quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
domingo, 30 de novembro de 2014
The Misfits (John Huston, 1961)
The Misfits nunca há-de cair no
esquecimento, se não for pela qualidade das interpretações oferecidas por Clark
Gable, Montgomery Clift e Marilyn Monroe, será pelo complicadíssimo
processo de produção, especialmente por causa dos mesmos. O primeiro, já com quase
60 anos, conservava ainda uma classe e paciência à parte, mas irritava-se com a
falta de profissionalismo do realizador, na altura viciado em apostas, e
insistia em arriscar a saúde nas gravações mais exigentes fisicamente,
incluindo ser arrastado por uma carrinha a 50 km/h no meio do deserto, algo que
podemos ver para o fim do filme. O segundo havia entrado numa espiral
descendente desde um acidente viário em 1956 o ter desfigurado e provocado
lesões debilitantes. Apesar do sucesso pioneiro, na altura, das operações
plásticas realizadas no seu rosto, outros problemas de saúde levaram-no à
dependência de álcool e analgésicos. Monroe viria a dizer que Clift era a única
pessoa que conhecia que estava em pior forma que ela própria. Isto porque a
loira platinada mais famosa de Hollywood atravessava também um período
conturbado, em pleno divórcio do polémico escritor Arthur Miller, que, como se
isto já não fosse suficiente, era o argumentista de The Misfits. Ataques de
ansiedade faziam-na esquecer as falas, chegar atrasada todos os dias e morfar
comprimidos para dormir como se fossem rebuçados Pez. Gable morreu 12 dias
depois do fecho das filmagens; Monroe morreu um ano e meio depois. Este foi o
último trabalho de ambos.
No meio disto tudo, que dizer? A
reputação persegue The Misfits, e acredito que as expectativas de muitos
espectadores, ainda hoje, sejam influenciadas por isso. A verdade é que não se
trata de um grande épico, nem sequer é um grande western, apesar de ser sobre
cowboys. Não, esta é uma história muito mais íntima, calorosa e regrada do que
seria de esperar… e nada mais agradável do que ver estes pesos-pesados do
cinema gerar uma química tão forte e tão memorável,
resultando, involuntariamente, num epitáfio tão definitivo. Acaba por ser um milagre
que um filme sobre três pessoas cuja indolência é apenas ultrapassada por uma
contraditória fúria de viver (para estabelecer um paralelo com a também curta
filmografia de outro azarado contemporâneo, James Dean) tenha sido feito nestas condições e consiga cativar tanto. Gay, Perce e Roslyn
andam à deriva num oceano de solidão, em mente, e num deserto de areia, em
corpo. O velho Oeste já desapareceu há muito nos planaltos do Nevada, já
ninguém resiste aos salários baixos mas certinhos nas cidades, já não há cavalos
selvagens para domar ou vender aos talhos, já não há rodeos como antigamente e
estas personagens em particular parecem condenadas a agarrarem-se a algo que
não existe ou a agarrarem-se uns aos outros, perpetuando as suas fantasias e
desiludindo-se continuamente, sim, mas, pelo menos, com companhia. O que vale é
que The Misfits nunca há-de cair no esquecimento. Assim, pode ser redescoberto
e reavaliado vezes sem conta.
8/10
sábado, 29 de novembro de 2014
Dom Roberto (Ernesto de Sousa, 1962)
Um artista pobre, uma mulher com um passado doloroso, a ilusão, a decepção e o conforto da companhia. Cinema português no seu melhor e no início de uma nova fase, Dom Roberto representa os primórdios do Cinema Novo, com grande influência do neorealismo italiano.
IMDb
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terça-feira, 25 de novembro de 2014
La Planète Sauvage (René Laloux, 1973)
Ao longo da minha vida já vi
muitos filmes estranhos. La Planète Sauvage é um dos que mais sobressai e tem,
no mínimo, lugar garantido no pódio. Só para dar uma ideia do que estou a
falar, isto começa com uma mulher em trajes do paleolítico a correr desalmadamente
com um bebé entre os braços por uma floresta espinhosa, até que chega a uma
colina e uma mão azul gigante lhe dá um sopapo e ela cai. A cena repete-se, de
seguida pedras esponjosas rodeiam-na, setas caem à sua volta, e acaba por ser
agarrada, elevada a uma altura considerável e largada, estatelando-se no chão.
