domingo, 21 de dezembro de 2014

Rush (Ron Howard, 2013)

Depois do frente-a-frente reconstituído em Frost/Nixon das célebres entrevistas do jornalista ao antigo presidente conduzidas em 1977, um dos mais marcantes confrontos de mentes da história da televisão, Ron Howard parece, pela primeira vez na sua carreira, transportar alguns aspetos de um filme seu para o seguinte, ao continuar na mesma década e parando noutra rivalidade pública, desta vez no desporto: o domínio bipartido automobilístico de James Hunt e Niki Lauda na Fórmula 1. O que faz de Rush ainda melhor é a constatação de que nos maiores feudos são normalmente as inúmeras ligações, à partida inevidentes, entre as partes que os torna férreos e épicos.

Enquanto jovens, sem o apoio das respectivas famílias e com uma enorme vontade de mostrar ao mundo aquilo de que eram capazes, estão inscritos na Fórmula 3, uma liga que dá alguma visibilidade, mas parece 30 anos atrasada a nível organizacional e de meios disponíveis em relação aos Grand Prix de topo. Já nessa altura, Hunt chama sempre para si a atenção e o risco, enquanto Lauda se mantém reservado e calculista, na pista e fora dela. Para um, o talento é uma bênção que deve ser celebrada com sexo e álcool sempre que possível, enquanto para o outro tem de ser trabalhado diariamente, mesmo que isso signifique abdicar de certos luxos, como a própria felicidade.

Não é só de montagens frenéticas e corridas a 300 km/h de que Rush vive, antes pelo contrário, Howard consegue sempre equilibrar isso com óbvia compreensão de como as vidas pessoais e as inseguranças de cada um influenciam até os estilos de condução que os caracterizaram. A impetuosidade do britânico é responsável pelas mais mirabolantes ultrapassagens da época, mas também por divórcios pouco amistosos, declarações polémicas e uma ansiedade constante, que procura acalmar com excessos variados. Em Nova Iorque despede-se da mulher num restaurante, sai sozinho para a gozar perante os paparazzi e entra num táxi cabisbaixo, talvez arrependido, no mínimo consciente da sua solidão.

Longe dali, o austríaco prepara os carros com os mecânicos, ofende muita gente com uma honestidade sem tacto e questiona-se sobre o seu futuro por sentir que tem finalmente algo a perder ao casar-se, depois de anos a ser lembrado da sua aparência menos atrativa e a isolar-se por opção. Assim chegamos a Nürburgring (Alemanha) em Agosto de 1976, “The Green Hell” ou o percurso mais antiquado e perigoso do campeonato. Lauda insiste para que a prova seja boicotada pelos pilotos devido às más condições atmosféricas, mas, como era o líder da classificação, ninguém lhe dá ouvidos. Um acidente logo no início transforma o seu carro numa bola de fogo e é levado para o hospital com queimaduras gravíssimas.

Vê-lo a ser entubado num processo de limpeza de pulmões enquanto olha para a televisão, onde Hunt vai ganhando pontos todos os fins-de-semana aproveitando-se da ausência do maior rival, é perturbador. Mas dá-lhe motivação. Na realização, montagem, fotografia e actuações exploram-se a claustrofobia do carro, a adrenalina da velocidade, a dor da recuperação, o espírito de competição, mas, acima de tudo, o laço único de respeito e admiração que se cria entre estes dois homens, com perspectivas tão díspares, que fazem de tudo para se baterem por saberem que são os melhores naquilo que fazem. É a beleza do desporto numa história real que, mais tarde ou mais cedo, tinha de dar em filme.

9/10

sábado, 13 de dezembro de 2014

Vibrations (Joseph W. Sarno, 1968)

Pode ser algo difícil de imaginar hoje, mas houve uma altura, não há tanto tempo assim, em que a pornografia não estava disponível à distância de um clique. É verdade, procurem na internet. Isso não impediu que houvesse uma revolução sexual nos anos 60 donde, com muita rebeldia juvenil e revolta contra os poderes e as políticas instaladas à mistura, adveio maior frontalidade na discussão do prazer, do combate de doenças venéreas, de relações não heterossexuais, de contracepção, em suma de todo um leque de temas até ai tabu.

Com tanta tentação, claro que isso se iria reflectir na cultura, e da mesma forma que apareceram novos géneros e artistas musicais a ultrapassar determinadas fronteiras na composição, no estilo e na imagem, também no cinema se trilharam novos caminhos. Joe Sarno realizou dezenas de filmes, mais ou menos explícitos, ao longo da sua carreira, tendo sido um dos pioneiros do sexploitation, chamando para os cinemas as hormonas que havia então à solta, libertas. Vibrations foi dos melhor sucedidos e, tendo em conta o amadorismo e a falta de gosto que hoje facilmente se reconhece noutros trabalhos semelhantes, é significativamente mais minimalista e bem escrito, talvez por isso não parecendo tão risível como o que Russ Meyer ou Radley Metzger andavam a fazer em simultâneo, já para nem comparar com um Deep Throat ou um The Opening Of Misty Beethoven, que vieram numa onda hardcore posterior.

Há corpos nus em mais de metade das cenas, mas nem sempre com cariz sensual; Sarno tem o mérito de conseguir aumentar a tensão usando a nudez como factor de desconforto. Diz-se que entre marido e mulher não se mete a colher, mas e entre duas irmãs? Barbara e Julia estão em permanente conflito, por isso é natural que haja ocasiões de catarse quando a convivência é tão intermitente. A primeira refugia-se num apartamento low-cost em Manhattan para escrever, só que a segunda acaba por a seguir e intrometer-se. Dada a personalidade influenciável de Barbara e a devassidão que Julia procura obsessivamente, podemos imaginar uma educação restritiva. Os desequilíbrios de ambas manifestam-se em sessões de sexo em grupo e masturbação pontuadas por sentimentos de nojo e culpa. The Silence (Ingmar Bergman, 1963) paira umas milhas acima.

Atenção, continuamos a estar nos anos 60 e o tom maroto com que são mostrados vibradores, a banda-sonora própria de desenho animado ou os planos de 10 minutos de casais unicamente na posição de missionário colocam o atrevimento de Vibrations ao nível de uma criança que acabou de dizer a palavra “pilinha” pela primeira vez, se pensarmos no mundo em que vivemos actualmente.

5/10

sábado, 6 de dezembro de 2014

Hadewijch (Bruno Dumont, 2009)

Qualquer interpretação deste filme tem de começar… pelo fim. Céline (Julie Sokolowski) tenta matar-se em duas ocasiões e não é claro se sai com vida de ambas, o que também não ajuda a posicioná-las cronologicamente. A linearidade da história é questionável nos últimos 20 minutos, mas se assumirmos que realmente Hadewijch acaba com um flashback podemos ter aqui um exercício de imaginação do futuro de Mouchette enquanto jovem adulta, caso ela tivesse nascido nos anos 90 e alguém a tivesse tirado do lago a tempo. Dumont inverte o contexto familiar da personagem (o pai não é um alcoólico pobre, antes um ministro pusilânime) e insiste numa problemática religiosa que a criança de Bresson não tinha mas poderia vir a ter.

