quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ante-estreia de Mission Impossible: Rogue Nation

Dois dias antes da ante-estreia nos EUA do novo filme com Tom Cruise como o incontornável Ethan Hunt, aconteceu a ante-estreia em Leça da Palmeira e claro que, tendo recebido convite, tive de aproveitar.

Para além de a espectacular sala IMAX do MarShopping ser um deleite para qualquer cinéfilo, este novo tomo do Mission Impossible é talvez o mais bem escrito desde o primeiro e o mais bem filmado de todos (Robert Elswit na fotografia, há que lembrar).


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Europa Europa (Agnieszka Holland, 1990)

A Segunda Guerra Mundial sempre foi e sempre será terreno fértil para o cinema; ao longo dos anos, já saíram filmes sobre todas as maiores batalhas, sobre todos os mais influentes protagonistas, de todas as perspectivas, com mais ou menos realismo, com mais foco sobre os líderes, sobre os soldados ou sobre os inocentes. Ainda assim, as surpresas surgem quando menos se espera e, mesmo não tendo propriamente passado despercebido na altura de estreia, como atesta a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Adaptado, este Europa Europa é uma agradável descoberta.

Em questão, uma história de sobrevivência inverosímil mas verídica. Solomon Perel, judeu alemão, muda-se para a Polónia com a família quando o antissemitismo nazi começa a envenenar o dia-a-dia, ainda antes do conflito romper. Quando Hitler manda as suas tropas avançar rapidamente para leste, o rapaz e um dos irmãos mais velhos separam-se dos pais, por vontade destes, em direção à Rússia, para lá procurarem refúgio antecipadamente. O problema é que também eles perdem, no meio de tantos migrantes, e Solomon acaba sozinho num orfanato soviético.

Dois anos passam, tempo suficiente para absorver a cultura e a língua, adorar Estaline e esquecer Deus. Numa cena com iguais porções de comédia e incredulidade, outro rapaz declara-se, em plena sessão de leitura sobre a glória do comunismo, crente. Uma partidária febril desafia-o então a rezar por uma chuva de rebuçados na cantina. Relutante, ele cede e nada acontece. A miúda diz-lhe para fazer o mesmo, desta vez chamando pelo seu líder. De repente, de uma grelha no tecto, alguém escondido num sótão deixa cair dezenas de doces, para gáudio de todos os alunos. O culto de personalidade no expoente máximo.

Contudo, a guerra ainda tem muito para dar. Os alemães avançam, Solomon é preso e tem de se habituar a mentir para continuar vivo. Bilingue, é aceite num pelotão da Wehrmacht por ser um óptimo tradutor. Este nível de inteligência só é possível pertencendo à raça ariana, certamente, e a sua identidade raramente é questionada, tal a sua importância. O jovem sempre desejara ser actor, mas nunca imaginara que ser outra pessoa custasse tanto… e o pior nem é esconder a circuncisão na linha da frente dos companheiros de batalha. O maior problema é quando um coronel o adopta e envia para um internato no Reich.

Europa Europa é constituído por episódios de uma ironia extrema – Solomon tem a sorte e a habilidade de escapar da morte muitas vezes e de formas incríveis. Só que e a sua família? E os outros judeus que habitavam na Alemanha e na Polónia, por exemplo? Julie Delpy aparece, com 20 anos, a fazer de adolescente iludida e com uma dobragem horrível, e Marco Hofschneider tem o papel de uma carreira. A acompanhar este grande argumento, o melhor tema de Zbigniew Preisner, compositor frequente de Krzysztof Kieslowski. Praticamente só boas razões para recordar este filme.

8/10

domingo, 5 de julho de 2015

Coherence (James Ward Byrkit, 2013)

Normalmente associa-se a ficção científica a viagens intergalácticas, fatos de treino futuristas, inovações tecnológicas e, de uma forma geral, efeitos especiais tão pesados que fariam um computador normal engasgar-se todo durante a fase de produção. Contudo, não precisa de ser sempre assim, afinal as maiores descobertas raras vezes extravasam das paredes limítrofes de laboratórios, salas de reuniões, escritórios, bibliotecas, universidades ou centros de pesquisa. Um filme como Coherence, que se desenrola quase na totalidade dentro da mesma casa, talvez esteja mais próximo da essência do género do que se possa assumir à partida.

