País de Gales estranhamente imune descobre-se uma solução.

Isto é tudo muito bonito, porém, os relatos que davam conta de desentendimentos à volta de World War Z tornam-se fáceis de adivinhar aquando do visionamento do mesmo, especialmente ao nível da história, que deu água pelas barbas a todos os envolvidos e ficou, na versão final, uma algaraviada com mais buracos que uma estrada nacional na Beira Baixa. Logo no início é curioso que a família Lane esteja a tomar o pequeno-almoço pacificamente enquanto na televisão se vêm reportagens de indícios de uma epidemia de raiva um pouco em todos os continentes, apesar de nenhuma menção ser feita à cidade onde moram. Cena seguinte: estamos dentro da carrinha Volvo a que toda a classe média americana aspira, no meio do trânsito, e milhares de zombies aparecem do nada. Não é um bocado súbito demais? Outra: Gerry freta um avião de passageiros em Jerusalém, claramente descolando antes dos mortos-vivos lhe chegarem, mas, a meio do voo, um é descoberto num armário frágil. Isto quando anteriormente vemos provas das suas forças redobradas e de serem motivados pelo barulho. Ouvi dizer que um avião faz algum… Já para não falar do ridículo discurso de fecho, que nem cinco argumentistas conseguiram tornar menos ranhoso. O próprio Brad Pitt terá cortado relações com Marc Forster, o que, só por isto, já não surpreende. Em suma, visualmente o filme é espectacular e a intensidade mantém-se, é pena é tantos erros na adaptação do livro.

5/10

sábado, 22 de março de 2014

American Hustle (David O. Russell, 2013)

American Hustle tem sido descrito como um filme de Scorsese com pouco açúcar e calorias, uma versão light de clássicos como Goodfellas e Casino; em certa medida, não dá para discordar. Dois vigaristas vêem-se a contas com a polícia, numa malha de intenções e esquemas onde todos tentar ser mais espertos que todos, qual deles o mais extravagante e idiossincrático, com muito ritmo nos diálogos e na montagem e estando os anos 70 em pano de fundo. Logo a abrir temos até a voz-off característica (apesar de cair em desuso ao longo das duas horas de duração) que apresenta Irving e Sydney, para nos dar um resumo das suas expectativas e do que têm feito até determinado ponto. Ele é gordo e criativo a nível capilar, realçando-se a verdadeiramente impressionante transformação física de Christian Bale, ela foi stripper e tenta adaptar-se às circunstâncias, não renunciando ao crime, e Amy Adams sai-se sempre bem a fazer de ranhosa destemida que exerce influência sobre a sua cara-metade, viu-se em The Fighter e The Master. Apaixonam-se.

As homenagens chegam ao ponto de algumas cenas parecem vir de um copy/paste qualquer. Louis CK lembrará fisicamente, para os mais atentos, Chuck Low, que interpretou o vendedor de perucas comicamente estrangulado com o fio dum telefone por não querer pagar a protecção da máfia em Goodfellas. Surpresa: aqui, o ruivo com excesso de peso leva com um na testa. Isto para nem falar na presença de Robert De Niro. Sim, a escolha entende-se pela lógica de David O. Russell ter transferido colaboradores dos seus filmes anteriores para o presente, mas este caso em particular parece também ser uma tentativa de dar credibilidade à sua incursão por um género que até agora lhe era estranho. Em Casino estávamos no meio do crescimento de Las Vegas, em American Hustle somos envolvidos na fundação de Atlantic City como hoje existe, ou seja, num antro de jogo na costa este americana.

Russell foca-se quase exclusivamente nos actores: para além do casal protagonista, aparece Bradley Cooper, o polícia Richie DiMaso, que tenta dar passos maiores do que as pernas, Jennifer Lawrence, a esposa-troféu de Irving, uma loira platinada desmiolada que traz soluções e problemas em igual medida, e Jeremy Renner, o mayor que até é honesto e se preocupa com os cidadãos, porém acaba por ser arrastado para negócios ilegais. Os adereços abundam, na onda das emulações, e talvez afoguem o argumento, mas seria injusto dizer que não está aqui um conjunto de personagens que ganham uma força incrível graças a estes nomes. Cada um vive o seu papel com credibilidade e liberdade, para além da caracterização está o talento e a confiança no realizador que permitem passar a ideia de que tudo é improviso e que permitem cenas como o karaoke de Rosalyn enquanto limpa a casa ou as palmadas de Bale no rabiosque de Adams.

