segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Shot In The Dark (Blake Edwards, 1964)


A história da pantera cor-de-rosa começa nestes filmes de Blake Edwards. Foi em 1963 que estreou The Pink Panther, originalmente um veículo para David Niven, que acabou por se tornar num one man show de Peter Sellers, na altura um ator secundário, e o catapultou para o topo da lista dos homens mais engraçados do planeta Hollywood. Nos créditos iniciais, a personagem animada que se tornaria um cartoon inolvidável e que servia apenas como analogia ao enredo sobre um ladrão de jóias de olhos postos num diamante raro na posse duma princesa. Niven passar para segundo plano é a prova de que não há fórmulas para os gostos do público e o sucesso por razões inesperadas do filme só podia dar em sequelas, com o foco apontado para outro lado.

Por conseguinte, A Shot In The Dark deixa para trás tudo exceto o inspetor Closeau, personagem literalmente criada por Sellers como um homem digno mas sem noção, que os argumentos se encarregam de pôr a resolver o mais rebuscado dos casos da mais estapafúrdia das formas. Num longo e, primeiramente, incompreensível plano-sequência, a câmara olha para dentro de uma mansão, seguindo várias pessoas pelas janelas, a subir escadas, a entrar em quartos, a esconderem-se uns dos outros, até que alguém é assassinado. Dá logo vontade de voltar atrás e decifrar quem é quem, mas é mais divertido seguir em frente e deixar Closeau chegar. A loira, curvilínea e despassarada Maria Gambrelli (Elke Sommer) é desde cedo identificada como principal suspeita na morte do chauffeur Miguel, mas o inspetor não acredita nessa possibilidade, seja por causa do seu inimitável instinto ou por estar perdido de amores pela criada da mansão do milionário Ballon (George Sanders, sempre irredutível).

Blake Edwards simplifica a realização ao máximo: instala a cena e simplesmente deixa 2 ou 3 câmaras a rolar, à medida que Sellers desenvolve com toda a naturalidade elaborados gags e entrega os seus diálogos ao ritmo que lhe parece melhor. Comprometer a componente técnica para servir a comédia não seria mau, se as piadas valessem todas a pena, o que não acontece. As cenas numa colónia de nudistas e quando Closeau tenta fazer de Ballon um arguido à medida que os dois jogam bilhar são risíveis e fazem A Shot In The Dark valer a pena, mas há também bastante exagero nesta liberdade total dada a Sellers, e que resulta em alguma falta de objetividade do filme, notória sempre que são repetidas as absurdas conclusões do agente policial ou as aleatórias aparições de Kato, o seu criado asiático (e aprendiz de artes marciais).

Os assassinatos sucedem-se, os corpos empilham-se e a conclusão destes mistérios fatais é surpreendente. Herbert Lom tem uma aparição subestimada enquanto o superior de Closeau, lentamente levado à loucura pela total incompetência do seu subordinado, que, sabe-se lá como, consegue resolver os crimes. Há muita sofisticação tanto na construção da personagem principal, como na whodunnit que está na base de A Shot In The Dark, mas a falta de ritmo e a direção pouco objetiva de Blake Edwards fazem o filme arrastar-se e nem sempre ser merecedor de gargalhadas, ficando apenas reforçada a opinião de quem refere The Pink Panther Strikes Again como a melhor sequela. Mas que não haja confusão: Peter Sellers é um génio.

5/10

sábado, 28 de abril de 2012

FOTOGRAFIAS: Andrei Tarkovski

Tarkovski realizando Andrey Rublyov. Uma bela fotografia a preto e branco do mestre a dar indicações ao actor principal do filme.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

TRAILERS: Cosmopolis (David Cronenberg, 2012)

David Cronenberg parece assinar o seu filme mais frenético da última década com uma adaptação do visionário escritor Don DeLillo. O filme é produzido por Paulo Branco e vai estar em competição em Cannes. We, we, we so excited!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

The Hunger Games (Gary Ross, 2012)


Num futuro distópico, 2 jovens dos 12 aos 18 anos são escolhidos anualmente, por sorteio, em cada um dos 12 distritos sob domínio do Capitólio, para participar no evento televisivo nacional, os The Hunger Games, em que se matam uns aos outros num estúdio que rivaliza, em dimensão, com o de The Truman Show, até haver só um vencedor, para gáudio dos telespectadores do núcleo rico da nação.

A morte transformada em espetáculo não é um conceito inovador. Quais gladiadores, os "tributos" humanos passam de miseráveis escravos a estrelas de um reality show perverso, criado há várias décadas por um governo sombra central para punir uma rebelião mal explicada dos territórios oprimidos, assim controlados pelo massacre das suas gerações futuras e humilhados com tal exposição mediática.