Quatro casais, oito amigos, reunidos num jantar caseiro e informal, ao mesmo tempo que um cometa passa ao largo da Terra, deixando um rasto luminoso bem visível. Nenhum deles tem conhecimento suficiente para explicar o fenómeno com precisão, muito menos os eventos bizarros que se irão suceder e que podem (ou não) ter alguma ligação com isso. O início parece dum filme indie qualquer sobre amizade e com banda sonora da Vodafone FM, onde as relações entre as personagens são estabelecidas e há potencial para conflitos, trocas e baldrocas, mas quando o grupo vai à rua observar o céu e as luzes de todo o bairro vão abaixo, é certo que o rumo vai mudar bruscamente.

Hugh é advogado, mas tem um irmão cientista com quem prometera manter o contacto nesta noite. Encontra um livro no carro que lhe ia levar sobre física quântica, onde os oito se deparam com algumas teorias sobre a existência de variações duma mesma realidade. Poderão estas, em determinadas circunstâncias, tocar-se? A urgência em obter respostas leva Hugh a dirigir-se à única casa do quarteirão com electricidade. Esta decisão vai acarretar uma série de consequências imprevistas, nomeadamente encontrarem uma caixa com fotografias de todos e um objeto aleatório, receberem cópias de notas escritas por eles e aperceberem-se da existência duma zona negra à volta da casa.

Emily destaca-se pela parcimónia, tentando resolver os problemas que se vão apresentando com cabeça fria, apesar de o namorado Kevin estar prestes a partir para o estrangeiro e ela não saber se pode ou não ir juntamente, e da presença de Laurie, a ex que agora está com outro elemento do grupo, Amir. Emily deverá ser a última a tomar alguma atitude condenável. Se isso acontecer, é melhor nem imaginar o futuro dos outros. Coherence destaca-se pela certeza com que desenvolve uma história tão simples baseada em conceitos da física tão complexos. Com poucos meios e muito improviso, especialmente da parte dos atores, está aqui um filme tenso, inteligente e cativante. Ficção científica reduzida ao essencial.

8/10

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Electroma (Thomas Bangalter, Guy-Manuel de Homem-Christo, 2006)

A música electrónica dos Daft Punk sempre esteve envolvida por uma estética robótica que ultrapassa os ritmos repetitivos e as letras tecnológicas e se estende aos uniformes pretos e capacetes espaciais que o duo enverga onde quer que vá, como se tivessem acabado de sair da fábrica e não de casa ou dum camarim. Quase como que lembrando os fãs de que estão pessoas por baixo de todo o aparato, ou talvez realçando a crescente capacidade de improviso, decidiram batizar o seu terceiro álbum de Human After All. Essa curiosa, talvez irónica, chamada de atenção é o mote de Electroma, filme realizado pelos mesmos nessa altura, que começou como uma extensão de ideias para videoclips.

Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter nem sequer aparecem em frente das câmaras, continuando assim sem revelar os seus rostos, antes dois actores com o disfarce completo e porte físico semelhante… cujas identidades também não se tornam expressamente conhecidas em qualquer segundo do filme. Aliás, há um momento em que os capacetes lhes saem das cabeças e (suspense) temos a continuação da ilusão de que os protagonistas não passam de obras de engenharia. Conclusão, os artistas são indivíduos que se escondem atrás de personagens robôs que desejam ser indivíduos de carne e osso.

Electroma é compreensivelmente estranho, fragmentado e musical. Logo de início, o duo aparece do nada e começa a guiar pelo deserto até uma cidade como muitas outras que conhecemos do cinema norte-americano, com a particularidade de todos os habitantes envergarem os tais capacetes prateados ou dourados. Os autómatos dirigem-se a uma instalação onde se submetem a uma operação estética, recebendo caras de látex, que passam a exibir orgulhosamente na rua. Contudo, o sol deforma-as e a reacção de quem se cruza com eles é de revolta, escorraçando-os dali para fora.