Dá um gozo tremendo decifrar os subterfúgios, as hesitações, as excitações, as palermices resultantes das suas interacções; no fim fica-se com dificuldade em entender aqueles vídeos dos bastidores acrimoniosos de I Heart Huckabees que corriam no Youtube ou como é que alguém como Russell irritou, em tempos idos, George Clooney de tal forma que este o esmurrou no set de Three Kings. O próprio encara esta fase da carreira como uma segunda oportunidade, e essa realidade tem estado presente desde The Fighter. Em American Hustle, quando Richie prende Irving e Sydney, oferece-lhes uma, ajudá-lo a compreender os métodos de fraude usados na altura para capturar corruptos, ganhando como troca uma redução nas penas ou mesmo absolvição, contudo isso é apenas o início. A relação do casal é a base da história e começa a ser testada a partir daí; quando fazem as pazes e tentam limpar a porcaria que fizeram o filme reencontra a adrenalina que se esvai em alguns momentos intermédios e conduz a conclusões satisfatórias.

7/10

quinta-feira, 13 de março de 2014

12 Years A Slave (Steve McQueen, 2013)

Enquanto Edwin Epps (Michael Fassbender) chicoteia violentamente Patsy (Lupita Nyong’o), nua e presa a um poste, já depois de ter coagido Platt (Chiwetel Ejiofor) a abrir as hostilidades, num espectáculo degradante de intimidação, e com os incentivos sádicos da Sra. Epps (Sarah Paulson) de fundo, ouve-se dizer “mais cedo ou mais tarde, algures no curso da justiça eterna, vocês vão responder por este pecado.” Cinematicamente falando parece que esse momento chegou, tendo em consideração a quantidade de filmes que saíram nos últimos tempos e que abordam o assunto da escravatura na América.

O mais interessante é que, para pegar nos exemplos mediáticos, tanto Lincoln, como Django Unchained e agora este 12 Years A Slave são produtos de enorme qualidade e extremamente diferenciados: Spielberg preferiu evitar polémicas e realçar o papel de brancos, e do 16º Presidente em concreto, no sentido da abolição, num modo livro de História, Tarantino ousou repetir à exaustão a palavra “nigger” e efabular, com o seu típico humor negro, e McQueen eleva a gravidade de certas contradições humanas de um passado real e violento ao mesmo nível de impacto e secura que em Hunger, sendo, de longe, o menos acessível.

Felizmente, o realizador inglês tem tido a sorte de recolher mais prémios do que os colegas, mas já se sabe como isso é relativo; a verdade é que a sua visão do sul dos EUA no período pré-Guerra Civil é a mais cruel e vívida de todas, pela intenção de constringir as personagens e o espectador à realidade da vida dos escravos. Na primeira plantação para onde vai parar, Platt ainda tem alguma liberdade, apesar de quase ser enforcado por um capataz que, digamos assim, não simpatizou consigo. Rotulado de difícil, é despachado para a propriedade de Epps, e aí parecemos chegar ao último círculo do Inferno de Dante.

Os doze anos representam mesmo um caminho descendente, já que Platt, aliás, Solomon Northup, principia por ser um homem livre, que é vilmente raptado através de uma promessa de trabalho. Para voltar a viver aprende a sobreviver, sem cair em desespero, sempre com a esperança de um dia rever a família e voltar a Saratoga, no norte. Destituído da sua identidade, forçado a esconder a sua literacia, a maior lição vem quando, apesar de toda as traições e provações sofridas, volta a depositar confiança num homem branco, Bass (Brad Pitt). Ao manter o coração aberto, encontra uma saída.

