domingo, 25 de janeiro de 2015

Steven Spielberg e as Silhuetas

Amblin' (1968)

Close Encounters of the Third Kind (1977)

Raiders of the Lost Ark (1981)

E.T. the Extra-Terrestrial (1982)

Amistad (1997)

Artificial Intelligence AI (2001)

War Horse (2011)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

The Lego Movie (Phil Lord, Christopher Miller, 2014)

Tenho no sótão da minha casa dezenas de caixas dos mais variados Lego (vamos já esclarecer aqui um ponto, estes tijolos de plástico não têm plural, da mesma forma que lápis também não tem), desde casas, a castelos, a submarinos, a baldes com montes de peças para usar aleatoriamente. Era um grande fã em criança e acredito que isso me tenha aproximado desde muito cedo do fascínio pela construção que influenciaria a minha escolha ao entrar no ensino superior, levando-me à Engenharia Civil.

Pondo de lado a minha euforia infantil (devidamente reprimida, para não destoar da reputação de crítico isento que de certeza me atribuem além fronteiras) por finalmente alguém ter conseguido levar ao grande ecrã um filme que respeita a dinâmica destes brinquedos, afinal que trapalhada de história poderia ter sido inventada? Não pude deixar de recear o pior depois de uma cena inicial confusa sobre uma super-arma a ser roubada dum feiticeiro, que recita uma profecia sobre um herói que evitará desgraças futuras.

Corte para Emmet, um banal boneco de cabeça amarela e mãos arredondadas, que trabalha nas obras e segue as instruções de tudo, tão desejoso de se inserir numa sociedade onde cada parte encaixa noutras na perfeição que não se vislumbra nele um pingo de personalidade. Pode ele ser o especial de corrida que vai salvar o(s) mundo(s) Lego do seu próprio presidente, obcecado com a ordem ao ponto de estar prestes a largar quantidades descomunais de cola para nada voltar a sair do sítio?

Inesperadamente unido ao único objecto que pode travar este maléfico plano, a chamada peça de resistência (o belo do trocadilho com “pièce de résistance”), um grupo dissidente de elite, os Master Builders, que defendem a liberdade criativa, tem mesmo de depositar as suas esperanças em Emmet, por força das circunstâncias, apesar das inúmeras reticências. Ironicamente, é a sua visão limitada que os vai permitir entrar despercebidos no covil do presidente. Seguir as regras também tem vantagens.

Tal como em cada conjunto Lego por montar, os criadores do filme trazem muitos elementos para cima da mesa e vão conseguindo juntá-los das formas mais inesperadas. A acção convoca personagens improváveis como o Batman ou Chewbacca, ganha força com as vozes de Liam Neeson ou Morgan Freeman, e percorre vários cenários, dos quais o mais surpreendente demora a ser revelado e traz uma base emocional que dá outro significado a todos os pormenores da história. Fica a convicção de que os Lego são para todas as idades.

8/10

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

The Theory Of Everything (James Marsh, 2014)

Nunca mais será possível ver qualquer filme em que o protagonista sofre com algum tipo de incapacidade motora ou mental sem pensar num diálogo específico de Tropic Thunder entre as personagens de Ben Stiller e Robert Downey Jr. no qual o segundo revela ao primeiro uma lei básica de Hollywood: “never go full retard”. Por exemplo, Dustin Hoffman em Rain Man parece atrasado, mas é autista, conseguindo contar cartas e sacar dinheiro num casino. Óscar no papo. Tom Hanks em Forrest Gump é lento, contudo ganha competições de ping pong e torna-se num herói de guerra. Óscar instantâneo. Sean Penn em I Am Sam esforça-se imenso, porém entrou em modo full retard. Mãos vazias.

A ideia tem a sua razão de ser, há que admitir. A sorte está do lado de Eddie Redmayne no que diz respeito a prémios individuais, pois com o papel de Stephen Hawking representa um cientista brilhante com a desdita de lhe ser diagnosticada esclerose lateral amiotrófica em 1963, a mesma doença neurodegenerativa que motivou o Ice Bucket Challenge, para lhe dar um contexto mais moderno. Apesar de ser raro manifestar-se na juventude, neste caso foi descoberta aos 21 anos e as melhores perspectivas apontavam para uma esperança de vida inferior a dois anos. The Theory Of Everything é de fazer chorar as pedras da calçada e ainda por cima é uma biografia. Parece o isco perfeito.

Deixando de parte estes rótulos e este cinismo em geral, a eficácia constante do drama histórico inglês é inegável, tornando-se difícil ignorar a qualidade dos valores de produção e da interpretação principal. Pela investigação no domínio da cosmologia, pela preocupação em tornar compreensíveis para o público geral conceitos complexos através do livro A Brief History Of Time e por ser um sobrevivente contra todas as expectativas, Stephen Hawking ultrapassou a barreira do anonimato académico para se transformar numa figura da cultura popular, a quem falta apenas um prémio Nobel por as suas teorias físicas continuarem a carecer de provas empíricas.