Segue-se uma longa caminhada pelas areias escaldantes da região, onde sentimos a sua aguda crise de identidade. Por muito que tentem, nunca serão humanos e nunca terão o respeito dos que os rodeiam por tentarem. Genial a analogia visual entre a forma das dunas e uma vagina. Não passa de uma miragem. Lento, com uma história mínima e com recurso a uma banda-sonora de grandes artistas, muitos dos quais nunca tiveram a popularidade dos Daft Punk apesar do talento óbvio, como Jackson C. Frank, o filme entranha-se e fica na memória. Tal como o álbum Human After All e ainda mais Random Access Memories, é interessante como os laivos de experimentalismo do duo podem ser tão acessíveis.

8/10

domingo, 21 de junho de 2015

La Piscine (Jacques Deray, 1969)

A qualidade cinemática das piscinas é inegável. O azul claro do fundo e a ondulação tênue da água podem transmitir calma ou incerteza, consoante o contexto, e, num filme como La Piscine, onde actores mais-que-perfeitos como Alain Delon e Romy Schneider passam horas a mergulhar e a nadar enquanto sopra uma brisa veranil perto de Saint-Tropez, condicionar a nossa percepção da passagem do tempo pela repetição de um simples movimento. Como o filósofo Gilles Deleuze teorizava, o movimento subordina o tempo no cinema quando a dinâmica das personagens ou objectos estão conectados pela montagem a um centro, que pode ser afectado por ou reflectir algo. Esse centro não precisa de ser um organismo, pode ser um espaço, como o apartamento que liga várias histórias em Vive L’Amour (Ming-Liang Tsai, 1994), nem sequer precisa de ser corpóreo, pode ser uma ideia, como o conceito da greve em Strike (Sergei Eisenstein, 1925). A existência de um centro à roda do qual a dinâmica das personagens ou objectos se relacionam deslinda padrões de acção-reacção e, daí, nasce o enredo.

E quantas vezes não vimos já esse espaço aquático confinado, que tanto serve para diversão, como para desporto, como pretexto para ver alguém em trajes menores, como até para matar alguém por afogamento, ser o centro das atenções? Realmente é o que acontece aqui, a piscina da mansão emprestada onde Jean-Paul e Marianne passam férias é presença activa ou passiva em quase todos os momentos, de início porque o jovem casal (nesta altura já não o eram fora da tela, mas continuavam a exibir uma química incrível, como se vê nos avanços e recuos, beijos e amassos quando ainda estão sozinhos), mais tarde por atrair a estadia do amigo Harry (Maurice Ronet) e da sua filha adolescente (Jane Birkin), e no fim por ser explorado o seu lado mais negro e alguém lá morrer numa noite que tinha condições para ser o mais pacífica possível, como as anteriores.

Tirando isso, pouco acontece. Ou seja, abraçamos a indolência com tanta satisfação quanto a que Jean-Paul e Marianne dedicam às suas férias, perdemo-nos a olhar para estes modelos, a apreciar a paisagem da Cote D’Azur, a desejar saltar para a piscina, que falhamos as intermitências desta união e que são logo apontadas quando ela nem hesita em convidar terceiros, que vêem claramente estragar o isolamento que ele estaria a congeminar. Este é um filme de crime, não fosse o realizador Jacques Deray um habitué do género, um pouco como Swimming Pool (François Ozon, 2003) só que menos meta, todavia é também um filme existencialista, como La Notte (Michelangelo Antonioni, 1961) só que em fase de namoro. Jean-Paul não é tão confiante quanto parece e Marianne duvida mais do futuro da relação do que diz. O crime surge bruscamente e não tem repercussões jurídicas. Cai, isso sim, como uma bomba entre os protagonistas, que terão de decidir se os dois anos de união são para continuar ou não passaram de um vazio (mal) dissimulado. E assim, a piscina desaparece – o seu trabalho está feito.