Se foi possível o título Rebel Without A Cause metamorfosear-se em Fúria de Viver no português, talvez se pudesse traduzir Hadewijch para Fúria de Amar. É a confusão de sentimentos e de sinais que causam essa irritação e os leva a fazer as perguntas e a tomar os caminhos errados. Céline tem apenas certeza de que não encontrará o amor que deseja em prazeres carnais (se continuarmos com a analogia a Mouchette é possível especular que foi vítima de pecados mundanos, o que lhe atribui um determinado nível de perdão católico, cuja manifestação procura). Assim, apenas Jesus a pode preencher e ela pergunta-lhe “porque me obrigas a perseguir-Te incessantemente? Porque foges de mim?”.

A estudante de Teologia é convidada a sair do convento onde estudava por ir longe demais nos seus sacrifícios. As freiras apontam correctamente a falta de humildade e dignidade dos seus actos, mas falham ao interpretá-los como penitências. O interesse de Céline é apenas ver o invisível – o impossível, portanto. De volta a Paris, conhece Yassine, um muçulmano da sua idade, que eventualmente a apresenta ao irmão mais velho, um crente em Maomé que cedo descobrimos não ser tão tolerante quanto parece. De uma religião à outra é apenas um saltinho, porque o extremismo, seja no ódio ou no amor, é cego e qualquer solução fácil se pode maquilhar de certa.

Céline não vê culpados – “Ele apareceu-me com frequência e fez-me perceber o que é amar, e, no entanto, o mundo está cheio de sofrimento” – e Nassir não vê inocentes – “achas que existem inocentes em democracias, onde eleges os teus representantes?”. Ambos cedem ao terrorismo. Pelo meio, David Dewaele tem uma aparição discreta como uma espécie de messias salvador, que é ironicamente mal aproveitado por quem se cruza com ele e pelo argumento. O calculismo e a frieza do estilo de Dumont realçam, mais uma vez, um mundo de vazios, sem respostas da religião, da política, da polícia ou da sociedade para a imigração, para o crime ou para as novas gerações.

7/10

domingo, 30 de novembro de 2014

The Misfits (John Huston, 1961)

The Misfits nunca há-de cair no esquecimento, se não for pela qualidade das interpretações oferecidas por Clark Gable, Montgomery Clift e Marilyn Monroe, será pelo complicadíssimo processo de produção, especialmente por causa dos mesmos. O primeiro, já com quase 60 anos, conservava ainda uma classe e paciência à parte, mas irritava-se com a falta de profissionalismo do realizador, na altura viciado em apostas, e insistia em arriscar a saúde nas gravações mais exigentes fisicamente, incluindo ser arrastado por uma carrinha a 50 km/h no meio do deserto, algo que podemos ver para o fim do filme. O segundo havia entrado numa espiral descendente desde um acidente viário em 1956 o ter desfigurado e provocado lesões debilitantes. Apesar do sucesso pioneiro, na altura, das operações plásticas realizadas no seu rosto, outros problemas de saúde levaram-no à dependência de álcool e analgésicos. Monroe viria a dizer que Clift era a única pessoa que conhecia que estava em pior forma que ela própria. Isto porque a loira platinada mais famosa de Hollywood atravessava também um período conturbado, em pleno divórcio do polémico escritor Arthur Miller, que, como se isto já não fosse suficiente, era o argumentista de The Misfits. Ataques de ansiedade faziam-na esquecer as falas, chegar atrasada todos os dias e morfar comprimidos para dormir como se fossem rebuçados Pez. Gable morreu 12 dias depois do fecho das filmagens; Monroe morreu um ano e meio depois. Este foi o último trabalho de ambos.

No meio disto tudo, que dizer? A reputação persegue The Misfits, e acredito que as expectativas de muitos espectadores, ainda hoje, sejam influenciadas por isso. A verdade é que não se trata de um grande épico, nem sequer é um grande western, apesar de ser sobre cowboys. Não, esta é uma história muito mais íntima, calorosa e regrada do que seria de esperar… e nada mais agradável do que ver estes pesos-pesados do cinema gerar uma química tão forte e tão memorável, resultando, involuntariamente, num epitáfio tão definitivo. Acaba por ser um milagre que um filme sobre três pessoas cuja indolência é apenas ultrapassada por uma contraditória fúria de viver (para estabelecer um paralelo com a também curta filmografia de outro azarado contemporâneo, James Dean) tenha sido feito nestas condições e consiga cativar tanto. Gay, Perce e Roslyn andam à deriva num oceano de solidão, em mente, e num deserto de areia, em corpo. O velho Oeste já desapareceu há muito nos planaltos do Nevada, já ninguém resiste aos salários baixos mas certinhos nas cidades, já não há cavalos selvagens para domar ou vender aos talhos, já não há rodeos como antigamente e estas personagens em particular parecem condenadas a agarrarem-se a algo que não existe ou a agarrarem-se uns aos outros, perpetuando as suas fantasias e desiludindo-se continuamente, sim, mas, pelo menos, com companhia. O que vale é que The Misfits nunca há-de cair no esquecimento. Assim, pode ser redescoberto e reavaliado vezes sem conta.

8/10

sábado, 29 de novembro de 2014

Dom Roberto (Ernesto de Sousa, 1962)





Um artista pobre, uma mulher com um passado doloroso, a ilusão, a decepção e o conforto da companhia. Cinema português no seu melhor e no início de uma nova fase, Dom Roberto representa os primórdios do Cinema Novo, com grande influência do neorealismo italiano.

IMDb

terça-feira, 25 de novembro de 2014

La Planète Sauvage (René Laloux, 1973)

Ao longo da minha vida já vi muitos filmes estranhos. La Planète Sauvage é um dos que mais sobressai e tem, no mínimo, lugar garantido no pódio. Só para dar uma ideia do que estou a falar, isto começa com uma mulher em trajes do paleolítico a correr desalmadamente com um bebé entre os braços por uma floresta espinhosa, até que chega a uma colina e uma mão azul gigante lhe dá um sopapo e ela cai. A cena repete-se, de seguida pedras esponjosas rodeiam-na, setas caem à sua volta, e acaba por ser agarrada, elevada a uma altura considerável e largada, estatelando-se no chão. De uma distância maior, verificamos que foram três crianças alienígenas com aspecto aquático (apesar de não se ver uma gota de água em lado nenhum), barbatanas no lugar das orelhas e 20 metros de altura que a mataram, deixando o filho humano (aqui denominados Oms) órfão.

O jovem Tiwa adopta-o, como alguém escolheria uma formiga para animal de estimação, pois no planeta dos Traags somos considerados uma espécie sem inteligência e que se multiplica rapidamente. A animação de La Planète Sauvage, produzido na Checoslováquia, um país onde o talento para o género ainda não ocupa o lugar devido na História do cinema, é tão psicadélica como a banda sonora roqueira de Alain Goraguer. Paisagens ermas e pejadas de plantas invulgares são o habitat natural de uma civilização intelectualmente avançada, mas dominada pelos dogmas da Meditação.