The Theory Of Everything aborda um pouco esses três aspectos e, principalmente, a vida privada, marcada por uma longa relação com Jane Wilde, aluna de humanidades (mais tarde professora) e católica praticante (facto de relevo), que começa nos tempos da universidade e termina nos anos 90, ambos embarcando em segundos casamentos. Casais que se apaixonam e vão perdendo a chama mas nunca a admiração e o respeito mútuo deixam-me mais piegas do que grandes mecanismos dramáticos como doenças devastadoras, confesso. Não há dúvida de que Eddie Redmayne toma conta do recado. De resto, prevalece uma falta de risco que se traduz em competência meio enfadonha.

7/10

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A Casa (Sharunas Bartas, 1997)


O ficheiro .srt que acompanhava a versão que comprei algures na internet com 100% de desconto informava-me que A Casa continha apenas 42 linhas de diálogo, todas proferidas no início ou no fim, um prefácio e um epílogo breves, a emoldurar o que só poderia ser um filme que se move à velocidade de um caracol, vindo do sempre indolente Sharunas Bartas. Depois de Three Days ou Few Of Us, mais indicados em cenários cirúrgicos como substitutos na administração de anestésicos, só podia estar prestes a vivenciar uma relação causa/efeito com a minha próxima sesta.

Não podia estar mais enganado; A Casa é um festim de efeitos especiais, que faria corar Michael Bay. Depois de uns espectaculares planos de pombas a esvoaçar por uma sala poeirenta, que devem ter exigido green screen a torto e a direito, mais seis meses de pós-produção em frente ao computador, o protagonista aparece pela primeira vez a acordar de um sono profundo e a ser imediatamente testado em cenas de uma exigência física ímpar, como a andar, a caminhar, a deambular e até a vaguear pela casa do título!

Eu sei que isto parece uma introdução já de si bastante intensa, mas têm de acreditar quando digo que isto não é nada comparado com o que se segue. Outras pessoas vivem ali e não falam umas com as outras, aumentando assim a incerteza do enredo. As nuances são intricadas e quase se diria que alguém esconde um terrível segredo. Estarão afectados por um vírus que causa mudez? Terá toda a gente perdido a sua roupa em batalhas com zombies esfomeados? Estará o rapaz a imaginar tudo? A incerteza é de cortar à faca.

São duas horas que passam num instante. Há muito tempo que não via algo que se comparasse no género de “filmes que mostrem crianças nuas a brincar no meio de veludo” ou de “filmes em que um senhor de ascendência africana joga xadrez sozinho e perde”. A montagem merece elogios, e chegamos a ver dois cortes por cada hora, algo impensável, mesmo com a tecnologia actual. Bartas reinventa-se completamente e assina aqui uma obra-prima de causar palpitações ao espectador mais corajoso. Ou não.

2/10

domingo, 11 de janeiro de 2015

TCN Blog Awards 2014

11 de Janeiro de 2015, ano novo! Chegou o dia dos TCN Blog Awards... 2014? É verdade, desta feita o evento que congrega o melhor da blogosfera de cinema e TV foi adiado umas semanas, podendo quase dizer-se que passa a ser o evento de abertura da award season, que depois se prolonga por outras zonas geográficas, inclusive Hollywood. Yup, tudo começa com umas dezenas de cromos fechados no mesmo espaço durante uma tarde a morfar, a ver vídeos, a distribuir prémios e a trocar piadas.

Sendo esta a terceira vez consecutiva que marquei presença, posso dizer que os TCN Blog Awards já se tornaram uma espécie de tradição para mim. Reservo um dia por ano para me deslocar da Invicta à Capital sem pensar duas vezes e é um prazer viajar umas horas de comboio, almoçar à beira-rio, passear por algum recanto, como, mais uma vez, pude fazer, graças à meteorologia favorável (para um nortenho, pelo menos), e conviver com tanta gente que sofre da mesma patologia que eu: uma compulsão irresistível pelo ecrã, seja o grande ou o pequeno.

Sem dúvida que esta edição foi mais descontraída e emotiva que as anteriores. Apesar do maior peso organizacional, o Carlos Reis conseguiu que este evento não caísse por terra e transformou-o mais num encontro, menos num espectáculo, mais Globos de Ouro, menos Óscares, com mesas e comida, sem plateia, grandes convidados especiais e luzes constantemente apagadas. Aposta ganha. Acho que todos os participantes deram, como nunca, valor ao privilégio que é esta reunião.

Apesar de não ter ganho na categoria em que estava nomeado (Melhor Blog Individual) e começar a tornar-me no DiCaprio desta cena (quatro anos, cinco nomeações, zero vitórias - o que vale é que saco resmas de modelos) gostei de ver espaços muitos personalizados de cinema como o Close-Up, o CinemaXunga ou o Hoje vi(vi) um filme levarem para casa a mítica claquete de acrílico. Parabéns a todos os vencedores, o prémio maior, Blogger do Ano, em especial, foi bem entregue ao Rui Alves de Sousa.