8/10

domingo, 14 de junho de 2015

The Cruise (Bennett Miller, 1998)

Em 1998 tive a felicidade de visitar Nova Iorque por um dia. Sublinho a palavra felicidade, pois não fazia parte do plano. Depois de uma semana de sonho na Flórida a explorar parques de diversões do tamanho de cidades e a atravessar pântanos de carro a ir e vir da costa, o que incluía o ocasional cruzamento com dezenas de alligators, chegou a hora de voltar a terras lusitanas. Por sorte ou azar, uma tempestade na Big Apple permitiu-nos aterrar no aeroporto de Newark, mas não a saída quase imediata para o outro lado do Atlântico, transformando uma escala de um par de horas numa permanência forçada para aí de 15 pares de horas. Com tanto tempo livre, como desperdiçar o acaso num terminal de aeroporto?

O trânsito caótico em direcção ao Lincoln Tunnel obrigou a algum desperdício de tempo, mas a satisfação de chegar à superfície e ter vislumbres dos prédios em tijolo burro perfeitamente alinhados numa imensa teia de ruas paralelas e dos arranha-céus, que me lembro de admirar num livro publicado pela Edinter sobre superestruturas desde que tenho memória, foi indescritível. À minha frente tive o Chrysler Building, o Empire State Building, o Madison Square Garden, o Flatiron Building, o World Trade Center, entre outros. Foi como conhecer alguém famoso e admirar-lhes a altura e o estilo, sem interacções desconfortáveis. Se não tivesse fotografias para comprovar, diria que tinha sonhado essas memórias do século passado.

De forma análoga, The Cruise torna a cidade tão palpável que quase se pode cheirar o asfalto e os cachorros quentes. Pergunto-me se terei passado pela verdadeira personagem que este documentário dá a descobrir. Timothy Levitch era, afinal, um guia de autocarro turístico. Quem sabe. Claro que não estamos a falar de um guia qualquer, mas sim de um poeta urbano que conhece todos os cantos da metrópole em que habita e que é o seu grande amor. “They're writing songs of love, but not for me / A lucky star's above, but not for me / With love to lead the way, I've found more clouds of gray than any Russian play can guarantee / La la la la / Although I can't dismiss the memory of her kiss / I guess she's not - she's not for me. ” Letra de George Gershwin, que viveu a dois quarteirões de distância. “Welcome to New York City.”

A carreira da GrayLine passa por Chinatown, Soho, Wall Street ou Central Park; tantos lugares que constroem a mística da ilha de Manhattan e sobre os quais Levitch improvisa longas e filosóficas elegias em cada círculo percorrido de microfone na mão com turistas de todo o mundo no andar de cima descapotável do autocarro. A excentricidade da sua trunfa gadelhuda, da eloquência das suas palavras e dos seus trejeitos tergiversantes contrastam com o minimalismo da sua existência, que passa por caminhadas solitárias sobre a Brooklyn Bridge, cravar residência junto de amigos e alternar um blazer horrível com outro cujo forro está roto. Uma figura colorida, uma vida a preto-e-branco.

É nesses tons que Bennett Miller filma e dificilmente as silhuetas das construções e a luz que as suas fachadas de vidro, pedra ou terracota reflectem podiam adquirir maior intemporalidade. Ao nível do início de Gentleman’s Agreement ou Manhattan. O realizador tem-se notabilizado pelas biografias de homens dedicados de corpo e alma a uma actividade específica, mais interessado no seu mindset do que em character development. Curiosamente, sem os artifícios da ficcionalização e orçamentos de milhões, a vivacidade é incomparavelmente superior. Tenho receio que os EUA tenham perdido esta espontaneidade e inocência com o 11 de Setembro, dilema inevitável quando chega a sequência final. Só lá indo… ou voltando. E voltando. E voltando…

9/10

domingo, 7 de junho de 2015

Slacker (Richard Linklater, 1991)

Quando se fala em cinema dos anos 90, é inevitável falar daquela que é hoje denominada como a geração VHS. Efectivamente, a proliferação de cópias de todos os filmes e mais alguns na década anterior graças a esse formato de vídeo permitiu que vários jovens com espírito autodidacta desenvolvessem as suas próprias opiniões e o seu próprio gosto de forma independente. Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino, Kevin Smith, entre outros, dispensaram a ingressão no ensino superior e passaram directamente detrás de balcões de clubes de vídeo ou lojas de conveniência para detrás das câmaras, já munidos de conhecimento suficiente para conseguirem materializar os seus primeiros filmes e tornarem-se na voz (ou vista) da juventude.