Apesar das dificuldades em se perpetuarem, acham-se superiores e nada querem aprender com os humanos, chegando a ser desconfortável a forma como os subjugam, claramente subestimando-os. Quando o bebé, entretanto baptizado de Terr, se torna adulto, foge com uns phones que educam os Traggs jovens, gravando conhecimento directamente no cérebro, e encontra um grupo de dissidentes que habita num parque. Por uma vez, os humanos são os ameaçados e têm de encontrar uma forma de ganhar o seu espaço e direitos, nem que tal signifique uma guerra com aparente disparidade de recursos. Pelo meio de tanto sci-fi surrealista está essa premissa continuamente actual de luta contra os preconceitos e a marginalização. A originalidade de La Planète Sauvage é inegável, e, mesmo nem sempre me sentir captivado por um estilo tão bizarro a todos os níveis, a criatividade do realizador não deixa de surpreender.

7/10

terça-feira, 11 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Interstellar (Christopher Nolan, 2014)

Interstellar reforça o estatuto de Christopher Nolan como o realizador que devora mais artigos da Wikipédia. Depois de elucubrações sobre sonhos tão intricadas que exigiram uma personagem, a de Joseph Gordon-Levitt, cujo único propósito era explicar o enredo em Inception (apesar disso, destaca-se pela intensidade das sequências de acção diversificadas e simultâneas), eis que o seu regresso se proporciona por intermédio de um desejo de homenagear o seu filme preferido, 2001: A Space Odyssey, claramente expresso pelas pistas visuais espalhadas com insipidez e algo aleatoriamente, como emparelhar um plano de alguém no leito da morte com outro de alguém à deriva no espaço ou dar personalidade a robôs de configuração monolítica.

Quando se atinge um equilíbrio tão meritório entre dinâmica narrativa e eficiência técnica como aconteceu em The Dark Knight compreende-se que comece a borbulhar um sentimento de audácia. Bandas desenhadas parecem, depois de tanto sucesso, cada vez menos o limite daquilo que se pode explorar com os recursos à disposição e a mente divaga para assuntos do subconsciente ou da ciência que não se ouve falar no cinema, apesar de preocuparem figuras de QI muito elevado, como wormholes, viagens no tempo e a lei de Murphy. Não quero ridicularizar tal desejo, aliás muito louvável, mas se há adágio adequado para Interstellar é o princípio de Peter, segundo o qual um trabalhador só pode ser promovido até ao seu nível de incompetência.

Matthew McConaughey é um ex-piloto e engenheiro agora remetido à agricultura, como grande parte da humanidade, ou assim somos levados a crer. Estamos situados num futuro não muito distante em que a população mundial regista uma curva descendente e os recursos naturais estão em falência. Existe paz, só que exige minimalismo nos modos de vida. Imagens de campos intermináveis de milho e tempestades de areia são entrecortadas por testemunhos com ar documental de idosos sobre os tempos difíceis, que havemos de perceber que pertencem ao futuro, naquela que é a primeira má decisão: isto é pura ficção e bastante pessoal até, por isso ninguém quer saber de humanos anónimos se a história também não quer.

Sucedem-se três quartos de hora do quotidiano, tão normal quanto possível nestas circunstâncias e considerando que a matriarca morreu com cancro, da família de Cooper, que inclui um filho mais velho, uma filha mais nova e o sogro. A química entre o pai e a rapariga é carinhosa; o primeiro prefere educar a segunda para ser audaciosa e não se conformar com o pouco que tem e muito menos a acreditar num sistema de ensino aparentemente tão asséptico e anormal que nega as alunagens dos anos 1960 numa altura em que há tecnologia suficiente para enviar todos os alunos das redondezas ao Mar da Tranquilidade e voltar, se bem que isso não aconteceria devido à contenção de custos generalizada.

Precisamente por essa razão, a NASA passou à clandestinidade, operando agora numa base secreta que, graças a circunstâncias bizarras posteriormente esclarecidas, com toda a certeza devaneadora tornada constante ao longo do filme, os dois descobrem. A iminência do fim do planeta Terra é relatada com grandes ornatos verbais, incluindo o sempre credível sotaque britânico de Michael Caine, e Cooper torna-se imediatamente o homem adequado para pilotar um foguetão que vai ser atirado por um wormhole para procurar o melhor poiso para onde a nossa espécie possa emigrar ou que possa popular com o esperma e os óvulos que vão na bagagem, dizendo-se então adeus aos que restam aqui em baixo na parvónia.

O critério nas três missões anteriores de reconhecimento havia sido a falta de laços emocionais dos astronautas, contudo agora é diferente, apenas porque Nolan tem de meter um drama movido por uma boa dose de culpa pelo meio. Não é comum inserir um suplemento tão caseiro a um espectáculo de ficção-científica da dimensão que Interstellar anuncia; até que ponto isso resulta é discutível. O protagonista é egoísta ao ponto de se julgar indispensável e deixar os seus rebentos órfãos, já que o trabalho é afectado por percepções diferentes da passagem do tempo, explicadas com excertos da teoria da relatividade (a sério, liguem o WiFi e vão consultando a Wikipédia), e a miúda ao ponto de não se despedir do pai.

Murphy envelhece ao longo do filme e exprime unicamente ressentimento por se terem separado desta maneira. Por conseguinte, a partir do momento em que levantamos voo pela primeira vez só o visual e a acção podem despertar interesse. Remetendo para as naves em baile no vazio da obra de Kubrick, o astro oceânico de Solaris e as paisagens gélidas de Oblivion, temos alguns planos razoáveis, encurtados pela necessidade de se recitar outros manuais científicos. Mais uma vez se prova que o realizador é, no máximo, um óptimo tarefeiro, que não tem olho para acompanhar a grandiosidade dos conceitos que o fascinam, não se podendo esperar qualquer virtuosismo vindo detrás da câmara. Dêem-me um Alfonso Cuarón sobre isto, por favor.

Posto isto, é incontornável que há boas decisões entrementes. Já vimos os treinos a que os astronautas são sujeitos até à exaustão, pelo que se agradece que tenham sido cortados, McConaughey é muito carismático e, no fundo, fico contente que alguém tenha tentado fazer um filme sobre a extinção humana que não se resuma a um meteorito se estatelar contra nós. Interstellar é confuso e desequilibrado, ainda que minimamente original. Acho que toda a gente ficaria grata por dedicar o seu dinheiro e trabalho para um projecto global de salvação coordenado pela NASA quando já se conhecem três planetas potencialmente adequados para o futuro, rendendo a clandestinidade da agência à irrelevância, mas tudo bem.

O que vão ler de seguida pode advir de uma tendência para o cinismo ou para o pragmatismo deste crítico cuja opinião escolheram ler. Tive de desistir do filme quando, no meio de tanto malabarismo com conceitos grandiosos de áreas exactas como a física e a matemática, sobe ao palco central… o amor. A filha do professor Brand só quer saber de uma das expedições pioneiras, a de Edmunds, porque o ama, declamando um longo discurso em sua defesa, com um palavreado ranhoso que só confirma a suspeita de Cooper e do espectador mais racional: estas pessoas não têm a mínima noção da importância do que estão a fazer. Qual amor? Murphy não gosta do pai. Ele nem se lembra da esposa. O filho acaba esquecido. Brand não vive a sua paixão.