De uma distância maior, verificamos que foram três crianças alienígenas com
aspecto aquático (apesar de não se ver uma gota de água em lado nenhum),
barbatanas no lugar das orelhas e 20 metros de altura que a mataram, deixando o
filho humano (aqui denominados Oms) órfão.
O jovem Tiwa adopta-o, como
alguém escolheria uma formiga para animal de estimação, pois no planeta dos
Traags somos considerados uma espécie sem inteligência e que se multiplica
rapidamente. A animação de La Planète Sauvage, produzido na Checoslováquia, um
país onde o talento para o género ainda não ocupa o lugar devido na História do
cinema, é tão psicadélica como a banda sonora roqueira de Alain Goraguer. Paisagens
ermas e pejadas de plantas invulgares são o habitat natural de uma civilização
intelectualmente avançada, mas dominada pelos dogmas da Meditação.
Apesar das dificuldades em se perpetuarem,
acham-se superiores e nada querem aprender com os humanos, chegando a ser
desconfortável a forma como os subjugam, claramente subestimando-os. Quando o
bebé, entretanto baptizado de Terr, se torna adulto, foge com uns phones que
educam os Traggs jovens, gravando conhecimento directamente no cérebro, e
encontra um grupo de dissidentes que habita num parque. Por uma vez, os humanos
são os ameaçados e têm de encontrar uma forma de ganhar o seu espaço e
direitos, nem que tal signifique uma guerra com aparente disparidade de recursos.
Pelo meio de tanto sci-fi surrealista está essa premissa continuamente actual
de luta contra os preconceitos e a marginalização. A originalidade de La
Planète Sauvage é inegável, e, mesmo nem sempre me sentir captivado por um
estilo tão bizarro a todos os níveis, a criatividade do realizador não deixa de
surpreender.
7/10
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Il Deserto Dei Tartari (Valerio Zurlini, 1976)
Um tema absorvente de Ennio Morricone, de um filme italiano único.
domingo, 9 de novembro de 2014
Interstellar (Christopher Nolan, 2014)
Interstellar reforça o estatuto
de Christopher Nolan como o realizador que devora mais artigos da Wikipédia.
Depois de elucubrações sobre sonhos tão intricadas que exigiram uma personagem,
a de Joseph Gordon-Levitt, cujo único propósito era explicar o enredo em
Inception (apesar disso, destaca-se pela intensidade das sequências de acção
diversificadas e simultâneas), eis que o seu regresso se proporciona por
intermédio de um desejo de homenagear o seu filme preferido, 2001: A Space
Odyssey, claramente expresso pelas pistas visuais espalhadas com insipidez e algo
aleatoriamente, como emparelhar um plano de alguém no leito da morte com outro
de alguém à deriva no espaço ou dar personalidade a robôs de configuração
monolítica.
Quando se atinge um equilíbrio
tão meritório entre dinâmica narrativa e eficiência técnica como aconteceu em
The Dark Knight compreende-se que comece a borbulhar um sentimento de audácia.
Bandas desenhadas parecem, depois de tanto sucesso, cada vez menos o limite
daquilo que se pode explorar com os recursos à disposição e a mente divaga para
assuntos do subconsciente ou da ciência que não se ouve falar no cinema, apesar
de preocuparem figuras de QI muito elevado, como wormholes, viagens no tempo e
a lei de Murphy. Não quero ridicularizar tal desejo, aliás muito louvável, mas
se há adágio adequado para Interstellar é o princípio de Peter, segundo o qual
um trabalhador só pode ser promovido até ao seu nível de incompetência.
Matthew McConaughey é um
ex-piloto e engenheiro agora remetido à agricultura, como grande parte da
humanidade, ou assim somos levados a crer. Estamos situados num futuro não
muito distante em que a população mundial regista uma curva descendente e os
recursos naturais estão em falência. Existe paz, só que exige minimalismo nos
modos de vida. Imagens de campos intermináveis de milho e tempestades de areia
são entrecortadas por testemunhos com ar documental de idosos sobre os tempos
difíceis, que havemos de perceber que pertencem ao futuro, naquela que é a primeira
má decisão: isto é pura ficção e bastante pessoal até, por isso ninguém quer
saber de humanos anónimos se a história também não quer.
