sábado, 21 de setembro de 2013

CITAÇÕES: La Notte (Michelangelo Antonioni, 1961)

Lidia (Jeanne Moreau): "When I awoke this morning, you were still asleep. As I awoke I heard your gentle breathing. I saw your closed eyes beneath wisps of stray hair and I was deeply moved. I wanted to cry out, to wake you, but you slept so deeply, so soundly. In the half light, your skin glowed with life so warm and sweet. I wanted to kiss it, but I was afraid to wake you. I was afraid of you awake in my arms again. Instead, I wanted something no one could take from me, mine alone…this eternal image of you. Beyond your face I saw a pure, beautiful vision showing us, in the perspective of my whole life…all the years to come, even all the years past. That was the most miraculous thing: to feel for the first time that you had always been mine, that this night would go on forever, united with your warmth, your thought, your will. At that moment I realized how much I loved you, Lidia. I wept with the intensity of the emotion, for I felt that this must never end, we would remain like this forever, not only close, but belonging to each other in a way that nothing would ever destroy, except the apathy of habit, the only threat. Then, you woke, and, smiling, you put your arms around me, kissed me, and I felt there was nothing to fear. We would always be as we were at that moment, bound by stronger ties than time and habit."
Giovanni (Marcello Mastroianni): Who wrote that?
Lidia: You did...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Andrei Rublev (Andrei Tarkovsky, 1966)


Voltar a Tarkovsky é como lembrar-me de respirar - aquela percepção majorada de uma constante essencial, que normalmente se toma como garantida. Rever Andrei Rublev é encontrar uma bolsa de oxigénio no fundo de um oceano e continuar a viver, renovado pelo génio e o mistério.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Xingu (Cao Hamburger, 2012)

A criação do Parque Nacional do Xingu, no estado de Mato Grosso, foi precursora na defesa dos índios da América do Sul. Ao longo da sua vida, os três irmãos Villas-Bôas encabeçaram uma mudança de mentalidades no sentido de responsabilizar o estado pela criação e manutenção de condições que permitissem às populações nativas do Brasil evoluírem ao seu próprio ritmo, no fundo viverem como se o país nunca tivesse sido colonizado, preservando assim a essência do mesmo, para além da fauna e flora única das regiões.

Ao ingressarem na expedição Roncador-Xingu, cujo objectivo era fazer um reconhecimento das zonas a branco nos mapas da altura, Cláudio e Leonardo rapidamente entram em contacto amigável com tribos locais, levam algumas a voar de avião, estabelecem postos e inadvertidamente espalham o vírus da gripe, à altura desconhecido por ali. Consequências do progresso. Isso, juntamente com os relatos na primeira pessoa de escravização e assassinato de índios empregados como seringueiros por brancos, parece tornar óbvia a necessidade de segregar estes dois mundos.

Com a ajuda de Orlando, o mais velho, que oferece competência nas questões burocráticas e na disseminação de informação através da imprensa, a ideia da reserva vai ganhando forma, tornando-se realidade com relativa facilidade em 1958, dado o aval do presidente Jânio Quadros, apesar de alguma resistência inicial do governo e do exército. Contudo, o período mais conturbado desta história ainda estaria para vir: o golpe de estado de 1964 traz políticas agrícolas e estradas que ameaçam a sobrevivência do parque, Leonardo engravida uma índia e Cláudio torna-se instável.

Falta a Xingu alguma força na primeira hora, a evolução de uma busca por aventura para a descoberta de uma causa não é totalmente convincente, o argumento ameaça dar, com algumas cenas curtas em São Paulo, contexto político, mas acaba por o fazer de forma muito superficial e o isolamento progressivo de Cláudio é explorado apressadamente, faltando sempre, por uma razão ou outra, carga dramática que eleve o filme a outro patamar. A beleza da Amazónia é inegável, ainda que Cao Hamburger não seja propriamente Roland Joffé. Acima de tudo, fica a visão e a mensagem de tolerância dos irmãos.

6/10

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

TRAILERS: Kill Your Darlings (John Krokidas, 2013)

Entre Kill Your Darlings e Horns, Daniel Radcliffe deve ter um ano em grande, longe de Harry Potter de uma vez por todas. Entre os dois filmes com o jovem talento britânico que vão sair este ano, preferi destacar este, dado o meu fascínio pela cultura beatnik, tão marcada por Kerouac, Burroughs e Ginsberg, cujo primeiro encontro este filme explora. Radcliffe interpreta o último, como se percebe pelos óculos característicos. Destaque também para as presenças de Michael C. Hall, a minha querida Elizabeth Olsen e Ben Foster.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

The Mission (Roland Joffé, 1986)

Um dos poucos filmes de Hollywood relacionados com a história portuguesa, The Mission não pinta um retrato muito abonatório de nenhum dos impérios ibéricos. Compilando episódios que ocorreram no interior da América do Sul durante os séculos XVII e XVIII, durante a cristianização dos povos indígenas da região, gerida por estabelecimentos jesuítas, o argumento do experiente Robert Bolt (Lawrence Of Arabia, A Man For All Seasons) consegue abordar os métodos de aproximação usados pela ordem, os agentes económicos que se tentavam aproveitar disso, os jogos políticos em que a igreja católica participava quando ainda tinham poder para isso e a obsessão de Portugal e Espanha com o comércio.