A ironia suga Interstellar para um buraco negro na argumentação. Como apoiar personagens que comprometem com tanta gravidade o seu propósito? O pior é que a melhor decisão seria precisamente ir primeiro ter com Edmunds, por ter transmitido os melhores dados. Que trapalhada. A viagem acaba com um “obrigado e podes ir para o caralho, que eu sou uma celebridade e quero morrer em paz com a parte da família que não me abandonou”. Tem etapas únicas, sim. O custo é uma seriedade desmedida e imprecisa. Nolan tenta ser Kubrick, quando lhe falta a respectiva objectividade. Tenta ser Tarkovsky, quando não compreende a dimensão do humanismo deste. Mais valia filmar em nome da acção sem compromissos.

4/10

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Barefoot Gen (Mori Masaki, 1983)

Já me perguntaram qual é o filme que eu considero ser o mais deprimente de sempre. Como é habitual quando se exige uma resposta tão definitiva, lembro-me sempre de várias opções. Requiem For A Dream, 21 Grams, Amour, Breaking The Waves, Come And See ou Equus são alguns que, por regra, me vêm à memória. Agora tenho mais um para adicionar à lista: Barefoot Gen. Se estão a pensar como é que uma animação, normalmente associadas a agradáveis memórias de infância, pode ter esse efeito, lembrem-se que estou a falar de uma entrada em território japonês, donde vêm 74% das maiores bizarrias produzidas a nível mundial (a estatística não é minha, nem de nenhuma fonte credível).

Tendo em conta que não há tentáculos a esventrar ninguém ou crianças em poses eróticas vestindo lingerie, até se pode dizer que Barefoot Gen não se destaca pela perversidade por comparação àquilo a que estamos habituados no ocidente. Aqui o que choca é mesmo a transformação, sem compromissos, de uma história familiar colorida e aparentemente cliché, com o aspecto de um episódio da Heidi, no maior inferno à superfície da Terra registado até hoje. Isto porque o jovem descalço do título vive, com os seus pais e três irmãos, dos quais o mais novo ainda está na barriga enorme da mãe, na cidade de Hiroshima. E a história passa-se em 1945. Começam a perceber onde isto vai chegar?

Gen levaria uma vida normal, a ajudar o pai nos campos de trigo, a chatear Eiko e a brincar com Shinji, se não fosse a constante lembrança de que o maior conflito da História se espalhava perigosamente pelo Pacífico, acima de tudo graças à insistência do imperador Hirohito em provocar os EUA, manter a aliança anti-comunista com a Alemanha e liderar o Japão com uma ditadura irresponsável. Um pouco como em To Kill A Mockingbird, o mundo das crianças vai passando lentamente para segundo plano, engolido pelo mundo dos adultos, a sua falta de sensibilidade e as suas noções distorcidas de justiça. Sobra uma réstia de esperança, mas o caminho é indescritivelmente duro.

Quando, no dia 6 de Agosto, um B-29 cruza o céu sobre si, Gen está a chegar à escola. O porão abre-se, algo cai e, de repente, o tempo pára: uma explosão de cores toma conta do ecrã e parece prolongar-se por horas, apesar de o impacto ser instantâneo e a destruição demorar segundos. O realizador Mori Masaki faz prédios inteiros levitar no meio de chamas ainda maiores e os corpos de milhares de pessoas dissolvem-se em câmara lenta, numa sequência de puro horror. Neste momento, os filmes da Disney e os animes infantis dos anos 70-80 passam a ser um rumor do passado e o poder da animação ganha dimensões inimagináveis. Nunca em live action se conseguiria retratar a detonação da bomba atómica de forma tão vívida.

Isto é apenas o início de um pesadelo. Gen e a sua mãe grávida sobrevivem, enquanto o resto tem um destino macabro. O nascimento do bebé precipita-se nestas condições precárias, as consequências da radiação são quase imediatas e a desumanidade de um exército derrotado no tratamento dos seus conterrâneos prolongam o sofrimento. Lembrei-me de Empire Of The Sun, que também conseguia transmitir a sensação de o mundo ter acabado ali; nenhuma construção ficou de pé e anda-se à deriva dias seguidos, apenas procurando satisfazer as necessidades básicas. Este testemunho é um importante e surpreendente manifesto anti-guerra, mas é preciso ter estômago. Fica o aviso… e a vénia.

9/10

sábado, 1 de novembro de 2014

Candyman (Bernard Rose, 1992)

Logo à cabeça, duas grandes razões para ver este filme de terror: Clive Barker e Bernard Rose. Candyman parte de uma ideia original do primeiro, um dos maiores escritores vivos do fantástico, que também passou com sucesso para o cinema com Hellraiser, e foi realizado pelo segundo, o mentor do criminosamente subestimado Paperhouse. Quando os créditos iniciais começam a rolar e, de fundo, ouvimos a mais assustadora trilha de Philip Glass, dominada pelo órgão, e imagens de Chicago vista de cima, numa espécie de distorção da abertura de West Side Story, passando-se logo a seguir para um zoom in numa colmeia com a voz distorcida da entidade do título a falar em derramar sangue, fica-se logo com pele de galinha e colado à cadeira.

Helen Lyle está a elaborar a sua tese, sobre mitos urbanos. Fascinada com a história de Candyman, um espírito assassino que aparece com um gancho afiado no lugar duma mão, investiga, sem zelo, a sua ligação ao problemático bairro Cabrini-Green, um projecto de habitação enorme. Apesar do cenário citadino intimidante, a história remonta ao tempo da escravatura, dando ao filme um óbvio subtexto de perpetuação do racismo na América. Helen vive num prédio de luxo mas feito com a mesma planta, contacta com uma mulher da sua idade que é mãe solteira, num jogo de espelhos a nível do argumento, e, no fundo, temos um afro-americano demoníaco a perseguir uma branca estudiosa.

Com vários mal-entendidos e encontros sobrenaturais à mistura, a violência começa a suceder-se e, ao fim de meia hora, o rumo passa a ser completamente imprevisível, bem como o comportamento de Helen, que primeiro é espancada, depois é acusada de matar um bebé e ainda sofre outros reveses a nível pessoal. Como se já não bastasse ser das mulheres mais bonitas a aparecer no cinema, Virginia Madsen dá uma das melhores interpretações de sempre. De sempre. A sua personagem leva tanta porrada, física e psicológica, e a actriz passa por tantos estados de humor com uma credibilidade tal que não me resta alternativa senão fazer esta afirmação. O strip forçado na esquadra da polícia é brutal, porque o procedimento assim o exige, mas está no ar um tom de condenação e humilhação pesadíssimo.