Sucedem-se três quartos de hora do
quotidiano, tão normal quanto possível nestas circunstâncias e considerando que
a matriarca morreu com cancro, da família de Cooper, que inclui um filho mais
velho, uma filha mais nova e o sogro. A química entre o pai e a rapariga é
carinhosa; o primeiro prefere educar a segunda para ser audaciosa e não se
conformar com o pouco que tem e muito menos a acreditar num sistema de ensino
aparentemente tão asséptico e anormal que nega as alunagens dos anos 1960 numa
altura em que há tecnologia suficiente para enviar todos os alunos das
redondezas ao Mar da Tranquilidade e voltar, se bem que isso não aconteceria
devido à contenção de custos generalizada.
Precisamente por essa razão, a
NASA passou à clandestinidade, operando agora numa base secreta que, graças a
circunstâncias bizarras posteriormente esclarecidas, com toda a certeza
devaneadora tornada constante ao longo do filme, os dois descobrem. A iminência
do fim do planeta Terra é relatada com grandes ornatos verbais, incluindo o
sempre credível sotaque britânico de Michael Caine, e Cooper torna-se
imediatamente o homem adequado para pilotar um foguetão que vai ser atirado por
um wormhole para procurar o melhor poiso para onde a nossa espécie possa
emigrar ou que possa popular com o esperma e os óvulos que vão na bagagem,
dizendo-se então adeus aos que restam aqui em baixo na parvónia.
O critério nas três missões
anteriores de reconhecimento havia sido a falta de laços emocionais dos
astronautas, contudo agora é diferente, apenas porque Nolan tem de meter um
drama movido por uma boa dose de culpa pelo meio. Não é comum inserir um
suplemento tão caseiro a um espectáculo de ficção-científica da dimensão que
Interstellar anuncia; até que ponto isso resulta é discutível. O protagonista é
egoísta ao ponto de se julgar indispensável e deixar os seus rebentos órfãos,
já que o trabalho é afectado por percepções diferentes da passagem do tempo,
explicadas com excertos da teoria da relatividade (a sério, liguem o WiFi e vão
consultando a Wikipédia), e a miúda ao ponto de não se despedir do pai.
Murphy envelhece ao longo do
filme e exprime unicamente ressentimento por se terem separado desta maneira.
Por conseguinte, a partir do momento em que levantamos voo pela primeira vez só
o visual e a acção podem despertar interesse. Remetendo para as naves em baile no vazio da
obra de Kubrick, o astro oceânico de Solaris e as paisagens gélidas de
Oblivion, temos alguns planos razoáveis, encurtados pela necessidade de se
recitar outros manuais científicos. Mais uma vez se prova que o realizador é, no máximo, um óptimo tarefeiro, que não tem olho para acompanhar a grandiosidade dos conceitos
que o fascinam, não se podendo esperar qualquer virtuosismo vindo detrás da
câmara. Dêem-me um Alfonso Cuarón sobre isto, por favor.
Posto isto, é incontornável que
há boas decisões entrementes. Já vimos os treinos a que os astronautas são
sujeitos até à exaustão, pelo que se agradece que tenham sido cortados,
McConaughey é muito carismático e, no fundo, fico contente que alguém tenha
tentado fazer um filme sobre a extinção humana que não se resuma a um meteorito
se estatelar contra nós. Interstellar é confuso e desequilibrado, ainda que
minimamente original. Acho que toda a gente ficaria grata por dedicar o seu
dinheiro e trabalho para um projecto global de salvação coordenado pela NASA
quando já se conhecem três planetas potencialmente adequados para o futuro,
rendendo a clandestinidade da agência à irrelevância, mas tudo bem.
O que vão ler de seguida pode advir
de uma tendência para o cinismo ou para o pragmatismo deste crítico cuja
opinião escolheram ler. Tive de desistir do filme quando, no meio de tanto
malabarismo com conceitos grandiosos de áreas exactas como a física e a
matemática, sobe ao palco central… o amor. A filha do professor Brand só quer
saber de uma das expedições pioneiras, a de Edmunds, porque o ama, declamando
um longo discurso em sua defesa, com um palavreado ranhoso que só confirma a
suspeita de Cooper e do espectador mais racional: estas pessoas não têm a
mínima noção da importância do que estão a fazer. Qual amor? Murphy não gosta
do pai. Ele nem se lembra da esposa. O filho acaba esquecido. Brand não vive a sua paixão.