Richard Linklater foi um deles e Slacker foi um ponto de viragem na carreira. A sua segunda longa-metragem desafia qualquer definição e é produto dum zeitgeist muito específico. Hoje tornou-se lugar-comum dizer que a última década do séc. XX foi também a última culturalmente relevante; não vou tão longe, todavia ficou marcada por uma irreverência juvenil, uma despreocupação urbana e uma esperança quanto ao futuro que contribuíram para estabelecer novos horizontes artísticos. Para Linklater era mais importante captar essa atmosfera, as calças de ganga, o grunge, a MTV, os baldas, os fanáticos das conspirações, no fundo focar-se nas pessoas e deixar de lado as convenções da técnica e da escrita.

Um jovem está a chegar a Austin, sai da central de camionagem e apanha um táxi. Fala pelos cotovelos sobre sonhos e realidades paralelas, apesar de o condutor se manter mudo. A viagem acaba num cruzamento, a tarifa é paga e, num daqueles acasos bizarros, outro carro atropela uma velhota no mesmo sítio e continua a sua marcha. As reacções dos espectadores são variadas, a câmara vira 180° e o tal carro está a estacionar no fundo da rua, depois de ter dado a volta ao quarteirão. O condutor passa a ser a personagem principal. A cada esquina, a cada encontro conhecemos alguém novo que toma conta do filme e tenta (nem sempre com sucesso, é verdade) captar a nossa atenção com as conversas do mais aleatório imaginável.

O verdadeiro Slacker é a câmara, que deambula pela cidade sem destino, sem horários, sem compromissos. Apenas consigo encontrar precedentes para esta sensação de liberdade total em Easy Rider. Tanto um como outro adquiriram, com o tempo, um travo de extravagância anacrónica, mas, quanto mais não seja, continuam a ser objectos fascinantes exactamente por nos transportarem para outra dimensão. Falamos tantas vezes no Portugal profundo, é-nos próximo e sabemos que, longe do litoral, existe um país diferente, mas a América profunda também tem imensos contrastes que, regra geral, só conhecemos através do cinema. Mais do que os seus contemporâneos, Linklater oferece outro olhar sobre o mundano.

7/10

sexta-feira, 29 de maio de 2015

The Goonies (Richard Donner, 1985)

The Goonies é um daqueles clássicos que marcou quem nasceu ou cresceu nos anos 80. Nessa altura, Spielberg continuava a sua ascensão a rei e senhor de Hollywood com um entusiasmo contagiante, adoptando os jovens como o seu público-alvo e promovendo filmes de aventuras criativos, independentemente do género, desde que tivessem uma voz contemporânea e fossem facilmente relacionáveis. Hoje chega a ser difícil dizer qual é maior, se a vida nos subúrbios americanos enquanto base da necessidade dos autóctones por histórias improváveis como esta, se a marca destas imagens de bairros de casas repletos de miúdos com bicicletas, walkmans e ténis Converse na percepção da própria cultura americana pelo resto do mundo.

Assim ganhou o seu lugar na história do cinema este grupo de amigos, tão diferentes e tão unidos que é practicamente impossível, para quem teve uma infância pré-novas tecnologias, não rever em Mikey, Chunk, Mouth ou Data um avatar de si próprio. Também podia dizer pré-politicamente correcto, porque a razão de já haver aqui um certo anacronismo não é apenas a liberdade que as personagens principais têm (sem os jogos elaborados das consolas inventam as suas brincadeiras, sem os estímulos visuais dos tablets ficam menos tempo em casa e sem as radiações dos telemóveis têm menos controlo parental), mas ainda das pedagogias modernas que endeusam as crianças e certamente apelidariam o “truffle shuffle” de bullying ou censurariam todos os palavrões que se fazem ouvir.