A figura de Anthony Todd como Candyman é intimidante e seria difícil imaginar outro actor no papel, até porque as sequelas solidificaram essa imagem de um gigante com olhar ameaçador. Há alguns piscar de olhos a Hitchcock: o tema das falsas acusações, o crescendo de tensão com reviravoltas inesperadas e até a protagonista loira. Rose consegue também ser extremamente criativo com a selecção dos planos e dar ao filme um tom cruel quando necessário, para além do ambiente de terror urbano. Se, depois de Psycho, entrar no chuveiro nunca mais é a mesma coisa, depois de Candyman olhar para o espelho também deixa de ser tão inócuo quanto isso.

8/10

TCN Blog Awards 2014

Aproxima-se mais uma edição dos TCN Blog Awards, a quinta, para ser mais preciso. O Cinema Notebook volta a destacar o melhor que por aí anda na blogosfera do grande e pequeno ecrãs, com a ajuda de uma academia anónima.

Os nomeados nas 13 categorias foram conhecidos ontem e O Narrador Subjectivo foi um dos contemplados, pelo quarto ano consecutivo, desta feita para Melhor Blogue Individual. Obrigado a todos os que partilham comigo a paixão pelo cinema e encontram valor no que escrevo!

As votações são abertas ao público e encontram-se espalhadas sondagens por vários blogues. Até dia 25 de Dezembro podem votar em mim (cof cof) no Split Screen. Em simultâneo, podem votar aqui para Melhor Novo Blogue, na barra lateral direita. Quanto às outras, confiram aqui.

Saudações!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

TRAILERS: The Conjuring (James Wan, 2013)

Agora que Annabelle está nos cinemas, tempo de recordar um dos grandes filmes de terror dos últimos anos, no qual já se fazia alusão à boneca demoníaca, mas que conta a história de uma assombração na casa duma família comum. Investigadores do paranormal, o casal Warren, entram em cena e, para resolver o caso, têm de recorrer a medidas extremas. As viagens à cave são autênticas montanhas-russas.

sábado, 25 de outubro de 2014

Diary Of A Mad Housewife (Frank Perry, 1970)

Diary Of A Mad Housewife é produto do seu tempo, uma altura em que o dilema entre resignar-se à vida de dona de casa da classe média-alta ou impor uma atitude activa face ao trabalho e de partilha de responsabilidades era vincado, especialmente para um casal de novos-ricos que se tentava inserir em determinados círculos, sentindo por isso uma necessidade redobrada de ser conservador para ser aceite, ao invés de aderir a modernices como a emancipação das mulheres. Para os Balser, tudo isto é areia a mais para a sua camioneta.

Jonathan (Richard Benjamin) transforma-se (isto se quisermos acreditar que não o era, apesar de o filme não dar espaço para optimismos) num pretensioso irritante, daqueles que passa a vida a berrar pela esposa em casa e que a abandona em festas só para dar duas de treta com um famoso qualquer ou para lamber as botas a alguém com mais dinheiro do que ele. Tina (Carrie Snodgress) deixa-se arrastar para um marasmo do qual não tem coragem de abdicar, por ser minimamente confortável, não estabelecendo limites com o marido nem sequer com as filhas, a quem está a dever uns tabefes nas trombas, em vez de as encher de comida e roupas pirosas. Assim, faz o que sensatamente se deve fazer na sua condição: comer, calar e… trair? Uma relação extra-conjugal tem o efeito de despertar em Tina uma réstia de adrenalina, mas não de amor-próprio ou confiança, não fosse a intenção do escritor George (o primeiro papel de Frank Langella) única e simplesmente o sexo, como realça repetidamente, quando ela está é primariamente carenciada a nível afectivo.

Em Diary Of A Mad Housewife não há refúgios; a casa é um inferno, os eventos a que os Balser vão roçam a tortura e mesmo a pequena hipótese que Tina tem para saborear algum prazer, e pela qual corre riscos, se revela uma fonte de humilhação. Apesar de ser um filme muito à anos 70, afinal temos um concerto de Alice Cooper que acaba numa luta de almofadas, não deixa de ser bastante sofisticado. A frieza e o cinismo que rodeiam a Mrs. Balser são difíceis de engolir mas, com dois momentos finais anti-climáticos, ninguém nos pede para desculpar ou compreender quem quer que seja. No fundo, que pode ser mais deprimente que a indiferença?

7/10

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Europa Europa (Agnieszka Holland, 1990)

No que toca a histórias de sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial esta não estará ao mesmo nível dos monumentais Come And See e The Pianist, mas é, sem dúvida, das mais peculiares... com o aliciante de ser verídica. Sobre um rapaz judeu que sonha ser actor e, graças a uma incrível sucessão de eventos, passa por um orfanato soviético e por um internato da juventude hitleriana. Tem esta banda sonora absolutamente genial.

sábado, 18 de outubro de 2014

Disconnect (Henry Alex Rubin, 2012)

Apesar da infinita quantidade de informação, histórias e audiovisual adicionados à internet diariamente, fazer um filme sobre este meio tem-se revelado mais difícil do que seria de antever. Ou serve de pano de fundo para thrillers banais (Untraceable), para comédias românticas sobre troca de emails e mensagens que uns anos antes teriam sido enviadas por correio (You’ve Got Mail) ou para ficção científica demasiado metafísica (Matrix); raramente se encontram personagens com conflitos verossímeis e que apenas existem porque as novas tecnologias têm as suas vantagens e desvantagens, e estão presentes nas nossas vidas de formas mais intrusivas e condicionantes do que às vezes pensamos. Disconnect é, apropriadamente, um mosaico, tal como as janelas no ecrã dum computador, abertas para paisagens diferentes de zeros e uns. Várias famílias são reunidas pelas circunstâncias do mundo moderno, em que tudo aparenta estar mais próximo, acessível e disponível, se descontarmos a maior distância emocional. Os Boyd negligenciam a educação dos filhos, presos à necessidade de manter o estatuto social através do trabalho e das aparências, ignorando o talento artístico de Ben, adolescente solitário que é manipulado por dois colegas com um perfil de Facebook feminino falso a tirar uma foto nú, que rapidamente se espalha pela escola, tornando-o alvo de chacota. Os Hull vêem o seu dinheiro usurpado sabe-se lá por quem, via informática, como se já não tivessem mais em que pensar depois da morte do seu bebé. Harvey oferece lar, comida e protecção paternal a menores sem rumo que se disponham a realizar actos sexuais em frente a webcams. O realizador/argumentista Rubin vai ligando todos estes (e mais) aos poucos e experiências reais e virtuais chocam. A desconexão do título é súmula do afastamento das personagens, mas também apelo ao estado offline, como quem diz “não se prendam aos computadores, tomem consciência do que vos rodeia e apreciem as pessoas que estão convosco”. Pouco dado aos virtuosismos de outros mosaicos recentes, que na ânsia de replicarem o sucesso de Magnolia costumam resvalar para um fascínio conceptual que abafa a mais simples emoção (The Nines, The Air I Breathe, Crossing Over, The Informers, etc.), Disconnect consegue ser negro, provocador e funcional.