O que vemos acontecer é que, segundo o Tratado de Madrid (1750), as fronteiras do Brasil foram alargadas e muitas missões foram transferidas para a posse dos primeiros, que na altura, pelos vistos ao contrário dos segundos, ainda autorizavam a escravatura, o que significaria o fim definitivo do trabalho de interacção pacífica que os religiosos estavam a desenvolver. Não querendo explorar a veracidade histórica da cronologia e dos imbróglios que o filme vai apresentando, pois não tenho conhecimento suficiente, devo dizer que é interessante a forma com que as tribos locais aceitam a presença de padres como Gabriel (Jeremy Irons) e reconhecem valor nas suas crenças e ideias ao ponto de reconstruírem a sua sociedade.

Infelizmente, o Vaticano coloca os seus interesses acima da devoção dos seus fiéis e não se opõe à invasão dos esclavagistas, sendo um dos pretextos a ameaça do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do país, o que viria mesmo a acontecer, tornando o abandono das missões o cúmulo do desperdício, depois de tanto esforço. Os índios sentem-se enganados e é irónico como acabam por respeitar a essência do catolicismo mais do que a instituição que a representa e estão dispostos a lutar por a proteger. Este é o contexto e os padres (cuja bondade e espírito de sacrifício os seus superiores traíram) são meros peões, a quem estão gratos por tudo, incluindo a ajuda para tentar, no fim, evitar o inevitável.

Há planos de uma beleza de cortar a respiração nas florestas do Brasil e não só; então quando estão acoplados ao tema principal de Ennio Morricone, o filme justifica a fama de ser um dos mais grandiosos épicos de sempre. Logo no início, os Guarani crucificam um padre que não deve ter causado uma boa primeira impressão e mandam-no pelas cataratas do Iguaçu abaixo. Uma imagem fortíssima e que faz adivinhar o declínio de princípios da igreja. Esse mesmo cenário é usado várias vezes, incluindo na única cena que merecia ser reescrita – será que ninguém se lembra de travar o exército destruidor que se aproxima quando este tenta chegar à missão escalando as cataratas? Umas pedras já fariam estragos…

Fora isso, Roland Joffé mostra mais segurança aqui e na sua estreia, The Killing Fields (1984), do que em tudo o que fez desde então. Os desastres financeiros que foram Super Mario Bros. (que apenas produziu) e The Scarlett Letter mandaram-no abaixo e nunca mais voltou à ribalta, o que é um desperdício de talento. The Mission equilibra perfeitamente o esplendor visual e os grandes temas com as magistrais interpretações de Irons e Robert De Niro, o inglês com uma calma e uma dignidade a toda a prova e o americano como um herói improvável com inexpugnáveis sentimentos de culpa, que encontra razões para viver graças a Gabriel. Estejam também atentos a um tal de Liam Neeson num papel secundário.

8/10

domingo, 8 de setembro de 2013

NOTÍCIAS: Veneza 2013

O italiano Gianfranco Rosi ganhou ontem o prémio maior do festival de Veneza pelo seu novo filme, Sacro GRA. Aquele que é o primeiro documentário de sempre a ganhar o Leão de Ouro traça um perfil do que é o dia-a-dia em várias zonas diferentes de Roma, seguindo o traçado da GRA (Grande Raccordo Anulare), a circunvalação lá do sítio. O júri que o escolheu era presidido pelo veterano Bernardo Bertolucci e esta foi a quinta vez que o trabalho de Rosi foi reconhecido em Veneza, tendo ganho, entre outros, um prémio FIPRESCI em 2010. Alfonso Cuarón, Paul Schrader ou Kim Ki-Duk apresentaram os seus mais recentes filmes fora da competição.

Leão de Ouro: Sacro GRA (Gianfranco Rosi)
Leão de Prata: Miss Violence (Alexandros Avranas)
Grande Prémio do Júri: Stray Dogs (Tsai Ming-Liang)
Taça Volpi de Melhor Actor: Themis Panou (Miss Violence)
Taça Volpi de Melhor Actriz: Elena Cotta (Via Castellana Bandiera)
Melhor Argumento: Steve Cogan, Jeff Pope (Philomena)

sábado, 7 de setembro de 2013

FOTOGRAFIAS: Christopher Maloney

O homem do título é um jornalista nova-iorquino que, um belo dia, tomou consciência da quantidade de locais dados a conhecer ao mundo através do cinema por que passava na sua caminhada para o trabalho e decidiu iniciar uma colecção de fotografias que evidenciam isso mesmo. O seu projecto FILMography tem já vários trabalhos, dos quais destaco aqui alguns, basicamente aqueles sobre filmes de que gosto bastante, muito ou imenso, vejam lá se os reconhecem a todos!