Nem vale a pena ponderar no que seria The Goonies se fosse feito agora, apreciemos antes o que continua a ser, isto é, uma caça ao tesouro cheia de humor, grandes personagens e cenas memoráveis. Os Walsh, como outas famílias em Astoria, vão ceder à pressão do imobiliário e vender a sua propriedade para nesse lugar nascer um campo de golfe. Apenas um milagre pode salvar a vizinhança da ganância, a amizade do capitalismo. No sótão da casa, Mikey e companhia encontram um mapa com 500 anos dum pirata chamado One-Eyed Willy que se terá refugiado na região com o seu espólio, tendo provavelmente morto a sua tripulação para não ser vítima de invejas e traições. Em simultâneo, Jake Fratelli fugiu da prisão e escondeu-se com a mãe, o irmão e uma criatura por identificar num restaurante abandonado perto do mar.

As peripécias sucedem-se, especialmente quando o grupo entra à socapa nesse estabelecimento e descobre uma passagem secreta para um sistema de grutas. Cada um deles desempenha um papel fundamental na tentativa de ultrapassar as armadilhas que, deduzem, One-Eyed Willy terá montado para afastar os curiosos. Contudo, a ideia de um tesouro que podem usar para não terem de vender as suas casas alimenta-lhes a perseverança, para além de, a partir de certo ponto, não poderem voltar atrás por os Fratelli se inteirarem da lenda local. Destaco Robert Davi e a variação cómica dos papéis de mau da fita que sempre desempenhou, algo que Joe Pesci viria a imitar com sucesso em Home Alone. Ver The Goonies continua a ser diversão garantida, para além de uma viagem a tempos mais simples.

8/10

sábado, 16 de maio de 2015

E.T. The Extra-Terrestrial (Steven Spielberg, 1982)

Quando penso no meio em que cresci e nas pessoas que me rodearam, fico espantado por dedicar tanto tempo e atenção a uma área predominantemente artística como o cinema. Sempre fui encorajado a brincar com microscópios, a fazer construções em Lego e a ler sobre o cosmos, para além da razoável inclinação familiar, se a genética tiver algo a ver com o assunto, para a saúde, a engenharia, entre outras. O destino reservar-me-ia um futuro profissional nessa onda, no entanto, o fascínio pelo grande ecrã nunca amainou.

Suponho que, como quase tudo, foi mais um gosto adquirido, pois tive o mesmo acesso que milhares de outras crianças minhas contemporâneas. A prova é que os momentos que me marcaram a este nível tiveram uma origem perfeitamente vulgar: ir à Trindade ver The Lion King com os colegas da escola primária e ficar de boca aberta com a introdução, encontrar um VHS do Platoon aos 13 anos e constatar que havia outros horizontes além das animações Disney ou ver na RTP2 documentários do Martin Scorsese na adolescência.

Contudo, o filme ao qual tive maior exposição na infância foi, sem dúvida, E.T. The Extra-Terrestrial. Não me lembro a partir de que Natal começou a tradição, mas nessa época era obrigatório passar na televisão e eu nunca o perdia. A repetição reconforta os mais novos, o que pode explicar, parcialmente, porque me sentava no sofá todos os meses de Dezembro para apanhar a mesma história, uma e outra vez. Parcialmente, porque já nessa altura sentia que a experiência era diferente e melhorava à segunda, à terceira, e por aí fora.

Ao rever esta pérola de Steven Spielberg que deixou uma marca indelével na cultura dos anos 1980, algo que não fazia há uma década, no mínimo, fiquei com a certeza de que o tempo só fortalece o seu impacto e, por isso, a torna imortal. A imaginação tem liberdade total na inocência da meninice e poucas ideias são capazes de a estimular como a possibilidade de atravessar a fronteira da atmosfera e viajar pelo espaço ou entrar em contacto com seres que façam o caminho inverso e aterrem perto de nós, especialmente um da nossa idade.