8/10

domingo, 12 de outubro de 2014

CURTAS: WTC Haikus (Jonas Mekas, 2010)


Constantemente referido como o padrinho do cinema avantgarde americano, Jonas Mekas tem uma história de vida preenchida. Nascido na Lituânia, esteve preso num campo de trabalho nazi, estudou filosofia depois da guerra e, já emigrante no outro lado do oceano Atlântico, começou a gravar o seu dia-a-dia com câmaras rudimentares, a descobrir o cinema experimental e a escrever sobre este. Amigo de Andy Warhol, Lou Reed, entre outros, e inserido num mundo de intelectuais pop em expansão, começa a produzir as suas curtas e a abrir caminho para uma nova geração de realizadores underground que desafiariam os limites da forma e do conteúdo dos filmes na altura. Hoje, a maioria dos seus trabalhos parecem revelar alguma nostalgia por esses tempos idos e são, com frequência, compostos por fragmentos de gravações antigas, dos quais WTC Haikus é, para mim, um dos mais interessantes. Residente nova-iorquino de longa data, a evocação de um grande símbolo da cidade, desaparecido de forma trágica nos ataques terroristas de 9/11, como o World Trade Center, por esta via, acompanhada apenas por um trecho de piano simples, é muito emotiva. Hoje com 91 anos, Mekas continua no activo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Basket Case (Frank Henenlotter, 1982)

Basket Case destaca-se da miríade de filmes de terror com baixo orçamento que se multiplicaram durante os anos 1980 pela sua história. Sinceramente, casas assombradas como em The Amityville Horror e assassinos sem rosto ao estilo de Friday The 13th já todos vimos. Agora, um tipo bem-parecido e pacífico como Duane Bradley (Kevin Van Hentenryck) a transportar uma cesta de piquenique por uma Nova Iorque nocturna e decrépita que esconde uma aberração em forma de pedregulho com dentes que mais se assemelha a um Geodude carnívoro (desculpem a referência a Pokémon, não me contive) e que solta para matar uma série de médicos incompetentes que tiveram algo a ver com o seu passado, isso já não é assim tão comum.

E o que é, afinal, esta espécie de tumor tumefacto que, sabe-se lá como, sobrevive, aparenta ter força sobrenatural nos seus pequenos braços e mandíbulas e responde pelo nome de um demónio hebraico? O irmão siamês de Duane – obviamente! A explicação vem a meio do filme, regada a álcool, em jeito de piada, feita a uma prostituta, num bar bolorento (acho que já escrevi isto milhões de vezes, mas não há mesmo melhor cenário do que a Big Apple, seja para que género for) e um longo flashback sucede-se, como em Casablanca ou Sleepaway Camp, para mostrar um passado memorável. Separados apenas aos 12 anos, partilharam uma infância de reclusão e rancor familiar.

Atormentado por ter gerado semelhante aberração, o pai balanceia sentimentos de nojo e dever, difícil quando, ainda para mais, perdeu a esposa no parto e tenta perceber até que ponto uma operação, que deverá custar a vida a um dos filhos, não será uma traição à sua memória e ao que construíram juntos. Finalmente, três experimentalistas da medicina oferecem-se para realizar o procedimento, com o único objectivo de tornar Duane num rapaz normal. Contudo, Belial vive e desenvolve um grande apetite por hambúrgueres e vingança. Basket Case é, no fundo, a expiação de um trauma de infância, mas o que se lhe poderá seguir? Que vida existirá para os irmãos depois da sua sangrenta vendeta?

Van Hentenryck é o mau actor que faz o filme resultar. Como é habitual, o bizarro e o humor andam de mãos dadas e nada melhor do que alguém tentar trazer a melhor dicção e reacções tão variadas quanto possível a cada situação. A cena em que Duane e a recepcionista Sharon se conhecem é fabulosa – ela lança gritinhos histéricos ao saber que ele ainda não tinha visitado nada na cidade; ele está ali para matar o patrão dela. O amor acontece. Aliás, a montagem inicialmente distribuída levou mesmo grandes cortes no gore para realçar o amadorismo cómico, mas Basket Case merece ser visto em toda a sua glória, com sangue a espirrar por todo o lado.

7/10

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

TRAILERS: Il Gattopardo (Luchino Visconti, 1963)

Trailer montado de forma simples e eficaz, com música e citações de grandes figuras do cinema. Relembrando um clássico de uma opulência, grandiosidade e profundidade ímpares. Uma saga familiar que coloco no patamar mais elevado possível, ao lado de The Godfather, Yi Yi ou The Best Intentions.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Only God Forgives (Nicolas Winding Refn, 2013)

O público e os críticos não souberam muito bem como receber Only God Forgives quando saiu. Os sinais são, efectivamente, confusos; se, por um lado, Ryan Gosling dá a cara por mais um filme de Nicolas Winding Refn, logo a seguir ao sucesso de Drive, que tinha um fio condutor bastante bem definido e apresentava convenções dos filmes de acção, como os interesses amorosos da treta (o amor é tão mais lindo quanto mais difícil for consumá-lo) ou os acidentes de carro exagerados pela indústria cinematográfica (há apenas um, que é criado mesmo para uma cena dum filme), de uma maneira lúdica e estilizada por um olhar europeu mais clínico, por outro lado aqui temos Gosling (Julian) a delirar com amputações, com a mesma gravidade que os sonhos de Max Payne tinham no videojogo com esse nome, e a única relação da personagem principal remotamente possível é criada artificialmente (não há sentimento, ele apenas paga a uma prostituta que vê com frequência para apresentar à mãe como namorada) para ser destruída logo de seguida, com a facilidade de uns berros e ameaças. Only God Forgives retém o desejo de brincar com géneros, tendo-o descrito o próprio realizador como um western no extremo oriente e com um anti-herói moderno, mas também está presente a herança do noir, no esquema polícia-e-ladrão, nos combates underground e nos biscates da máfia. Por agregar uma maior quantidade de elementos numa estrutura narrativa mais dispersa, o filme agarra menos que Drive, é mais frio, mais soturno, mais distante, mais violento, merecendo assim comparações com Valhalla Rising em igual medida às feitas com Drive. De um ponto de vista estilístico, temos aqui uma obra-prima; Refn aposta nos néons e nas lâmpadas coloridas dos clubes de strip para atingir um visual desconcertante, adequado à seriedade demente do tenente Chang, que inicia uma cruzada contra a família criminosa de Julian. Julga-se o salvador de uma cidade de pecado e deixa um rasto de sangue atrás de si. O motivo que inicia tamanha carnificina é algo aleatório e já vimos esta premissa centenas de vezes. Gosling está mais letárgico que enigmático, e não é possível assumir protagonismo quando aparece Kristen Scott Thomas como a matriarca white trash, sem escrúpulos ou papas na língua. Mas Only God Forgives vale, acima de tudo, pelo ambiente. É de cortar à faca. Ou à espada.

