Esta curta foi o projecto de final de curso de Martin Scorsese. Nela, podemos já ver o uso de um tipo de música que não condiz com a imagem, realçando a bizarria das acções das personagens, como acredito ser o efeito pretendido noutros filmes, e experiências com a montagem, com vários takes da mesma acção de vários ângulos e um elevado número de primeiros planos, para estabelecer o espaço. É uma curta violenta e enigmática, para a qual já vi serem atribuídos vários significados, incluindo o nível inerente de masoquismo e auto-destruição provocada pela guerra do Vietname na sociedade americana. E assim começava a aparecer um dos maiores autores de sempre do cinema.
Domingo, 27 de Maio de 2012
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Blazing Saddles (Mel Brooks, 1974)
Quem
quiser saber o mínimo sobre cinema tem de saber que, no espectro da comédia, há
dois nomes que são sagrados há mais de quatro décadas: Gene Wilder e Mel Brooks.
Seja individualmente ou em conjunto, enquanto atores ou realizadores, as
contribuições de ambos para o aumento de gargalhadas per capita foram tremendas
e continuam a ter repercussões, basta procurar pelos seus trabalhos e
senti-las. Olhando para trás, 1974 é indubitavelmente um ano marcante nas suas
carreiras. Com Blazing Saddles e Young Frankenstein elaboraram as paródias de
western e de terror, respetivamente, que tornaram irrelevantes quaisquer
paródias de western e de terror feitas posteriormente.
Inicialmente
recebidos com críticas mistas, valorizando a qualidade dos gags mas criticando
a falta de personalidade dos filmes e o humor grosseiro, ambos vieram a ocupar
um espaço nas prateleiras da biblioteca do congresso americano, por serem
culturalmente relevantes. Uma significativa reavaliação, que só foi necessária
por um simples facto: estes filmes são loucos. É isso que transparece com
grande claridade e que se tem de aceitar desde o início, a sua personalidade é
a insanidade mental, e, particularizando para o caso de Blazing Saddles, não há
restrições do politicamente correto, não há erros de continuidade que não
possam ter a sua lógica interna, não há ator que não tenha liberdade total.
Em
algumas alturas é quase como ver a versão circense de Rio Bravo, onde a química
entre John Wayne e Dean Martin é substituída pela química entre Cleavon Little
e Gene Wilder, as pernas de Angie Dickinson são substituídas pelas pernas de
Madeline Kahn e os mauzões locais são campónios racistas que se peidam em conjunto,
enquanto jantam feijões à volta de uma lareira, mas abrindo como um filme de
Sergio Leone, com grandes planos anamórficos de um oeste calorento e árido,
pelo qual o progresso abre caminho sob a forma de uma linha férrea em
construção e trabalhadores negros são explorados como os escravos que já não
eram. Deste panorama adverso e bem estabelecido, sairá um herói improvável.
Cleavon
Little, ou Bart, passa daí para o cadafalso para xerife de Rock Ridge muito
rapidamente, uma town que um político com poucas morais, Hedley Lamarr, quer
expropriar totalmente e de borla, à força, para de seguida vender as terras à
companhia do caminho-de-ferro, que precisa delas para respeitar o traçado. Ora,
impor um negro como figura principal da justiça é iniciar uma grande confusão
numa comunidade branca e conservadora (apesar da possibilidade de toda a
população ser o resultado de incesto, já que todos têm o apelido Johnson), que
tem então de decidir se deixa de lado o racismo para combater os capatazes de
Hedley ou se ostracizam Bart, negligenciando a proteção de Rock Ridge.
O
conceito podia dar um drama muito educadinho, mas estamos a falar de Mel Brooks
e o filme só ganha com o realçar do ridículo destes conflitos. Há uma idosa num
papel secundário cuja confiança Bart tenta ganhar com conversa de
circunstância, só para ser imediatamente desconsiderado com um "up yours,
nigger" - engraçado e desconfortável ao mesmo tempo. Mais tarde, Bart dá
provas de enorme inteligência e compromisso, e a idosa oferece-lhe uma tarte em
forma de pedido de desculpa, sem se esquecer de lhe dizer para o manter em segredo
do resto dos Johnsons. Enfim, havendo um objetivo comum (derrotar o exército de
ladrões, assassinos, violadores e metodistas de Hedley) há união e
fraternidade.
A
luta por Rock Ridge leva o filme à desconstrução, passando-se os limites do
estúdio do western e espalhando-se para outras zonas da Warner Bros., seguindo
cidade fora pelas ruas de Los Angeles e acabando num cinema de Hollywood, onde
o fim do filme é projetado. São tantas as convenções que são atiradas pela
janela, que se torna difícil absorver um filme que se vai tornando sempre mais
denso e hilariante, mas a experiência é sempre recompensadora. Cleavon Little
era um ator fabuloso, que mistura a sensibilidade de Sidney Poitier com a
amigável sagacidade de Bugs Bunny num dos poucos papéis de protagonista que
teve. E o cinema cómico nunca mais foi o mesmo depois de Blazing Saddles.