Em adulto assome a memória dessa visão simples e sonhadora de outrora, todavia a maior injustiça que se poderia cometer com E.T. The Extra-Terrestrial seria dizer que a nostalgia é o seu atributo principal. Quando o pequeno alien é deixado para trás, por necessidade, na sequência puramente visual de abertura, o trauma do abandono num sítio estranho e a vontade de encontrar uma solução que passa a acompanhar as personagens e os espectadores daí para a frente são primitivas e impossíveis de contrariar.

Perto da clareira onde isso acontece mora Elliott (Henry Thomas), irmão mais novo de Michael e mais velho de Gertie (Drew Barrymore). O encontro inevitável gera, antes, medo, e, depois, fascínio. Como a comida conquista qualquer um, o rapaz deduz que uns M&M’s são um bom chamariz para a criatura que pensa ser um gnomo. De repente, já estão os dois no quarto de Elliott e começa a estabelecer-se um laço único e inexplicável. Michael e Gertie passarão a carregar o segredo, que é vital esconder dos “grandes”.

Ambos são importantes no desenrolar dos acontecimentos. O primeiro assume uma operação de busca e outra de resgate quando é exigido e a segunda ensina o inglês, da mesma forma que o ensinam a ela, para além de ser adorável (ninguém diria que ia sair daqui um dos anjos de Charlie). A ligação com Elliott, essa é irreplicável - partilham sentimentos e comportamentos. Ao princípio parece engraçado, quando um se assusta o outro também, estejam próximos ou não. Mais tarde, os seus estados de saúde deterioram-se em simultâneo.

Um detalhe cuja percepção se amplia imenso quando se tem outra maturidade é o efeito nocivo que a nossa atmosfera rica em azoto e oxigénio tem no extraterrestre. O funcionamento exacto do seu organismo e, em específico, do seu sistema respiratório é desconhecido. Apesar disso, ele dá-se bem dentro de água, está em sintonia com a fotossíntese das flores espalhadas por casa e a sua espécie tem um interesse claro pela botânica no início. O realizador chegou a admitir que o argumento original explicava que E.T. é uma planta.

Outro tópico que tem gerado vários rumores prende-se com as constantes referências a Star Wars. Vemos brinquedos das naves e um disfarce de Yoda no dia de Halloween, que o nosso amigo doutro planeta reconhece imediatamente. Isto, a juntar à sua capacidade de levitar bicicletas à luz do luar com o poder da mente, como na imagem mais mítica associada ao filme, semeiam a dúvida sobre se estará a usar a Força e se será um Jedi. A sua raça está representada no Senado da “space opera” concebida por George Lucas.

O que Spielberg se esforça por transmitir é a noção de procura por um lar. Essa luta revela-se universal, não só no contexto intergaláctico da história, mas, na verdade, está inerente à condição humana associarmo-nos, reproduzirmo-nos, partilhar-mos a vida com outros, precisamente crescermos num determinado meio e com determinadas pessoas ao nosso redor. Elliot e E.T. têm isso em comum, por via de uma família despedaçada com pai ausente e por via de uma separação forçada. No fundo, ambos gostariam de voltar a casa.

Talvez por isso, quando, depois de tantas peripécias, depois de morrer e ressuscitar (a incredulidade total directa de Ordet), depois de uma fuga ao governo polvilhada com puro engenho cinemático, finalmente se encontra na entrada da sua nave para regressar, o protagonista alien lance ao protagonista terráqueo um “come” sincero. A resposta é um desarmante “stay”. Chegou ao fim a aventura. Acho que não há outra cena nos anais do cinema que me emocione mais do que esta, tão simples e tão mágica que é.

A porta fecha-se rodeando o coração do E.T., que brilha no peito. No céu fica um rasto colorido igual a um arco-íris. O mais genial tema de John Williams entoa nas colunas e ecoa na alma. O Spielberg historiador é bom, mas o fantasista é melhor. Suponho que, independentemente das aptidões ou oportunidades, seja por isto que os filmes se tornaram importantes para mim: a possibilidade de pôr de lado as dúvidas e as certezas da realidade para ceder à mais pura e intangível utopia. E.T. The Extra-Terrestrial é a essência do cinema.

10/10