7/10

domingo, 28 de setembro de 2014

POSTERS: Bad Turn Worse (Simon Hawkins, Zeke Hawkins, 2013)

Um filme com um título comprido e memorável e um poster condizente... e depois mudaram o título para o insípido Bad Turn Worse (tirando isso, é um film-noir indie que vale a pena descobrir).

sábado, 6 de setembro de 2014

Path To Paradise (Leslie Libman, Larry Williams, 1997)

A administração de Bill Clinton ficará para sempre marcada pela impugnação do mandato, na sequência do escândalo Lewinsky, o que é sintomático da ingenuidade ou alheamento relativamente a questões mais sérias que um período de estabilidade social e económica como os anos 90 pode semear, copulado com o crescente poder de manipular a informação e de a disseminar rapidamente dos media. Em retrospetiva, devia ser embaraçoso para a América que todas as atenções tenham sido voltadas para um vestido com manchas numa altura em que o país devia estar grato pelo baixo desemprego, baixas taxas de inflação ou baixo crime atingidos entre 1993 e 2001… mas também atento para as movimentações no mundo árabe, em especial para as possíveis consequências de terem treinado e armado organizações terroristas, sem ideologia clara para além do caos e que prestavam vassalagem a ninguém.

O cúmulo dos ataques registados no dia 11 de Setembro de 2001 é que não houve falta de avisos, e aqui podemos chegar ao real nadir da passagem de Clinton pela Casa Branca: não autorizar a morte de Osama Bin Laden quando teve oportunidade para o fazer em 1999. O líder da Al-Qaeda já havia emitido por duas vezes apelos para uma guerra santa contra os EUA e patrocinado vários ataques bombistas. Um deles acontecera em 1993 no World Trade Center e é o foco deste filme.

Apesar de todo este contexto, Path To Paradise põe a política de lado e concentra-se em recapitular a preparação da detonação e as investigações do FBI, antes e depois, com grande precisão. Logo no início temos a imagem assustadora dos terroristas a treinar tiro ao alvo em Jersey City, com as Torres Gémeas em pano de fundo, do outro lado do rio Hudson. Todos eles frequentavam a mesquita do sheik Omar Abdel Rahman, um clérigo cego conhecido pelas suas posições extremistas contra o Ocidente, ou seja, também ele estava integrado na sociedade que odiava, como todos os intervenientes.

A atitude dos serviços secretos é a do deixa andar, mesmo quando têm um informador a avisá-los do que pode estar para vir, que dispensam por ele exigir 500 dólares por semana como compensação pelos riscos que estava a correr. Mais tarde são forçados a pagar-lhe 1 milhão e a fazê-lo desaparecer. Com clareza e detalhe, o argumento e a realização nunca perdem o rumo e escalpelizam a incompetência e as incongruências de ambos os lados, bem como as consequências das suas ações.

Para o espectador sobra um sentimento enorme de raiva, pois fica patente a ideia de que tanto o ataque de 1993 como o de 2001 (vendo o filme agora é impossível não estabelecer paralelos) podiam ter sido impedidos com o correto funcionamento das instituições, menos burocracia e melhores decisores. Também é verdade que a compulsão dos EUA de intervirem no que não deviam nem percebem precisa de terminar, mas não há defesa para bárbaros que matam contra um determinado estilo de vida enquanto usufruem do mesmo. O filme é profético na ameaça que deixa do risco de futuros atentados no solo americano em nome de Alá e da religião da paz, nomeadamente na última cena, onde um dos conspiradores é transportado pelo FBI de helicóptero sobre o WTC e diz “next time we’ll bring them both down.” Se calhar havia assuntos mais importantes que um broche ao presidente.

8/10

sábado, 30 de agosto de 2014

CURTAS: The Life And Death Of 9413, A Hollywood Extra (Robert Florey, Slavko Vorkapich, 1928)


Hollywood já é uma senhora velha, com velhos hábitos. A prova é esta curta avantgarde sobre um homem que chega ao burgo cheio de esperanças e ilusões e acaba como um extra de segunda categoria. O filme realça a superficialidade do cinema massificado com enorme criatividade.

domingo, 24 de agosto de 2014

The Killer (John Woo, 1989)

Apesar do sucesso que os filmes de acção costumam ter nas bilheteiras, o género é frequentemente menosprezado pela crítica. John Woo é, descontando a fase Hollywood no início do século, uma das excepções: A Better Tomorrow, The Killer ou Hard Boiled recolheram desde o início elogios pelo trabalho de câmara enérgico, a representação descomprometida da violência e a exploração dos códigos de moral, amizade e honra, por vezes ambíguos, pelos quais vive quem faz das armas o seu trabalho, seja de que lado da lei estiverem, para além do escapismo e da diversão que não deixam de oferecer.

The Killer em específico é o mais dramático. Yun-Fat Chow, colaborador frequente do realizador chinês, aparece como um assassino respeitado com ligações às tríades de Hong Kong, cujos sentimentos se intrometem no exercício da sua profissão quando se vê envolvido num banho de sangue num bar e, para além de matar umas dezenas de malfeitores com um único carregador, deixa quase cega uma cantora que lá trabalhava. Cada vez mais alheado, decide tentar reparar os estragos e ajudá-la com tratamentos pagos e a promessa de uma cirurgia correctiva, o que, por sua vez, o faz pensar que está na hora de se retirar.

Claro que não será assim tão fácil, pois para além de um detective estar na sua peugada, também o líder da máfia não vê com bons olhos o quebrar de uma ligação que deve ser para toda a vida e o seu amigo mais antigo da velha guarda trai-o. Essas três personagens secundárias representam três níveis diferentes do espectro da ética, o primeiro tem padrões elevados e não se importa de admitir que admira Ah Jong pela sua tenacidade, o segundo não tem escrúpulos e o terceiro anda na corda bamba, inseguro das atitudes que tem de tomar. As ameaças e os confrontos armados são muitos e intensos.

Woo usa a câmara lenta ciente da visceralidade mas também do lirismo dessas cenas e o efeito é fantástico. Há uma set-piece que vai dum assassinato público para uma perseguição de barco para fogo cruzado numa praia para uma perseguição de carro para um stand-off no hospital – not bad. Apesar de tudo isto, o filme é minado pela lamechice da banda sonora, por alguns clichés dos policiais de Hong Kong, pela forma como a cantora é protegida como uma criança e pela falta de sal dessa personagem. Em 1989 talvez passasse despercebido. Hoje, podemos dizer que Hard-Boiled ou Face/Off são mais equilibrados.

6/10

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

POSTERS: Jodorowsky's Dune (Frank Pavich, 2013)

Não tem data de estreia prevista para Portugal, mas o documentário sobre um filme que nunca foi, Dune por Jodorowsky, tem captado a atenção dos cinéfilos mais atentos. O que poderia ter sido deste filme se tivesse sido realizado pelo mexicano, em vez de David Lynch? Para começar, teria contado com Orson Welles e Salvador Dalí. Outros grandes artistas estiveram envolvidos na pré-produção. Para saber mais, só vendo o documentário! Por aqui, publico três grandes posters a ele relativos.




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

On The Road (Walter Salles, 2012)

O impacto de On The Road é incomensurável e não se limita à literatura. A vivacidade da escrita de Jack Kerouac e os seus relatos de uma juventude despreocupada, libertina mas culta, constantemente a bordo de viagens pelo país ou pelos delírios de todas as drogas possíveis e imaginárias, alargou o imaginário de uma América vasta, atravessada por estradas sem fim à espera de serem desbravadas. Se não fosse On The Road e a geração beat do pós-guerra os The Beatles não teriam o mesmo nome, Easy Rider não teria sido possível e talvez nem os hippies teriam aparecido pois faltar-lhes-ia esta referência dos anos 50.