A ironia suga Interstellar para
um buraco negro na argumentação. Como apoiar personagens que comprometem com
tanta gravidade o seu propósito? O pior é que a melhor decisão seria
precisamente ir primeiro ter com Edmunds, por ter transmitido os melhores dados.
Que trapalhada. A viagem acaba com um “obrigado e podes ir para o caralho, que
eu sou uma celebridade e quero morrer em paz com a parte da família que não me
abandonou”. Tem etapas únicas, sim. O custo é uma seriedade desmedida e
imprecisa. Nolan tenta ser Kubrick, quando lhe falta a respectiva objectividade.
Tenta ser Tarkovsky, quando não compreende a dimensão do humanismo deste. Mais
valia filmar em nome da acção sem compromissos.
4/10
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Barefoot Gen (Mori Masaki, 1983)
Já me perguntaram qual é o filme
que eu considero ser o mais deprimente de sempre. Como é habitual quando se
exige uma resposta tão definitiva, lembro-me sempre de várias opções. Requiem
For A Dream, 21 Grams, Amour, Breaking The Waves, Come And See ou Equus são
alguns que, por regra, me vêm à memória. Agora tenho mais um para adicionar à
lista: Barefoot Gen. Se estão a pensar como é que uma animação, normalmente
associadas a agradáveis memórias de infância, pode ter esse efeito, lembrem-se
que estou a falar de uma entrada em território japonês, donde vêm 74% das
maiores bizarrias produzidas a nível mundial (a estatística não é minha, nem de
nenhuma fonte credível).
Tendo em conta que não há
tentáculos a esventrar ninguém ou crianças em poses eróticas vestindo lingerie,
até se pode dizer que Barefoot Gen não se destaca pela perversidade por comparação àquilo a
que estamos habituados no ocidente. Aqui o que choca é mesmo a transformação,
sem compromissos, de uma história familiar colorida e aparentemente cliché, com
o aspecto de um episódio da Heidi, no maior inferno à superfície da Terra
registado até hoje. Isto porque o jovem descalço do título vive, com os seus
pais e três irmãos, dos quais o mais novo ainda está na barriga enorme da mãe,
na cidade de Hiroshima. E a história passa-se em 1945. Começam a perceber onde
isto vai chegar?
Gen levaria uma vida normal, a
ajudar o pai nos campos de trigo, a chatear Eiko e a brincar com Shinji, se não
fosse a constante lembrança de que o maior conflito da História se espalhava perigosamente
pelo Pacífico, acima de tudo graças à insistência do imperador Hirohito em
provocar os EUA, manter a aliança anti-comunista com a Alemanha e liderar o
Japão com uma ditadura irresponsável. Um pouco como em To Kill A Mockingbird, o
mundo das crianças vai passando lentamente para segundo plano, engolido pelo
mundo dos adultos, a sua falta de sensibilidade e as suas noções distorcidas de
justiça. Sobra uma réstia de esperança, mas o caminho é indescritivelmente
duro.
Quando, no dia 6 de Agosto, um
B-29 cruza o céu sobre si, Gen está a chegar à escola. O porão abre-se, algo
cai e, de repente, o tempo pára: uma explosão de cores toma conta do ecrã e
parece prolongar-se por horas, apesar de o impacto ser instantâneo e a
destruição demorar segundos. O realizador Mori Masaki faz prédios inteiros
levitar no meio de chamas ainda maiores e os corpos de milhares de pessoas
dissolvem-se em câmara lenta, numa sequência de puro horror. Neste momento, os
filmes da Disney e os animes infantis dos anos 70-80 passam a ser um rumor do
passado e o poder da animação ganha dimensões inimagináveis. Nunca em live
action se conseguiria retratar a detonação da bomba atómica de forma tão vívida.
Isto é apenas o início de um
pesadelo. Gen e a sua mãe grávida sobrevivem, enquanto o resto tem um destino
macabro. O nascimento do bebé precipita-se nestas condições precárias, as
consequências da radiação são quase imediatas e a desumanidade de um exército
derrotado no tratamento dos seus conterrâneos prolongam o sofrimento. Lembrei-me
de Empire Of The Sun, que também conseguia transmitir a sensação de o mundo ter
acabado ali; nenhuma construção ficou de pé e anda-se à deriva dias seguidos,
apenas procurando satisfazer as necessidades básicas. Este testemunho é um importante
e surpreendente manifesto anti-guerra, mas é preciso ter estômago. Fica o
aviso… e a vénia.