Por ser separado da urbanidade e educação que conhecia, ficamos à espera que lhe seja possível regressar, e, assim, a história de Solomon tem um objetivo. Por outro lado, Patsy e as centenas de escravos como ela que vemos ao longo do filme não conhecem outra realidade, é como se a submissão estivesse entrelaçada no seu ADN, e isso é igualmente chocante. Veja-se como, ainda na casa de Ford (Benedict Cumberbatch), quando Solomon fica a pender de uma árvore, com uma corda ao pescoço, apoiado nas pontas dos pés, durante muito tempo, os restantes continuam com as suas tarefas…

Tal qual na alegoria da caverna de Platão, nasceram num beco sem saída e não concebem um mundo diferente. Na única ocasião em que algum esboça um desejo, no caso Patsy, é severamente punido. Por um sabão, que era o que ela queria, era lavar-se como uma pessoa. Nyong’o e Fassbender são incríveis juntos, fazendo lembrar uma ampliação da relação distorcida entre Amon Goeth e Helen Hirsch na Schindler’s List, cheia de sentimento de culpa masculino, acentuado por ambos acreditarem ser de uma raça superior e estarem a rebaixar-se ao se apaixonarem por uma preta ou uma judia.

Ao filmar apenas com uma câmara, McQueen rejeita a manipulação temporal dos momentos-chave, tornando as suas implicações mais perceptíveis à medida que a acção se desenrola, ou seja, o realismo é uma preocupação. Frequentemente, essas cenas são alternadas com simples caminhadas ou close-ups prolongados, forçando-nos a pensar no que acabámos de ver e a considerar as possibilidades de desenvolvimento futuro. Esta arte da ponderação é rara no cinema actual, e, mais não fosse, o sucesso de 12 Years A Slave prova que é intemporal. Excelência a todos os níveis e a toda a prova.

9/10

sábado, 22 de fevereiro de 2014

The Bling Ring (Sofia Coppola, 2013)

À cabeça, um aviso: para quem já se aborreceu com os anteriores da Sofia Coppola é impossível aturar este filme. Não digo que seja mais vagaroso que Lost In Translation ou mais derivante que Marie Antoinette, mas o estilo é o mesmo, liderado por raparigas dengosas, composto por visuais poéticos e banda sonora pop ocasionalmente invasiva e preocupado com o voyeurismo e a exposição social. Pode ser impossível de aturar… ou completamente hipnotizante.

De facto, esta história verídica de um grupo de raparigas do secundário que, fascinadas com o culto das celebridades (moda que infelizmente está a ser exportada dos EUA para todo o mundo, promovendo-se gente que tem fama de ser famosa e zero de talento ou QI), encetam uma série de arrombamentos e roubos às casas de Paris Hilton, Orlando Bloom, entre outros, é uma bela tela da experiência da adolescência, focada em comportamentos muito específicos da sociedade actual.

Aproximado a The Virgin Suicides pelas próprias idiossincrasias da realizadora e simultaneamente separado por um tom tão crítico quanto compreensivo, The Bling Ring é, assim, o seu trabalho mais maduro – vai além de uma certa fantasia da juventude, conserva alguma frieza, não se deixa levar pela melancolia e assume ter consciência de que a puberdade acarreta inevitavelmente erros e más decisões, mas não é desculpa para a criminalidade.

Muito menos quando é protagonizada por pitas sem nada na cabeça. Por falar nisso, grandes interpretações da Katie Chang e da Emma Watson. É fácil desvalorizar o esforço das actrizes porque os papéis requerem alguma indolência aparente e beleza física, mas a verdade é que, conscientemente, replicam a inconsciência da superficialidade (Watson com excelentes laivos cómicos) que Coppola identifica num grupo materialista e manipulador, alheio a conceitos como privacidade e retórica.

Não vivem sem a validação da diversão imediata e do contacto permanente possibilitado pelas novas tecnologias, por outro lado parecendo incapazes de estabelecer relações com significado. Todos tentam ser iguais uns aos outros, querem as mesmas roupas, tablets e jóias, preferencialmente sem terem de se esforçar para os merecerem. Quanto aos pais, não transmitem valores de família ou de compromisso e educam os filhos segundo O Segredo, libertando-os apenas à noite…

A perfeição atinge-se com o longo plano do assalto à casa de Audrina Patridge (quem? não faço a mínima), filmado de muito longe. Sim, é o filme mais distante da Sofia Coppola. Aliás, pela primeira vez, ela parece não se identificar com as personagens, não há a aura de crise existencial de Lost In Translation ou Somewhere. Marie Antoinette era confusa porque estava presa ao palácio. Este gangue procura a vacuidade e essa inversão de papéis torna The Bling Ring singular.