Desde que saiu, em 1957, que a possibilidade de uma adaptação cinematográfica era explorada. O próprio autor chegou, na altura, a tentar envolver Marlon Brando para ver se o projeto ganhava corpo, mas não se concretizou. Francis Ford Coppola, Gus Van Sant e Joel Schumacher foram, ao longo dos anos, apontados como possíveis realizadores, sendo que o primeiro até detinha os direitos do livro. Curiosamente, este símbolo tão grande da cultura americana materializa-se agora finalmente pelas mãos de um brasileiro, Walter Salles, que com The Motorcycle Diaries no currículo não é nenhum estranho a road movies.

Esta dificuldade em transportar On The Road para outro meio é compreensível: escrito em cerca de 3 semanas num longo rolo de papel, com uma linguagem fluída e cheia de calão, o livro vive das palavras, da falta de história e da descrição de pessoas, paisagens e ambientes. Que o filme consiga apresentar sintonia com o seu ritmo e energia já não é nada mau e, de resto, o próprio realizador parece desculpar-se, ou, no mínimo, pedir para termos expectativas realistas, quando usa uma das personagens, o erudito Old Bull Lee (curta mas agradável aparição de Viggo Mortensen) para reforçar que “as traduções são traições”.

Ao argumentista Jose Rivera calhou então o trabalho mais ingrato. Apesar de ter tomado algumas liberdades quanto às relações de algumas personagens, esses atalhos em nada encobrem a mentalidade excessiva de Sal, Dean ou Marylou (se há alguma crítica justificável, é a falta de carisma de alguns dos actores, Sam Riley excluído, claro), que tentam a todo o custo preencher o vazio que percepcionam ser as suas existências. Essa fúria de viver é jubilosa e triste ao mesmo tempo, e talvez ainda mais sexualizada do que no livro. Tal como nos poemas de Allen Ginsberg (a inspiração para Carlo), há uma rejeição dos tabus.

É verdade que as personagens se banham em hedonismo, mas On The Road é mais do que uma sucessão de cenas de sexo, festas e viagens de carro, é uma geração à procura da sua voz e a encontrá-la sem ter noção, é uma carta aberta à grandeza e franqueza da América, mostrando que o país responsável pelo capitalismo selvagem e os males que daí advêm, ontem como hoje, é o mesmo que nos deu Duke Ellington ou o movimento dos direitos civis. Após 50 anos de gestação, este filme é tão bom quanto poderia alguma vez ser. Sinceramente, acho que, neste caso, é um dos melhores elogios possíveis.

7/10

terça-feira, 12 de agosto de 2014

FOTOGRAFIAS: Robin Williams

O merecido Óscar em 1997 

Artista de rua em 1979, Nova Iorque 

Foto promocional de Father's Day (1997)

Com o amigo Christopher Reeve 

Com Terry Gilliam no set de The Fisher King 


Inimitável.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

The Devil Probably (Robert Bresson, 1977)

Apresentar Bresson a quem não conhece já é uma tarefa difícil, quanto mais descrever o seu estilo de forma interessante. De facto, passam agora 30 anos desde a estreia do seu último filme, L’Argent, e a divisão que gera nos espectadores continua a ser tão acentuada como era na altura, aliás, como foi desde o início da sua carreira. Se, à partida, um realizador que se notabilizou pelo perfeccionismo austero, uso de atores não profissionais e pela ausência de pistas ou justificações psicológicas para o comportamento das personagens não parece particularmente atrativo, a verdade é que o seu poder de síntese escrutina temáticas como a moralidade, a justiça e a solidão com uma intencionalidade sem paralelo.

Nos filmes de Bresson nenhum plano é liso o suficiente para o intuito ser percepcionado em todo o seu alcance no momento em que o vemos. Se considerarmos que a paciência é um pedido razoável que qualquer artista tem o direito de fazer para desenvolver as suas ideias, e eu acredito que esta é uma capacidade que o cinema ajuda a trabalhar mais do que exige de antemão, com o devido conhecimento de fundo uma experiência que o facilitismo pode rotular de frustrante vai-se tornando progressivamente enriquecedora.

Claro que é preciso estar do outro lado a puxar os cordelinhos alguém competente na tarefa de transportar as suas dúvidas para o público e é extremamente difícil transformar o individual em algo universal. São muitos os que tentam e falham, talvez em igual quantidade aos que são apelidados de pretensiosos. Em abono da verdade, correm esse risco. Mas quando, por correcto alinhamento dos planetas ou outro fenómeno astrológico qualquer, há sintonia intelectual entre o espectador acessível e o realizador esclarecido, o filme resulta. E, melhor ainda, se a resposta é visceral ao ponto de dispensar verborreias como esta, então aí é que o cinema acontece.

Segundo o próprio Bresson, a motivação para fazer The Devil Probably adveio dos desperdícios incentivados pelo consumismo exponencial que as sociedades ocidentais tinham (e têm) tornado regra, onde o “ter” secundarizou o “viver” e massificou a indiferença. O seu pessimismo quanto ao modernismo, cada vez mais evidente à medida que os anos avançaram, encontra o protagonista perfeito no adolescente Charles, nascido e criado num mundo em rápida mudança, de muitas descobertas, mas que oferece poucas respostas. Do início ao fim, ele procura significado para a sua realidade na política, no ambientalismo, na arte, na religião, no sexo e na psiquiatria, nunca perdendo o olhar vazio e sem expressão.

Na superfície, pouco acontece e estranha-se até alguns planos. Em segunda análise, torna-se esmagador o efeito de alienação e raiva reprimida que Bresson desenvolve, como uma elegia a quem continuamente tenta estabelecer uma ligação com o mundo e deixar o estado de isolamento, seja físico (como em A Man Escaped) ou mental, a que parecem condenados. Aqui, a desilusão é total e todas as cenas estão desprovidas do mínimo de esperança, como se fosse inevitável ceder perante a evolução do mundo que rodeia estes jovens. Os dilemas de Charles fazem-no adotar um discurso de rejeição de tudo e mais alguma coisa, mas advêm de uma clareza de visão invulgar ou de um fatalismo circunspecto?

Apenas possível na ressaca do Maio de 1968, The Devil Probably serve-se da primeira geração nascida numa Europa ocidental com a paz que impera até aos dias de hoje para se desdobrar num existencialismo sentido e sagaz, que não vê soluções em revoluções, enriquecido pela pureza da redução do cinema ao básico, pela sua estética fria e subtil, e que, através de uma brevidade característica, revela, para quem estiver disposto a prestar atenção, subtextos provocadores e cheios de ambiguidades. Continuamente aperfeiçoando a precisão do seu trabalho, o realizador responde inequivocamente contra a artificialidade do que chamava de teatro filmado e atinge neste ponto uma linguagem tão abrupta que não deixa ninguém indiferente.

10/10