Se houve fenómeno que segui e me seguiu durante a adolescência, foi Harry Potter. Desde que me foi oferecida uma cópia da primeira edição do primeiro livro que passei a viver intensamente a história do órfão com uma cicatriz em forma de relâmpago que descobre que é um feiticeiro; afinal, quantas vezes, quando se é mais novo, não nos sentimos deslocados, não queremos fugir do que nos rodeia ou não desejamos ter super-poderes? E quando se é adulto também, já agora! De todos os frames que as adaptações ao cinema geraram, estes são dos meus preferidos: na primeira parte de Harry Potter And The Deathly Hallows uma animação interrompe a acção para contar a história, um pouco ao estilo Kill Bill, da origem de alguns objectos preponderantes. As silhuetas das personagens contrastam com o fundo dourado e há uma aura de antiguidade e fantasia em tudo emulada de Lotte Reiniger. A narração perfeita de Emma Watson também ajuda.
domingo, 26 de janeiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Around The World In Eighty Days (Michael Anderson, 1956)
O valor de Júlio Verne enquanto
escritor é evidente quando os seus livros continuam a ser lidos nos dias de
hoje, provando que estes contêm, mais do que especulação científica espetacular
que o tempo veio a tornar realidade, aventuras extremamente cativantes e
transversais ao presente. Quando em 1956 saiu o filme Around The World In 80
Days, já as viagens de balão estavam ultrapassadas e tanto a aviação como o
turismo náutico haviam encurtado distâncias, para usar uma expressão ouvida na
introdução. Contudo, os episódios de cada paragem, o humor e a possibilidade de
ver paisagens novas e distantes sem sair da sala de cinema tornaram-no num
clássico incontornável.
Tudo começa com uma aposta, que
Phileas Fogg (David Niven) pretende ganhar, nem que gaste toda a sua fortuna,
cuja origem é desconhecida. Só no emproado Reform Club se descobririam
personagens ricas e caprichosas o suficiente para, primeiro, discutir quanto
demorariam a circundar o globo e, depois, para o tentarem fazer. Em abono da
verdade, o rigor de Fogg é tal que impressiona até os seus comparsas, também
eles devotos da pontualidade britânica, do chá das quatro ou do whist. Numa agência
de emprego, um mordomo lamenta-se por não o poder aturar mais. Isto parece um
trabalho para… Cantinflas! Que melhor contraparte do que o mulherengo e
flexível Charlie Chaplin mexicano?
Com esta premissa absurdista, a
comédia nunca baixa em qualidade, pois o improvável passa a ser permitido a Fogg e ao seu ajudante Passepartout. Alugam um elefante para atravessar a selva
indiana por 1000 libras (“- You’ve been diddled!” “-Undoubtedly, but it’s not
often one needs an elephant in a hurry”), salvam uma princesa, atravessam um
desfiladeiro americano de comboio numa ponte que vai caindo atrás deles (numa
espécie de referência a The General, cujo mentor, Buster Keaton, aparece como o
pica de serviço), entre outras peripécias. Pelo caminho é certamente batido o
record de cameos: Frank Sinatra, Marlene Dietrich, Charles Boyer, Trevor
Howard, Peter Lorre, parem-me que a lista não acaba.
Isto não é tudo, porque levam com
uns 70mm de Technicolor que até andam de lado. Michael Anderson monta a câmara
em tudo o que pode, no elefante, na frente do comboio ou num cavalo, filma o
monte Fuji do mar, o campo inglês dum balão, enfim, a beleza destes planos é
inqualificável, qual revista Volta ao Mundo. Niven é perfeito na sua
impassibilidade, mas revela um lado desiludido mais para o final, de um
solitário que se refugiou nas niquices do quotidiano por não ter ninguém com
quem o partilhar. Anda-se em círculos, mas ganha-se muito. Este é um dos
melhores filmes de aventura que há e merece ser recordado e revisto sempre que
possível.
9/10
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
domingo, 19 de janeiro de 2014
West Side Story (Robert Wise, 1961)
O clássico musical de Robert Wise sobre dois grupos de jovens delinquentes muito diferentes em Nova Iorque ainda surpreende. Seja pela palete de cores vibrantes, a história com toques de Romeu e Julieta ou os números musicais memoráveis, West Side Story continua a ser contagiante. America é um dos meus momentos preferidos. A letra de Stephen Sondheim realça, com algum humor à mistura, as vantagens e desvantagens, as facilidades e os preconceitos que os emigrantes do Porto Rico encontra(va)m ao chegar aos EUA, apesar de serem parte integrante da união.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
The Hobbit: The Desolation Of Smaug (Peter Jackson, 2013)
Que três livros resultem em três
filmes, é compreensível. Agora, um livro dar três filmes, isso já pode causar
alguma impressão. Especialmente numa altura em que Hollywood se inunda ano após
ano com remakes, sequelas e prequelas da treta e tenta espremer ao máximo o
sumo de tudo o que parece minimamente rentável no imediato, o receio de que
Peter Jackson poderia ter aderido ao capitalismo cego, dez anos depois de Lord
Of The Rings, e manchasse o currículo ao decidir voltar áquilo que o havia
elevado aos píncaros e reservado um lugar na memória da sétima arte era realista.