8/10
Domingo, 20 de Maio de 2012
TOP5: Comboios
05. Closely Watched Trains (Jiri Menzel, 1966)
04. Strangers On A Train (Alfred Hitchcock, 1951)
02. Hugo (Martin Scorsese, 2011)
01. The General (Buster Keaton, Clyde Bruckman, 1926)
Os comboios enquanto metáfora sexual e política, sobre um jovem com necessidades, que trabalha numa estação, e numa altura de muita conturbação social, mais concretamente, em plena Segunda Guerra Mundial.
04. Strangers On A Train (Alfred Hitchcock, 1951)
Um homem convence outro, que acabou de conhecer, de que dois estranhos podem cometer um homicídio um pelo outro e safarem-se. Isto tudo, durante uma educada e longa viagem de comboio.
03. The Great Train Robbery (Edwin Porter, 1903)
Esta curta arcaica continua a ser um dos filmes mais influentes de sempre, pelo que o seu lugar nesta lista sobre comboios é merecido. Vejam-na e depois vejam o assalto a um comboio no início de The Assassination Of Jesse James By The Coward Robert Ford, por exemplo. Ou quantas vezes não foi já replicado o plano final de um homem armado a disparar directamente contra a câmara? Pois.
02. Hugo (Martin Scorsese, 2011)
O que é impressionante neste filme é a reverência que Martin Scorsese revela a tudo o que dele faz parte. O cinema, sim, acima de tudo, mas ver estações de comboio a brilhar, dezenas de planos de comboios de todos os ângulos possíveis e imaginários, com fumo a sair do que parecem ser escamas de ferro, as rodas a roncar pelos carris, tudo isso faz de Hugo uma experiência visual maravilhosa.
01. The General (Buster Keaton, Clyde Bruckman, 1926)
Para além de ser o melhor filme do Buster Keaton, logo um dos melhores filmes mudos de sempre, contém a cena mais cara da história do cinema mudo: um comboio atravessa uma ponte que explode, atirando as carruagens para o rio.
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
TRAILERS: Death In Venice (Luchino Visconti, 1971)
Acho este trailer irresistível, 40 anos depois, tem algo de intemporal.
Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Birds, Orphans And Fools (Juraj Jakubisko, 1969)
Admito que a Nova Onda
Checoslovaca tenha o seu quê de fascinante, mas sempre tive alguma dificuldade
em sentir-me absorvido pelos filmes associados a este movimento. Parece-me
sempre que não tenho conhecimento suficiente para perceber as entrelinhas ou que
não tenho a sensibilidade necessária para apreciar o estilo, como se algo se
perdesse na tradução. Birds, Orphans And Fools é mais um exemplo. A obra mais
conhecida de Juraj Jakubisko é metade delírio surrealista, metade conto
juvenil, em que sequências joviais de improviso (uma característica destes
filmes) se entrelaçam em sequências da intimidade de um trio sem rumo
(juventude desnorteada é um tema recorrente destes filmes).
O título descreve perfeitamente o
conteúdo: dois órfãos vivem despreocupadamente nas ruínas de uma cidade, sempre
rodeados de hippies, pássaros e pobreza. Cedo arranjam companhia feminina em
Martha, uma cativante loira, que, tal como eles, há muito atirou pela janela
todas as regras da sociedade e convenções sobre o que é socialmente aceitável
para se dedicar a viver livremente. Estão todos resignados com a sua situação,
numa nação oprimida pelo comunismo soviético e onde as expectativas de uma vida
melhor são inexistentes. E depois de tanta fome, morte e guerra, é fácil
perceber porque se recusam a lutar, a controlar e a entrar em conflitos.
Há certamente imagens belíssimas,
de crianças sem futuro brincando com tudo o que lhes aparece à frente, viagens
de carro pelos campos da Europa oriental, um jogo de bilhar com ovos em vez de
bolas, nudez e, inevitavelmente, violência, que, no entanto, equivalem a pouco.
O filme vai de piada em piada, numa sucessão de movimentos de câmara
desconcertantes e músicas mexidas, como se de sketches se tratassem,
transmitindo bem a indiferença das personagens, mas dificultando a nossa
identificação com as mesmas. Apetece apenas ver algo acontecer, ou quanto mais
não seja, o mínimo de continuidade. Quando Jakubisko descobre um clímax, não
tem impacto.
Talvez seja de reter a procura
por um resquício de felicidade e de prazer em tempos de dificuldade, mas mesmo
essa procura é afetada pela infantilidade e superficialidade de quem a enceta.
Não deixa de ser um filme com um olhar único dum período assolapado e num país
entretanto dissolvido, mas que continua bem presente no mapa-mundi do cinema. Mais
avant-garde que Closely Watched Trains (Menzel, 1966), mais consistente que
Daisies (Chytilova, 1966), Birds, Orphans And Fools tem algum charme e bastante
mérito artístico, mas gostaria de ter encontrado maior recompensa emocional, já
que, tipicamente, este movimento oferecia pouco contexto histórico e narrativa.