Para além destas pessoas, deixo também um abraço para o habitual mestre de cerimónias Manuel Reis, que já merece um TCN especial ou um normal pelo podcast no TVDependente, o Edgar Ascenção, claramente fundamental nesta empreitada, o Nuno Reis (Antestreia) e a Rita Santos (Not a film critic) pela companhia e boa disposição, e todos aqueles com quem troquei algumas palavras, beijinhos ou apertos de mão e me fizeram, mais uma vez, voltar ao Porto com a sensação de que a deslocação valeu a pena.

Over and out!

PS: Alguém leve um carregador para o bandido do Pedro CinemaXunga no próximo ano.

Vencedores dos TCN Blog Awards 2014:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

The Wolf Of Wall Street (Martin Scorsese, 2013)

Falar de The Wolf Of Wall Street sem falar de Goodfellas e Casino é basicamente impossível, pelo que vou começar por aí. Jordan Belfort perfila-se, tal como Henry Hill e Sam Rothstein antes dele, um criminoso sem morais, cuja longa passagem por um mundo onde a corrupção e a ganância espreitam a cada esquina, neste caso a alta finança, nos casos anteriores a máfia e os jogos de azar respectivamente, conhece uma fase ascendente e uma fase descendente, ambas com enorme estrondo.

Nunca um filme de Scorsese foi tão longo, teve uma montagem tão frenética ou incluiu tantos “fucks”. Ninguém diria que um senhor de 70 anos pudesse ainda demonstrar tamanha audácia, e isso só reforça, apesar dos muitos solavancos na vida profissional e pessoal, o estatuto do realizador como um dos maiores iconoclastas do cinema, que sempre conseguiu impor o seu estilo, mesmo quando as polémicas e condicionalismos tentavam sufocar o trabalho.

Hoje, não há dúvidas de que a sua carreira é um tesouro artístico que resume um número infinito de influências, desde os dramas familiares do neorrealismo italiano aos jump-cuts da nouvelle vague francesa, enquanto desenvolve estudos de carácter repletos de atitudes contraditórias, que normalmente secundarizam a história para realçar os próprios dilemas e erros por que as personagens atravessam. Sofrem por serem quem são e tentam convencer-se de que estão certos, mesmo quando recorrem a ilegalidades.

Embora estas constatações não tenham sido a regra nos últimos anos, pois The Departed, Shutter Island e Hugo progridem de forma mais convencional, com mistérios e reviravoltas à mistura, são-no outra vez, sem sombra de dúvida, em The Wolf Of Wall Street. O livro do corrector da bolsa Jordan Belfort sobre as suas experiências em Wall Street originou um argumento à Nicholas Pileggi, o autor, perito em crime organizado, dos clássicos dos anos 90 supramencionados.

Senão vejamos: a acção começa in media res, com anões a serem atirados contra alvos no meio do escritório da Stratton Oakmont, a empresa fraudulenta criada por Belfort, uma das brilhantes ideias ali aplicadas para levantar o moral das suas centenas de trabalhadores viciados em dinheiro, sexo e drogas, numa introdução à imagem e semelhança do passeio de carro com um pobre coitado prestes a ser esfaqueado na mala com que começa Goodfellas.

Logo a seguir, com narração e o derrubar da quarta parede, DiCaprio abre as hostilidades na sua interpretação mais extravagante. Em segundos, vemo-lo snifar cocaína do rabiosque de uma prostituta, declarar o seu património com a maior arrogância possível, guiar um helicóptero todo mamado e… andamos para trás, para o seu primeiro dia a vender acções, onde conhece Mark Hanna (Matthew McConaughey), que o apadrinha e lhe dá conselhos úteis como masturbar-se regularmente e não se preocupar com os clientes.

Não há escrúpulos e estes homens de fato e gravata caríssimos são do mais escroque imaginável. Aliás, estes são talvez os maiores criminosos que Scorsese alguma vez levou ao cinema, já que pelo menos na máfia há uma dinâmica de família que se deve respeitar e que regula o raio de actividade de cada um. Em The Wolf Of Wall Street não há barreiras e o mais preocupante é o poder que têm sobre os destinos da economia, não só americana mas também mundial. Estivemos (estamos?) entregues a dementes.

Tanta ostentação chega a ser opressiva. Este excesso conflui em comédia frequentemente e não dá para conter as gargalhadas quando Belfort júnior e o pai discutem as inovações na depilação feminina, entre outras situações, só que também cansa ver tanto desperdício e tanta falta de ética durante três horas. Não consegui sacudir este sentimento, que me impede de colocar The Wolf Of Wall Street no mesmo nível de Goodfellas ou Casino. Independentemente, a técnica e o show de DiCaprio merecem ser canonizados.

8/10