Fui ver o primeiro tomo desta nova aventura reticente e saí da sala com
sentimentos contraditórios: se por um lado, em An Unexpected Journey, fica
evidente que o realizador não perdeu o toque de Midas no que diz respeito a
criar cenários e sequências de ação que fazem cair o queixo (aquela fuga dos
goblins, wow), o argumento arrastava-se para apresentar tudo e todos com
detalhe aparentemente desnecessário e nunca atalhar a viagem, antes pelo
contrário. Confesso que sentira o mesmo com The Fellowship Of The Ring, até os
outros episódios lhe darem mais sentido, por isso aguardava por The Desolation
Of Smaug com expectativa.
Efectivamente, este agradou-me
muito mais. O enredo adensa-se à medida que o grupo composto por Gandalf (aqui
ainda cinzento), Bilbo Baggins (corajoso e perspicaz), Thorin e os restantes
anões se aproximam de Erebor, a montanha solitária, para reconquistar o
território que lhes foi roubado pelo dragão Smaug anos antes. As ligações ao
que acontece em Lord Of The Rings surgem em maior quantidade, afinal apenas 60
anos separam essa trilogia de The Hobbit. Ficamos, por exemplo, a saber que
Gimli é filho de Glóin, reencontramos Legolas e explora-se, numa das cenas mais
negras de The Desolation Of Smaug, a origem obscura dos Nazgul, cujas campas
Gandalf descobre estarem vazias. Forças malignas reúnem-se em Dol Guldur,
lideradas por um necromante misterioso.
A nível de fotografia, é talvez o
trabalho mais complexo e variado de todos os episódios Jackson/Tolkien. Desde
as imagens da cidade do lago ao verde fluorescente de Mirkwood, visualmente é
impossível não ficar satisfeito. A introdução de Tauriel é positiva (claro que,
para pôr isto em perspectiva, eu via 50 horas seguidas só de close-ups da
Evangeline Lilly): inexistente nos livros, a elfo traz frescura e um capítulo sobre
como o amor inter-espécies pode ser possível. Se a interacção de Bilbo com
Gollum era o ponto alto do primeiro, o contacto agora com Smaug não fica nada
atrás, é intenso e acaba num cliffhanger antes dos créditos finais. O dragão
tem uma personalidade sibilina e é imponente pelo tamanho, aspecto, vontade de
matar e pelas previsões que executa.
O que de mais importante Peter
Jackson tem conseguido com a adaptação do mundo literário de Tolkien é
recuperar a magia do cinema, que, ironicamente, parece esvanecer-se à medida
que a tecnologia permite criar imagens e sons cada vez mais espectaculares nos
blockbusters modernos, ultrapassando todos os limites do possível. Não que Lord
Of The Rings e The Hobbit não dependam desses avanços recentes, como é óbvio, mas
o que os separa de tudo o que se tem visto no cinema comercial deste século,
para além da inigualável imaginação do seu criador primordial, da singularidade
das personagens e da solidez das histórias que tinha para contar e que se
cruzam invariavelmente, é o puro entusiasmo que o realizador neozelandês tem
pelo que está a fazer. Pelo meio de tantas paisagens de cortar a respiração,
dos melhores efeitos especiais, de horas e horas de momentos épicos,
pressentimos o sonho de um rapaz a tornar-se realidade, um leitor juvenil a
folhear páginas avidamente, a planear durante anos a logística necessária para
um dia as conseguir filmar, mostrar ao mundo quão longe a sua imaginação
viajou, fazer justiça à(s) obra(s) que o tocaram irreversivelmente, e... a
conseguir.
8/10
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
FOTOGRAFIAS: Alfonso Cuarón
No set de Y Tu Mamá También (2001);
No set de Harry Potter And The Prisoner Of Azkaban (2004);
No set de Children Of Men (2006);
No set de Gravity (2013).