Mas talvez o problema seja da tradução.
6/10
Sábado, 12 de Maio de 2012
Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
NOTÍCIAS: Realizadores no parlamento
Os realizadores Miguel Lopes, João Salaviza e Gonçalo Tocha foram ao parlamento para serem congratulados pelo seu trabalho no cinema e os prémios de grande nível que os 2 primeiros em especial têm recebido ultimamente. Aproveitaram, no entanto, a ocasião, para realçar o paradoxo de um governo estar a homenagear feitos numa área que "está numa situação de calamidade (...) resultado de uma política cultural que está, neste momento, interrompida." Para uma leitura mais alargada, cliquem aqui.
Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Martha Marcy May Marlene (Sean Durkin, 2011)
Falar dos Estados Unidos da
América não vivendo lá é falar quase de uma realidade paralela que tem tanto de
fascinante como de assustadora. O poder, a dimensão e a multitude deste país
parecem ser propagandeados e comentados ao ponto de exaustão e mesmo assim
conseguem soar tão distantes e inatingíveis, talvez ainda mais para quem é
criado numa cultura tão introvertida como a portuguesa. Livros como On The Road
de Jack Kerouac, músicos como Tom Waits ou filmes como Two-Lane Blacktop
levam-nos por viagens aos confins do território, sugerindo um espírito de liberdade
e aventura contagiante, que é, por vezes, motivado por razões obscuras ou que
tem consequências torpes.
Martha Marcy May Marlene chega a
ser opressivo na sua exploração por esse negrume que também está presente na
América mais profunda. De vez em quando aparecem filmes como este, em que quem
os faz acusa alguma dúvida ou mesmo descrença nos ideais que se pretende
associar à nação, porque para além das histórias de sucesso e riqueza há também
histórias de solipsismo e tragédia e porque a sua grandeza é feita à custa de
muita deceção. E, no fundo, são estes contrastes que humanizam e tornam
interessante uma cultura que perde cada vez mais noção da realidade, à medida
que novos paradoxos do capitalismo e da tecnologia alienam as pessoas, ao criarem
padrões de vida artificiais e ao vulgarizarem a privacidade.
Por conseguinte, chegamos a esta
personagem feminina, que em determinados pontos do filme acaba por ter todos os
nomes do título, e cuja confusão, quer se manifeste em termos de comportamento
ou raciocínio, é alimentada por uma grande recusa em se conformar com a
estupidificação da sociedade e um grande desejo de pertencer a algo. Vemos
Martha pela primeira vez em fuga, entrando numa bouça, sem olhar para trás,
apesar do chamamento de um homem fora de câmara. Vai ao encontro da sua irmã
mais velha, que se conformou voluntariamente a uma vida de classe média-alta e
está bem na vida, alguém que não vê há 2 anos. São órfãs que cresceram
separadas, com resultados muito diferentes.
Lucy é delicada e paciente, mas é
difícil esquecer que abandonou Martha ao seu destino, por isso não é surpresa
que a segunda tente a todo o custo ocultar a sua experiência traumática
enquanto membro de um culto naturalista, machista e criminoso que se aproveitou
da sua ingenuidade, aumentando as suas inseguranças, transformando o seu
comportamento em socialmente inaceitável e abusando do seu corpo, mas
mantendo-a presa com um conceito artificial de família. O filme apresenta assim
duas realidades: o passado, com uma quinta e uma irmandade calorosa mas
distorcida e o presente, com uma casa num lago e uma irmã de sangue
aparentemente perfeita mas sem noção.
O realizador Sean Durkin consegue
atingir um tom de ameaça e incerteza constante, quer seja graças às atitudes
erráticas de Martha, aos silêncios desconfortáveis, à argúcia déspota de
Patrick, o líder do culto, ou à ambiguidade de certas cenas, tudo fatores que tornam
desconfortável a simplicidade aparente do filme. A mais pequena ação das
personagens parece isenta de inocência, quando Patrick apanha uma rapariga a
fumar age com uma passividade ameaçadora, quando o marido de Lucy pergunta a
Martha quais são os seus planos parece mais interessado em vê-la pelas costas
do que perceber porque não a via há tanto tempo, até o ato de experimentar um
vestido parece tudo menos natural.
Em Magnolia (Paul Thomas
Anderson, 1999) ouvia-se "eu tenho tanto amor para dar e nunca sei onde o
pôr", algo que me parece adequado para Martha. O vestido é cor-de-rosa, a
cor do amor, e acaba manchado de urina. A identidade desta rapariga está fraturada
e ela acaba por nunca reagir condignamente ou ter uma resposta emocional lógica
seja em que situação estiver, o que leva o espectador à paranoia. É um papel
dificílimo que Elizabeth Olsen (yup, a irmã mais nova das gémeas preferidas do
cinema infantil dos anos 90) carrega com perfeição, alternando vulnerabilidade
com acrimónia nas alturas mais surpreendentes. Martha conhece 2 famílias e não
pertence a nenhuma. Abruptamente, acaba.
9/10
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