sábado, 18 de abril de 2015

The Red House (Delmer Daves, 1947)

Quando Edward G. Robinson é mencionado, automaticamente vêm à memória gangsters imperscrutáveis e homens honestos arrastados para espirais de crime e mentira, ou seja, estamos a falar de uma figura que não só marcou o film-noir como excedeu os limites da versatilidade no género, pois foi capaz de interpretar com igual qualidade papéis de naturezas antagónicas, uns secundários, outros principais.

O isco que me puxou até The Red House foi vê-lo num ambiente campestre a fazer de agricultor, muito longe do fumo dos charutos, da noite urbana e das femme fatale de Double Indemnity, Key Largo ou The Woman In The Window. Apenas a lengalenga dum passado que não desaparece e volta para assombrar o presente pode remeter para esses cenários, todo o resto tem um sabor diferente.

Este thriller rural começa com uma introdução narrada algo condescendente, que não deixa de transmitir uma paz de espírito que, claro, será corrompida pela história. Também somos apresentados ao casalinho adolescente Meg e Nath, que começam como apenas colegas de turma, até porque o segundo já tem uma namorada que dá bastante trabalho.

Trabalho, num sentido mais literal, é o que o jovem procura junto do pai adoptivo de Meg, que precisa de ajuda na quinta, especialmente tendo em conta que uma das suas pernas é uma prótese de madeira e que a idade já não perdoa. Pete parece bastante afável e cordial, até Nath decidir andar pelo bosque contíguo, primeiro como atalho, depois por curiosidade.

O velho tenta um pouco de tudo para afastar quem quer que seja do extenso arvoredo, vocifera maldições infundadas, faz ameaças e chega a manter um guarda com demasiada vontade de disparar a sua espingarda. Claro que tudo isto motiva ainda mais uma adolescente para fazer o que não deve, por muito bem-educada e submissa que seja. Conversas sobre uma casa vermelha abandonada atraem Meg e Nath ainda mais.

À medida que a desobediência da rapariga cresce, também a memória de um crime que ficou por resolver se agiganta e degrada a saúde mental de Pete. A presença de Edward G. Robinson é das mais ambíguas da história do cinema – quem espera que as feições e a baixa estatura, adequadas a um avô amável e calmo, possam esconder impulsos assustadores? Quando ele arregala os olhos, tudo passa a estar em dúvida.

Quando vemos a tal casa pela primeira vez temos a impressão de que não pode ser doutra cor para além de vermelho, apesar da fotografia a preto-e-branco. A ventania do planalto e o tema de Miklos Rosza assaltam os ouvidos. The Red House é surpreendente? Nem por isso, mas é eficaz a jogar com os sentidos e tem argumentos suficientes para merecer maior destaque do que costuma ter.

8/10

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