Battle Royale (Kinji Fukasaku, 2000) apresentava já um conceito similar, mais como uma alegoria para uma sociedade descrente na juventude mas que não oferece compreensão ou futuro à mesma, desperdiçando-a e formatando-a para a obediência ao estado através do medo, do que como um olhar preocupado ao aumento das discrepâncias sociais e do voyeurismo incitado pela televisão e novas tecnologias.

Baseado no primeiro volume de uma trilogia de best sellers americanos, The Hunger Games é um exercício válido em futurologia que parece mal desenvolvido no cinema, sendo difícil de dizer se tal acontece para deixar as sequelas preencherem as pontas soltas ou se, apesar da pertinência da sua premissa, tem mais valor pelas suas implicações sociais do que pela criatividade da escrita de Suzanne Collins.

Começamos no pobre Distrito 12, onde Katniss se voluntaria para o programa, passando à frente da sua irmã mais nova, inicialmente selecionada de forma aleatória. Interpretada com segurança por Jennifer Lawrence, uma atriz com o raro talento de parecer arrogante e enigmática mas com pontos fracos, impossível de não gostar e destinada ao heroísmo, é enviada para a capital com Peeta (Josh Hutcherson).

É interessante como a sua falta de destreza social se torna atraente para aqueles que anseiam vê-la matar ou morrer no ecrã e mesmo ela parece abraçar momentaneamente a sua efémera popularidade, os luxos concedidos, os desfiles públicos e as entrevistas surreais com o apresentador Caesar Flickerman (Stanley Tucci de cabeleira azul) mas acaba a desafiar o sistema e ser o arauto de uma nova revolução.

Esta exposição é doentia e torna-se desconfortável pensar neste lado quando a matança começa e vemos o que se segue ao glamour. Na arena há inúmeras nuances e o trabalho de câmara trémulo e sempre focado em Katniss aumenta a intensidade e a visceralidade da experiência, tornando o espectador num concorrente. Pena os outros rapazes e raparigas não serem mais que clichés ambulantes.

Aliás, desenvolver as personagens é algo que o filme não faz muito bem, fascinado que está em mostrar cenários futuristas e o dia-a-dia da preparação dos "tributos", o que se torna fastidioso rapidamente. Não é claro porque é que só após 74 edições dos The Hunger Games os povos oprimidos pelo Capitólio parecem dispostos a revoltarem-se nem qual é o desfecho. Há curtos flashbacks que nada esclarecem.

Chega-se ao fim com contexto insuficiente, não obstante algo como meia hora a mais de cinema. Se este é o franchise que está a destronar Twilight na lista de preferências dos adolescentes, não deixo de ficar contente, porque há profundidade intelectual em The Hunger Games. Enquanto filme é esteticamente consistente, frequentemente instigante, mas também um pouco insatisfatório.

6/10

sexta-feira, 13 de abril de 2012

TOP5: Beijos

Hoje é o Dia Internacional do Beijo! Por isso, aqui vai um Top5 comemorativo das 5 melhores e mais memoráveis beijocas da sétima arte.

05. Lady And The Tramp (vários realizadores, 1955)
Um beijo canino e com sabor a esparguete.

04. Titanic (James Cameron, 1997)
Peguem nos lenços de papel, o Titanic está prestes a ir ao fundo! Mas não antes de um beijinho na proa... e de sexo num carro... e da aparição das mamocas da Kate Winslet.

03. Casablanca (Michael Curtiz, 1942)
Continua a ser um dos filmes mais falados e conhecidos de sempre, e muito graças à química inimitável entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, que culmina, para as suas personagens cheias de passado e remorsos, com um beijo apaixonado no escuro. "You must remember this..."

02. From Here To Eternity (Fred Zinnemann, 1953)
O eterno beijo molhado na praia.

01. Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)
Tem de ser o primeiro na minha lista; Hitchcock filma o chocho mais hipnotizante do cinema, completo com néons atrás de cortinas, a câmara a rodopiar à volta de James Stewart e Kim Novak e uma belíssima história por detrás.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

10.000 Visitas


O Narrador Subjectivo recebeu hoje a sua 10.000ª visita! Obrigado a todos os seguidores do blog, amigos no Facebook e leitores ocasionais :D Saludos

terça-feira, 10 de abril de 2012

CITAÇÕES: Naked (Mike Leigh, 1993)

Johnny (David Thewlis): No matter how many books you read, there's something in this world that you never ever ever ever ever fucking understand.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Plan 9 From Outer Space (Edward D. Wood Jr., 1959)


"Greetings, my friend. We are all interested in the future, for that is where you and I are going to spend the rest of our lives. And remember my friend, future events such as these will affect you in the future. You are interested in the unknown... the mysterious. The unexplainable. That is why you are here. And now, for the first time, we are bringing to you the full story of what happened on that fateful day. We are bringing you all the evidence, based only on the secret testimony of the miserable souls who survived this terrifying ordeal. The incidents, the places. My friend, we cannot keep this a secret any longer. Let us punish the guilty. Let us reward the innocent. My friend, can your heart stand the shocking facts of grave robbers from outer space?"