9/10
domingo, 2 de novembro de 2014
sábado, 1 de novembro de 2014
Candyman (Bernard Rose, 1992)
Logo à cabeça, duas grandes
razões para ver este filme de terror: Clive Barker e Bernard Rose. Candyman
parte de uma ideia original do primeiro, um dos maiores escritores vivos do
fantástico, que também passou com sucesso para o cinema com Hellraiser, e foi
realizado pelo segundo, o mentor do criminosamente subestimado Paperhouse.
Quando os créditos iniciais começam a rolar e, de fundo, ouvimos a mais
assustadora trilha de Philip Glass, dominada pelo órgão, e imagens de Chicago
vista de cima, numa espécie de distorção da abertura de West Side Story,
passando-se logo a seguir para um zoom in numa colmeia com a voz distorcida da
entidade do título a falar em derramar sangue, fica-se logo com pele de galinha
e colado à cadeira.
Helen Lyle está a elaborar a sua
tese, sobre mitos urbanos. Fascinada com a história de Candyman, um espírito
assassino que aparece com um gancho afiado no lugar duma mão, investiga, sem
zelo, a sua ligação ao problemático bairro Cabrini-Green, um projecto de
habitação enorme. Apesar do cenário citadino intimidante, a história remonta ao
tempo da escravatura, dando ao filme um óbvio subtexto de perpetuação do racismo
na América. Helen vive num prédio de luxo mas feito com a mesma planta,
contacta com uma mulher da sua idade que é mãe solteira, num jogo de espelhos a
nível do argumento, e, no fundo, temos um afro-americano demoníaco a perseguir uma
branca estudiosa.
Com vários mal-entendidos e
encontros sobrenaturais à mistura, a violência começa a suceder-se e, ao fim de
meia hora, o rumo passa a ser completamente imprevisível, bem como o
comportamento de Helen, que primeiro é espancada, depois é acusada de matar um
bebé e ainda sofre outros reveses a nível pessoal. Como se já não bastasse ser
das mulheres mais bonitas a aparecer no cinema, Virginia Madsen dá uma das
melhores interpretações de sempre. De sempre. A sua personagem leva tanta
porrada, física e psicológica, e a actriz passa por tantos estados de humor com
uma credibilidade tal que não me resta alternativa senão fazer esta afirmação. O
strip forçado na esquadra da polícia é brutal, porque o procedimento assim o
exige, mas está no ar um tom de condenação e humilhação pesadíssimo.
A figura de Anthony Todd como
Candyman é intimidante e seria difícil imaginar outro actor no papel, até porque
as sequelas solidificaram essa imagem de um gigante com olhar ameaçador. Há
alguns piscar de olhos a Hitchcock: o tema das falsas acusações, o crescendo de
tensão com reviravoltas inesperadas e até a protagonista loira. Rose consegue
também ser extremamente criativo com a selecção dos planos e dar ao filme um
tom cruel quando necessário, para além do ambiente de terror urbano. Se, depois
de Psycho, entrar no chuveiro nunca mais é a mesma coisa, depois de Candyman
olhar para o espelho também deixa de ser tão inócuo quanto isso.
8/10
TCN Blog Awards 2014
Aproxima-se mais uma edição dos TCN Blog Awards, a quinta, para ser mais preciso. O Cinema Notebook volta a destacar o melhor que por aí anda na blogosfera do grande e pequeno ecrãs, com a ajuda de uma academia anónima.
Os nomeados nas 13 categorias foram conhecidos ontem e O Narrador Subjectivo foi um dos contemplados, pelo quarto ano consecutivo, desta feita para Melhor Blogue Individual. Obrigado a todos os que partilham comigo a paixão pelo cinema e encontram valor no que escrevo!
As votações são abertas ao público e encontram-se espalhadas sondagens por vários blogues. Até dia 25 de Dezembro podem votar em mim (cof cof) no Split Screen. Em simultâneo, podem votar aqui para Melhor Novo Blogue, na barra lateral direita. Quanto às outras, confiram aqui.
Saudações!
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