Podem ver mais aqui.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Zero Dark Thirty (Kathryn Bigelow, 2012)

Kathryn Bigelow e Mark Boal regressam ao cenário da geopolítica num mundo pós-11 de Setembro com um filme sobre a busca e morte de Osama Bin Laden, adequadamente apelidada de a maior caça ao homem de sempre, tendo-se prolongado por 10 anos, decorrido em simultâneo com duas guerras e envolvido um sem número de meios materiais e humanos. Em comum com The Hurt Locker temos a estrutura episódica do argumento, aqui inclusivamente separados por subtítulos, a falta de arcos dramáticos na construção das personagens, realçando o compromisso total que estabelecem com os seus trabalhos, e o realismo irrepreensível. Felizmente, em Zero Dark Thirty nada disto é atabalhoadamente direccionado para uma mensagem confusa no final nem se torna repetitivo ou frouxo à medida que o tempo avança.

O âmbito é extenso, passando com agilidade de actos públicos marcantes, como aquele dia de 2001 em Nova Iorque, usando apenas gravações reais de chamadas feitas das torres e dos aviões sobre um ecrã negro, o atentado ao hotel Marriot em Islamabad ou as bombas de Londres em 2005, para cenas de trabalho de investigação exaustivo por vezes tão desesperantes quanto as outras (efeito conseguido com a mesma eficácia que em casos exemplares como All The President’s Men ou Zodiac), criando expectativa quanto a um desfecho já sobejamente conhecido, o cerco ao complexo de Bin Laden no Paquistão em 2011, que encaixa em ambas essas facetas e é, efectivamente, um momento de enorme tensão e excelência técnica.

Nunca vemos a cara do líder da Al-Qaeda e a reacção de Maya, a estóica operacional da CIA que abdica de ter uma vida própria para o encontrar, quando o corpo é levado ao seu encontro num saco de plástico para reconhecimento visual, não resolve nada, apenas assinalando que a missão foi completada e permitindo finalmente, ao fim de tanto tempo gasto e sangue derramado, uma amostra de humanidade em estado bruto sob a forma de um ataque de choro, ainda assim sem o mínimo de sensacionalismo, sem música, sem discursos bonitos e sem, sequer, a proximidade de alguém para a reconfortar.

The Hurt Locker até podia ser bastante competente, mas não lhe deslindo uppercuts como este; a secura de Zero Dark Thirty impressiona, tornando-se importante manter a cabeça fria para não interpretar as cenas de tortura, os tiros à queima-roupa na Operação Lança de Neptuno ou a corruptibilidade dos informadores árabes como mais do que uma tentativa de retratar o que aconteceu (ou fomos ditos que aconteceu, dirão os mais cépticos). Da vingança à justiça vai um longo caminho e este filme não entra nessa discussão (para isso já tivemos Munich uns anos antes). Assim, com clareza e sem compromissos, o estilo de Bigelow, a escrita de Boal e o talento de Jessica Chastain fundem-se com o negrume e a gravidade da situação e atingem aqui os seus melhores momentos até agora.

9/10

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

TOP5: Terrorismo

05. The Hamburg Cell (Antonia Bird, 2004)
Desde Setembro de 2001 que o terrorismo passou a ser uma realidade mais palpável e assustadora para quem vive em países ocidentais. Ainda que a influência de alguns grupos pareça, ao fim de mais de 10 anos, ser hoje mais residual, a ameaça ainda está bem presente. Este filme em particular foca-se na preparação de alguns dos sequestradores do United 93, mostrando-os como pessoas com rotinas e empregos normais (ainda que com convicções destrutivas) e não apenas como monstros ininteligíveis sem história, retrato que causou bastante polémica. Uma grande interpretação de Karim Saleh.

04. Path To Paradise (Leslie Libman, Larry Williams, 1997)
Em 1993 ocorreu o prelúdio do 11 de Setembro: uma carrinha armadilhada explodiu na cave do WTC, matando 6 pessoas, acontecimento patrocinado pela Al-Qaeda. Ver este filme depois de 2001 é enervante por ser tão óbvio o aviso que ficou dado, com a incompetência das autoridades competentes a ganhar protagonismo, sem que nada tenha sido realmente feito.

03. United 93 (Paul Greengrass, 2006)
O voo que se despenhou na Pennsylvania é uma história dramática de coragem face à morte certa. No seu estilo documental típico, Greengrass filma aqui um dos filmes mais intensos que já vi.

02. Zero Dark Thirty (Kathryn Bigelow, 2012)
Mais cedo ou mais tarde, a procura e morte de Bin Laden daria um filme. Zero Dark Thirty é um triunfo a nível técnico, que cobre toda a investigação com grande realismo e gravidade, permitindo a Jessica Chastain, pelo caminho, uma enorme interpretação.

01. Munich (Steven Spielberg, 2005)
Haverá algum filme a explorar com tanta profundidade e intensidade a espiral de violência gerada pelo terrorismo e a vingança, que por sua vez gera mais terrorismo e vingança? Neste filme não há inocentes, não há compromissos, é o filme mais maduro e mais complexo de Spielberg.