8/10

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

The Hobbit: The Desolation Of Smaug (Peter Jackson, 2013)

Que três livros resultem em três filmes, é compreensível. Agora, um livro dar três filmes, isso já pode causar alguma impressão. Especialmente numa altura em que Hollywood se inunda ano após ano com remakes, sequelas e prequelas da treta e tenta espremer ao máximo o sumo de tudo o que parece minimamente rentável no imediato, o receio de que Peter Jackson poderia ter aderido ao capitalismo cego, dez anos depois de Lord Of The Rings, e manchasse o currículo ao decidir voltar áquilo que o havia elevado aos píncaros e reservado um lugar na memória da sétima arte era realista. Fui ver o primeiro tomo desta nova aventura reticente e saí da sala com sentimentos contraditórios: se por um lado, em An Unexpected Journey, fica evidente que o realizador não perdeu o toque de Midas no que diz respeito a criar cenários e sequências de ação que fazem cair o queixo (aquela fuga dos goblins, wow), o argumento arrastava-se para apresentar tudo e todos com detalhe aparentemente desnecessário e nunca atalhar a viagem, antes pelo contrário. Confesso que sentira o mesmo com The Fellowship Of The Ring, até os outros episódios lhe darem mais sentido, por isso aguardava por The Desolation Of Smaug com expectativa.

Efectivamente, este agradou-me muito mais. O enredo adensa-se à medida que o grupo composto por Gandalf (aqui ainda cinzento), Bilbo Baggins (corajoso e perspicaz), Thorin e os restantes anões se aproximam de Erebor, a montanha solitária, para reconquistar o território que lhes foi roubado pelo dragão Smaug anos antes. As ligações ao que acontece em Lord Of The Rings surgem em maior quantidade, afinal apenas 60 anos separam essa trilogia de The Hobbit. Ficamos, por exemplo, a saber que Gimli é filho de Glóin, reencontramos Legolas e explora-se, numa das cenas mais negras de The Desolation Of Smaug, a origem obscura dos Nazgul, cujas campas Gandalf descobre estarem vazias. Forças malignas reúnem-se em Dol Guldur, lideradas por um necromante misterioso.

A nível de fotografia, é talvez o trabalho mais complexo e variado de todos os episódios Jackson/Tolkien. Desde as imagens da cidade do lago ao verde fluorescente de Mirkwood, visualmente é impossível não ficar satisfeito. A introdução de Tauriel é positiva (claro que, para pôr isto em perspectiva, eu via 50 horas seguidas só de close-ups da Evangeline Lilly): inexistente nos livros, a elfo traz frescura e um capítulo sobre como o amor inter-espécies pode ser possível. Se a interacção de Bilbo com Gollum era o ponto alto do primeiro, o contacto agora com Smaug não fica nada atrás, é intenso e acaba num cliffhanger antes dos créditos finais. O dragão tem uma personalidade sibilina e é imponente pelo tamanho, aspecto, vontade de matar e pelas previsões que executa.

O que de mais importante Peter Jackson tem conseguido com a adaptação do mundo literário de Tolkien é recuperar a magia do cinema, que, ironicamente, parece esvanecer-se à medida que a tecnologia permite criar imagens e sons cada vez mais espectaculares nos blockbusters modernos, ultrapassando todos os limites do possível. Não que Lord Of The Rings e The Hobbit não dependam desses avanços recentes, como é óbvio, mas o que os separa de tudo o que se tem visto no cinema comercial deste século, para além da inigualável imaginação do seu criador primordial, da singularidade das personagens e da solidez das histórias que tinha para contar e que se cruzam invariavelmente, é o puro entusiasmo que o realizador neozelandês tem pelo que está a fazer. Pelo meio de tantas paisagens de cortar a respiração, dos melhores efeitos especiais, de horas e horas de momentos épicos, pressentimos o sonho de um rapaz a tornar-se realidade, um leitor juvenil a folhear páginas avidamente, a planear durante anos a logística necessária para um dia as conseguir filmar, mostrar ao mundo quão longe a sua imaginação viajou, fazer justiça à(s) obra(s) que o tocaram irreversivelmente, e... a conseguir.

