quarta-feira, 4 de abril de 2012

Plan 9 From Outer Space (Edward D. Wood Jr., 1959)


"Greetings, my friend. We are all interested in the future, for that is where you and I are going to spend the rest of our lives. And remember my friend, future events such as these will affect you in the future. You are interested in the unknown... the mysterious. The unexplainable. That is why you are here. And now, for the first time, we are bringing to you the full story of what happened on that fateful day. We are bringing you all the evidence, based only on the secret testimony of the miserable souls who survived this terrifying ordeal. The incidents, the places. My friend, we cannot keep this a secret any longer. Let us punish the guilty. Let us reward the innocent. My friend, can your heart stand the shocking facts of grave robbers from outer space?"

Assim começa, com este desmesurado discurso do vidente Criswell, a magnum opus de Edward D. Wood Jr., a delirante narrativa de ficção científica que mistura zombies e extraterrestres humanoides muito antes de Hollywood popularizar estes mash-ups de mitologias com Pirates Of The Caribbean (zombies e piratas) ou Cowboys & Aliens (duh), a fita que ainda hoje, mais de 50 anos após a sua conceção, é denominada como a pior de sempre. Meu amigo, dificilmente estarás preparado para o que vais ler! O futuro reserva-nos muitas surpresas e temos de conhecer os factos para ficarmos melhor preparados para as acolher! Tudo o que aparece neste filme aconteceu e pode preceder acontecimentos globais duma dimensão incomensurável e com consequências inimagináveis!

Ou então não. Criswell sai de cena, mas a sua voz continua a ressoar, como uma presença omnipotente, preenchendo espaços em branco, num mecanismo de narração que viria a ser muito influente em Terrence Malick. Plan 9 From Outer Space começa com Bela Lugosi idoso a enterrar a sua esposa, que mais tarde percebemos ser a gótica original Maila Nurmi, mais conhecida no mundo artístico como a jovem Vampira, sendo essa diferença de idades o nonagésimo-primeiro pedido de suspensão de descrença do filme em 5 minutos. No céu, um avião comercial, pilotado por Jeff Trent, cruza-se com uma nave espacial, e a partir daí fica óbvio que algo de muito anormal se vai passar. Em breve, o velho morre também e o estranho casal renasce dos mortos, graças a uma arma de eléctrodos, para causar danos.

Acontece que os alienígenas são mais evoluídos que os terráqueos e vinham em paz para tentar evitar que a corrida ao armamento, assunto na ordem do dia nos anos 50, dado o início da Guerra Fria, levasse, depois do desenvolvimento das armas nucleares, à descoberta da solarbonite, uma substância que causa a explosão das partículas solares e que, usada em bombas, pode originar uma reação em cadeia capaz de apagar do mapa todo o universo, mas a constante falta de contacto e a sonegação das visitas das naves por parte dos governos deste planeta, levaram os visitantes a crer que não se pode confiar em nós e que a nossa estupidez e arrogância é um perigo para todos. Vai daí, o melhor plano que conseguem delinear é criar 2 ou 3 zombies num cemitério nos arredores de Hollywood.

Isto é mau, muito mau. Não só a história, com mais buracos que um queijo suíço, mas os atores, a realização, os cenários, o vestuário, há cenas que mudam de dia para noite em cada corte, há discos voadores presos por fios visíveis, há um sósia de Lugosi que tem de cobrir sempre a cara por estar a substituir a lenda do terror depois da sua morte durante a produção, chega a ser difícil acreditar que Ed Wood não planeou um spoof no género dos que inundariam os anos 80, muitos deles cortesia dos irmãos Zucker. Ao longo dos anos tem-se assistido ao fenómeno de idolatria da comicidade não intencional de Plan 9 From Outer Space e o filme de 1994 de Tim Burton sobre o realizador trouxe muita simpatia por todas estas figuras estranhas que desfilam em frente à câmara.

Biografias à parte, a verdade é que me senti entretido em alguns momentos, o que não é suficiente para me armar em vanguardista e falar sobre uma obra-prima que é genial de tão má que é, o que não faz absolutamente sentido nenhum, mas também não posso falar num nadir do cinema mundial. Tem piada e, em abono da verdade, o discurso final do alien Eros mostra tão bem a bajulação arrogante que a humanidade por vezes devota a si mesma. Eros fala em destruir o nosso mundo caso não mudemos de atitude e um tenente da polícia quer levá-lo para a esquadra. Eros ri-se e nós rimo-nos também. Plan 9 From Outer Space é assim, ingénuo e imperfeito, excêntrico e espirituoso. E claro que, no fim, lá vem Criswell outra vez, para nos lembrar que a Terra é um lugar muito, muito estranho...

3/10

2 comentários:

  1. Assisti a esse filme e, ao longo dele, fui observando os vários defeitos que há. Também não me entretive totalmente, não acho a obra genial, apesar de sê-lo ao inverso. Gosto especialmente da personagem do detetive, que fica o tempo todo com a arma apontada para si mesmo.

    Passe no meu blog, tá rolando um especial sobre o Oscar 2012.

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