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
TOP5: Jimmy Stewart
Uma das caras mais reconhecíveis da história do cinema, Jimmy Stewart ganhou popularidade a interpretar repetidamente filhos e chefes de família da classe média. O seu timing cómico e voz gaguejante encontraram em You Can't Take It With You, The Philadelphia Story e The Shop Around The Corner o território perfeito para serem mais que tiques e se tornarem carismáticos. Depois de um longo período de interregno, no qual serviu o exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, reatou a sua colaboração com Frank Capra, no clássico natalício It's A Wonderful Life. Mais tarde viriam Rear Window e Vertigo com Alfred Hitchcock, Winchester '73 e The Naked Spur com Anthony Mann, entre outros. A sua versatilidade ficava, então, provada e documentada. Quando em 1985 ganhou um Óscar honorário, a justificação foi "por 50 anos de interpretações memoráveis, pelos seus ideais elevados, no ecrã e fora dele, com o respeito e amizade dos seus colegas." Eis os meus cinco filmes preferidos (sem repetir realizadores):
05. The Philadelphia Story (George Cukor, 1940)
04. Winchester '73 (Anthony Mann, 1950)
03. Harvey (Henry Koster, 1950)
02. Anatomy Of A Murder (Otto Preminger, 1959)
01. Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Gentleman's Agreement (Elia Kazan, 1947)
Phil Green (Gregory Peck) é um repórter
em ascensão que acaba de aceitar uma proposta de trabalho em Nova Iorque, para
onde se muda, proveniente da Califórnia, com o filho (um Dean Stockwell com dez
anos) e a mãe. O editor da revista Smith’s Weekly apresenta-lhe novas pessoas,
incluindo a sobrinha Kathy (Dorothy McGuire), na qual fica imediatamente
interessado, e o primeiro desafio, escrever um artigo sobre antissemitismo, que
não o atrai muito à partida. Afinal, estamos num período pós-Segunda Guerra
Mundial, por isso é possível imaginar que o assunto, ainda que sempre
relevante, estivesse um pouco batido na altura.
Sim, porque a sensibilidade do
tema não assusta Phil, é só que, apesar do seu intenso desdém pela xenofobia,
ele não sabe o que pode trazer de novo para a discussão. Finalmente, tem a
ideia de se fazer passar por judeu, aproveitando-se do facto de estar numa
cidade diferente, o que é pouco consistente, já que a fama que tem adquirido,
ao ponto de ter agora um melhorado contrato na costa Leste, se deve primariamente
aos sacrifícios, qual método de Lee Strasberg, que costuma fazer por uma boa
história, como, por exemplo, quando se tornou num mineiro durante algum tempo
para escrever sobre a profissão.
Encarar a personagem não se
revela difícil, mas o nível de discriminação de que passa a ser vítima surpreende-o,
e a mim também me surpreendeu. É arrebatador tomar consciência da sua
verdadeira proporção numa América que acabara de libertar a Europa da sombra do
nazismo, pelo caminho revelando ao mundo o horror do Holocausto. Enquanto isso,
no seu território, continuava a ser cultivado na sociedade civil um desprezo
mesquinho pela religião, ao ponto de muitas empresas não contratarem quem a ela
estivesse associado ou de muitos hotéis não permitirem reservas a Goldmans,
Coens, e outros que tal.
Como denúncia, Gentleman’s
Agreement é poderoso. O mais simples diálogo fica revestido de dupla importância
pela possibilidade de uma ofensa, até porque vemos como Phil leva a questão
cada vez mais a peito à medida que o tempo passa e a paixão com que defende uma
mudança de atitudes, incluindo dos que o rodeiam. O reverso da medalha é que,
tendo-se atirado de cabeça para uma realidade com a qual não estava habituado a
lidar e que o acompanha diariamente enquanto mantém o disfarce, perde o juízo
crítico e começa a acusar tudo e todos de antissemitismo, incluindo Kathy, com
quem chega a planear casar-se.
Cheguei ao meu maior problema com
o filme. Admiro a dedicação de Phil, mas o seu esforço torna-se desproporcionado
e quando é confrontado com isso pela namorada somos conduzidos a tomar o
partido dele. Phil leva tudo para o domínio da mesquinhez e, como a conversa de
Kathy com David (um amigo judeu) nos indica, quem não reage activamente e
sisudamente é cúmplice com a xenofobia. Depende. Impor regras à família dela
para haver a hipótese de surgirem conflitos ideológicos numa festa caseira não
é aceitável. Deixar o filho ser afectado pela mentira que o ajudará
profissionalmente é egoísta.
Vai longe demais e não é isento
de falhas. Sendo que o próprio país é apresentado como estando arrogantemente
convencido de ter superioridade moral, a sua força e ego reforçados por uma
vitória militar gigantesca, faria sentido conduzir a evolução de Phil pelo
mesmo caminho, o seu sucesso em concomitância com um moralismo insuportável. Se
acabasse no penúltimo encontro entre o casal de protagonistas, seria incerto e
maravilhoso. Nada disto tira mérito à sólida realização e às grandes
interpretações, habituais nos filmes de Kazan. Em 1947 fez este papa-prémios e
fundou o Actors Studio. Um ano histórico, portanto.
6/10
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
CITAÇÕES: The Great Ziegfeld (Robert Z. Leonard, 1936)
Hotel doorman: Do you realize you just gave me five pounds?!
Florenz Ziegfeld Jr. (William Powell): Yes, I'm trying to lose weight.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
CURTAS: Selbstschüsse (Lutz Mommartz, 1967)
Este foi o primeiro filme que vi em 2014... e ainda bem! Mommartz divaga sobre o prazer de ver cinema e as suas possibilidades infinitas com uma energia contagiante. O realizador experimental alemão corre com a sua câmara de 16mm, atira-a ao ar, filma-se a rir, a sério, que mais incentivo é preciso para se ter um ano cinematográfico preenchido?
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