8/10

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Behind The Candelabra (Steven Soderbergh, 2013)

Não se pode dizer que a consistência seja uma preocupação para Steven Soderbergh; na realidade, se há alguém em Hollywood que se assume como um autor que prima pela variedade e produtividade é ele, que muda de registo e estilo com uma facilidade impressionante, mesmo que nem sempre com a mesma taxa de sucesso. Ainda assim, se há tema que se pode reencontrar frequentemente na sua filmografia é a sexualidade, não só a forma como a sociedade em geral e certos meios em particular a encaram, rejeitam ou exploram, mas também a forma como as próprias personagens lidam com as suas preferências, actos e escolhas no que a isso diz respeito.

Parte do sucesso de Sex, Lies And Videotape deveu-se à sofisticação com que contrapunha a traição consumada com a verbalizada, pondo duas questões contraditórias, qual delas a pior e qual delas a mais erótica e estimulante? Com The Girlfriend Experience e Magic Mike, vinte anos depois, a realidade é menos restritiva e restam pouco tabus, só que o preço pode ter sido a queda dos compromissos numa relação, secundarizando-se o amor em prol da pura satisfação dos desejos carnais. Comparando com estes exemplos, Behind The Candelabra é mais convencional – a intimidade não é reprimida, os sentimentos são profundos, não descartáveis e o espectáculo é subtilmente revelador, não impudente.

Liberace e Scott Thorson podiam ser um casal tão comum como qualquer outro, não fosse o primeiro o pianista mais famoso de uma América ainda pouco preparada para lidar com a sua homossexualidade, por muito evidente que fosse, e, mais importante para o filme, um homem extremamente inseguro, obcecado com a juventude que lhe foge à medida que as décadas avançam, marcado negativamente pelo poder controlador materno (ainda que a extensão seja pouco clara, são vários os detalhes que apontam para tal, como a referência a liberdade feita por Liberace perante a morte da mãe), incontrolavelmente promíscuo, cheio de amor para dar e medo de o dar a quem não o merece.

A complexidade dos seus números em Las Vegas está a par com a da sua vida privada. Pelas suas contradições e pela exposição que o papel exige, é impossível não admirar o que Michael Douglas faz aqui. Liberace é assumidamente extravagante, mas, em palco com o mais brilhante dos pianos ou em casa rodeado pelos mais luxuosos móveis, a fazer a mais honesta declaração de confiança ou a relembrar nervosamente quem traz o dinheiro para casa, nunca deixa de ser um homem sensível, quer dizer, mesmo nos seus momentos mais irracionais e imprevisíveis, Douglas inspira a compaixão que alguém tão naturalmente altruísta, no fundo, exige.

Matt Damon tem uma particular habilidade para trapaceiros e aproveitadores. Não é que Scott o faça com intenção, mas a verdade é que, confortável sendo o amante-filho-confidente-empregado de uma celebridade, deixa de olhar com ponderação para o seu presente e futuro. O sonho de ser veterinário, por exemplo, esvai-se rapidamente e nunca mais é mencionado. Claro que numa relação tão intensa, mantida às escondidas com muito esforço durante seis anos, onde os dois lados levam vidas tão diferentes, há imensos desequilíbrios, ambos cometem erros, tentando preencher os vazios que carregam desde a infância, e é agridoce constatar que o amor, que existe e é abundante, não é suficiente para a manter.

O argumento foca-se em expor as imperfeições e fragilidades de cada, o que simultaneamente realça os sentimentos que os unem, deixando a Soderbergh a tarefa de colorir um dos mais vívidos retratos de uma história em conjunto dos últimos anos. O mundo exterior passa a ser um rumor. A fotografia é tão “kitsch palacial” quanto o estilo cultivado e assim denominado por Liberace, o ouro dos anéis e do cabelo de Scott em constante destaque. Isto até se chegar a 1986 e a sentença de morte da SIDA ser o motivo de um último, cinzento e devastador encontro, uma das cenas do ano. Morre também uma certa ingenuidade irrepetível das revoluções dos anos 70.

8/10