Assim começa, com este desmesurado discurso do vidente Criswell, a magnum opus de Edward D. Wood Jr., a delirante narrativa de ficção científica que mistura zombies e extraterrestres humanoides muito antes de Hollywood popularizar estes mash-ups de mitologias com Pirates Of The Caribbean (zombies e piratas) ou Cowboys & Aliens (duh), a fita que ainda hoje, mais de 50 anos após a sua conceção, é denominada como a pior de sempre. Meu amigo, dificilmente estarás preparado para o que vais ler! O futuro reserva-nos muitas surpresas e temos de conhecer os factos para ficarmos melhor preparados para as acolher! Tudo o que aparece neste filme aconteceu e pode preceder acontecimentos globais duma dimensão incomensurável e com consequências inimagináveis!

Ou então não. Criswell sai de cena, mas a sua voz continua a ressoar, como uma presença omnipotente, preenchendo espaços em branco, num mecanismo de narração que viria a ser muito influente em Terrence Malick. Plan 9 From Outer Space começa com Bela Lugosi idoso a enterrar a sua esposa, que mais tarde percebemos ser a gótica original Maila Nurmi, mais conhecida no mundo artístico como a jovem Vampira, sendo essa diferença de idades o nonagésimo-primeiro pedido de suspensão de descrença do filme em 5 minutos. No céu, um avião comercial, pilotado por Jeff Trent, cruza-se com uma nave espacial, e a partir daí fica óbvio que algo de muito anormal se vai passar. Em breve, o velho morre também e o estranho casal renasce dos mortos, graças a uma arma de eléctrodos, para causar danos.

Acontece que os alienígenas são mais evoluídos que os terráqueos e vinham em paz para tentar evitar que a corrida ao armamento, assunto na ordem do dia nos anos 50, dado o início da Guerra Fria, levasse, depois do desenvolvimento das armas nucleares, à descoberta da solarbonite, uma substância que causa a explosão das partículas solares e que, usada em bombas, pode originar uma reação em cadeia capaz de apagar do mapa todo o universo, mas a constante falta de contacto e a sonegação das visitas das naves por parte dos governos deste planeta, levaram os visitantes a crer que não se pode confiar em nós e que a nossa estupidez e arrogância é um perigo para todos. Vai daí, o melhor plano que conseguem delinear é criar 2 ou 3 zombies num cemitério nos arredores de Hollywood.

Isto é mau, muito mau. Não só a história, com mais buracos que um queijo suíço, mas os atores, a realização, os cenários, o vestuário, há cenas que mudam de dia para noite em cada corte, há discos voadores presos por fios visíveis, há um sósia de Lugosi que tem de cobrir sempre a cara por estar a substituir a lenda do terror depois da sua morte durante a produção, chega a ser difícil acreditar que Ed Wood não planeou um spoof no género dos que inundariam os anos 80, muitos deles cortesia dos irmãos Zucker. Ao longo dos anos tem-se assistido ao fenómeno de idolatria da comicidade não intencional de Plan 9 From Outer Space e o filme de 1994 de Tim Burton sobre o realizador trouxe muita simpatia por todas estas figuras estranhas que desfilam em frente à câmara.

Biografias à parte, a verdade é que me senti entretido em alguns momentos, o que não é suficiente para me armar em vanguardista e falar sobre uma obra-prima que é genial de tão má que é, o que não faz absolutamente sentido nenhum, mas também não posso falar num nadir do cinema mundial. Tem piada e, em abono da verdade, o discurso final do alien Eros mostra tão bem a bajulação arrogante que a humanidade por vezes devota a si mesma. Eros fala em destruir o nosso mundo caso não mudemos de atitude e um tenente da polícia quer levá-lo para a esquadra. Eros ri-se e nós rimo-nos também. Plan 9 From Outer Space é assim, ingénuo e imperfeito, excêntrico e espirituoso. E claro que, no fim, lá vem Criswell outra vez, para nos lembrar que a Terra é um lugar muito, muito estranho...

3/10